domingo, 2 de agosto de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE V



SÃO LUIS, PROVÍNCIA DO MARANHÃO, 01 de Maio de 1860

Caro Irmão

Que maravilha receber tua missiva! Estive imaginando o porquê de ficares de parcimônia em me escrever! Pensei que tivesse ficado zangado quando fiz menção de brigar contigo por causa de tua turronice quando fiz troça por causa de Marilia! No final, interesses acabam se encontrando; o Manduca Zacarias desistiu de vez de mim e arrastou a asa para ela, que , ao que se conta, já está cantando aos quatro ventos o noivado! Bom, assim as coisas se aquietam...

Espero que possas escrever de melhor lua, pois quero te ver sorrindo , sem essa de ficares macambuzio a cada tempo; sei que tens afinco em teus estudos e isso não te dá dores de cabeça; o que, então , te deixa assim tão triste? Espero que não seja por minha causa...

Te conto aqui um mexerico que peguei de uma amiga, a Cecília, cujo pai é escrevente do Tribunal da Relação, mas que o papai vai contar em breve; porém, não resisti e te conto de primazia: ele está pra ser nomeado Juiz de Paz, por merecimento!!! Quase o meu coração parou; nosso pai é um homem honrado e reconhecido como advogado, e é mais do que merecida a nomeação, mas não dê a entender que já sabes quando for escrever, viu? Segredo de irmãos...deixe ele te passar a notícia.

Não tenho muito mais o que comentar, apenas conversa de mulher, que tenho certeza não te interessa; não deixe de mandar notícias, meu irmão, e que Deus te guarde..

Beijo Afetuoso em tuas faces
Da tua irmã
Amália


SÃO LUÍS, PROVÍNCIA DO MARANHÃO , 15 de Maio de 1860

Caro Filho

Escrevo para saber novas de ti; não entendi até agora por que as curtas notas que enviaste, como que estivesses sem assunto ou sem vontade de conversar; minha preocupação de pai é sempre no teu bem, jamais o oposto; quero apenas saber se as coisas vão em bons ventos, se os teus estudos estão em ordem e, principalmente, se tens feito tuas coisas direito; sei bem como é isso, já tive meu tempo de moço, com a cabeça cheia de ideias e sonhos e com todo o brio; mas temos de tomar tenência em nossas vidas e tomar nossas decisões para o nosso próprio bem;

Aqui na cidade, ao que parece, a calma reina; Cândido Mendes enfim assumiu a cadeira de deputado geral, mesmo com todo o dinheiro e as ameaças do coronel Izidoro; o mais novo rebuliço é o pipocar dos clubes abolicionistas, onde se misturam estudantes, jornalistas e alguns mais que começam a incomodar; a guarda já fechou alguns desses antros, mas no fechar de um, abrem-se outros; lembra do teu colega Juca Monforte? Aquele biltre fundou um desses valhacoutos e ganha cada vez mais gente para o lado dele! Nem rapou a primeira penugem e já se faz fumaças de líder; acreditas que tem gente que quer que ele seja vereador? Ora vamos! Um insolentezinho desses de assento na Câmara! Ora essa! U’a malta é o que eles são! Até o forro Elesbão, que tua mãe fez o favor de fazer liberto como vontade de testamento, anda a desfeitear todos! Para onde vamos desse jeito?

Bom, meu filho, deixe esse meu destempero de lado e procure dar acerto na vida; aqui fico esperando carta mais longa tua, pois apenas deixas um coração apertado de pai quando tens tanta parcimônia de palavras;

Só para contar a ti, fui nomeado Juiz de Paz do distrito de Anindiba, próximo do arraial da Maioba; assumi o posto há uma semana; novas coisas se revelam para mim, mas tenho certeza que minha fé me guiará no caminho certo. Espero que fiques contente com as boas novas e mande notícias logo.

Deus Te Guarde, Meu Filho
Abraço Afetuoso e minhas preces
Teu Pai 

Aurélio


RECIFE, PROVINCIA DE PERNAMBUCO, 06 de junho de 1860

Caro Pai

Por primeiro, aceite minhas escusas por delongar a resposta da carta que me enviaste mês passado; a razão da demora era porque eu estava acamado com uma forte constipação, que acabou quase virando pneumonia; tive de enfrentar aqueles terríveis sanapismos de mostarda, ventosas e  só não me sangraram porque me recuperei logo; assim, esta é uma carta para compensar as notas curtas que mandei; não queria apoquentá-lo com coisas que achei que fossem tolas, mas no final quase me abateram.

Fiquei muito feliz e orgulhoso com a sua nomeação a Juiz de Paz; o senhor indubitavelmente merece o posto, pois sempre foi um advogado de amplo domínio da prática e nada mais natural que o senhor fosse nomeado; me causaria estranheza se não fosse.

A situação é a mesma aqui, pai, mas com tintas mais fortes; há quem diga que alguns clubes abolicionistas estão organizando expedições para libertar escravos de fazendas e conduzi-los a quilombos ou mesmo para refúgios fora da província; a guarda aqui tenta recapturá-los sem muito sucesso.

Um colega aqui, o Jonas Almada, chegou recentemente da América. Tinha ido estudar leis, mas voltou porque o país está em estado de guerra civil, causada pela discussão sobre a escravidão nos territórios do sul; pois, segundo o que ele me disse, o sul está em guerra com o norte por essa razão; ouvi o relato dele e fiquei pensando: “tomara que não cheguemos a ponto de guerrear por escravos”

Continuo os estudos com afinco; quando estava acamado os colegas me ajudavam com os compêndios na cama; não fiquei atrás em nada, nem mesmo em direito romano, que, confesso, não ia muito bem; mas não levei bomba em nenhuma cadeira, isso eu posso garantir.

Não tenho mais para contar, meu pai, a não ser que os exames para o terceiro ano estão chegando e terei de me preparar bem, espero passar com boas notas.

Algo mais: minha próxima carta virá por um de meus amigos daqui, um paraense chamado Antônio Ribeira; ele deve resolver algumas coisas pessoais em Belém e passará por aí; se puderem fazer algo por ele, tenho certeza que ficará muito grato 

Recomendações e suas preces
Do seu filho
Júlio


RECIFE, PROVÍNCIA DE PERNAMBUCO, 13 de Junho de 1860

Cara Irmã

Imagino que o nosso pai já deva ter contado a razão de eu me demorar tanto a escrever; não queria imaginar-te arfando pelos cantos em angústias e inquietudes; me feriria muito saber que ficaste assim; por isso não foi por turronice ou parcimônia, mas porque o teu irmão estava acamado e não queria te preocupar.

Com que então o Manduca Zacarias se arranjou com a Marília? Que bem arranjados fiquem; não me apoquenta qualquer coisa vinda deles; talvez, mesmo, bem se mereçam no fim das contas;

Me contes, recebeu o livro do Joaquim Manuel de Macedo que te enviei? Ele está a ser a sensação da cidade; recebi o exemplar do Rio de Janeiro e li-o de um fôlego só; é bom, mas acho que as moçoilas vão apreciá-lo mais; aqui os rapazes pelejam para memorizar poesia para fazer firula, mas fico a ver o ridículo disso; não me tome como sem sentimentos, mas é que tais coisas não me apetecem no presente momento. Espero que tudo esteja às boas e que apenas alvíssaras cheguem à nossa casa. Mande minhas recomendações aos amigos daí se os encontrar em tempo.

Terei mais o que contar na próxima carta; agora estou melhor, poderei escrever mais e contar mais coisas daqui; fique com o meu amor fraterno e minhas preces

Beijo afetuoso do teu irmão
Que te ama extremosamente
Júlio

segunda-feira, 27 de julho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE IV


Eliza pousou as cartas na cama cuidadosamente; não queria que elas de desfizessem por serem mal manuseadas; mas a leitura deu mais uma pista de Antônio Ribeira que começou a intrigá-la; mas queria dedicar-se a essas divagações com calma; precisava contatar a equipe e mais do que nunca inteirar-se do que se passava no escritório. 



Chegou como de costume, recebendo a agenda do dia das mãos de Eunice, a prestativa secretária; tinha duas reuniões, uma às 14 horas e outra às 17; antes disso passou a vista no briefing geral de atividades e chamou a equipe para uma conversa informal sobre os projetos em andamento; todos estavam lá, curiosos para saber do projeto em Belém; ela respondeu laconicamente, dizendo apenas que “o negócio não foi em frente”; foi quando notou, sentado ao lado de Marcela, a estagiária, um rosto novo: cabelos grisalhos curtos, olhos negros, óculos de aro dourado encimados por sobrancelhas retas; segurava a caneta displicentemente na mão direita, tamborilando levemente.
- Eliza, esse é Walter, nosso novo relações públicas, você o tinha aprovado há alguns meses atrás – apresentou-o Marcela – você tinha dito que a entrevista não era necessária porque você confiava no currículo dele.
- Eu lembro bem; muito obrigado, Marcela. Seja então bem-vindo, Walter; espero que tenha sucesso em seu trabalho; mas vamos pôr as coisas em dia, não? – disse, num sorriso.

Walter assentiu com a cabeça e juntou-se à conversa.

Ela estava satisfeita com os resultados do grupo. Na ausência dela vários bons negócios tinham sido fechados, o que era muito positivo e consolidava ainda mais a imagem do escritório como um dos mais bem-cotados do mercado; vária s vezes foi sondada para adquirir capital acionário, mas polidamente declinara, preferindo investimentos mais sólidos e menos arriscados.

Saiu do escritório por volta das oito e meia da noite; jantou no lugar de costume, com o garçom levando -a para a mesa favorita, no canto do restaurante onde ela pudesse ver o movimento de vai e vem dos clientes; sentir o movimento dos lugares a relaxava, antes de voltar para casa. Demorou-se um pouco mais, saboreando lentamente a torta de trufas que tinha vindo de sobremesa; levantou os olhos para ver o movimento e deu de cara com o novo relações públicas, que entrara devagar e escolhera uma das mesas perto da porta. Notou a economia de gestos ao chamar o garçom e fazer o pedido, ao mesmo tempo que, ao notar a presença dela, acenou; Eliza respondeu ao aceno ao mesmo tempo em que pedia a conta; tinha pressa em chegar em casa e ler o restante das cartas que ainda repousavam na cama; acenou novamente ao passar pela mesa onde Walter estava, chamando o manobrista para trazer o carro; uma vez nele, saiu devagar e tomou o caminho de volta para casa.


Os sapatos já estavam nas mãos dela quando girou a fechadura, entrou em casa, deixou o blazer sobre o sofá e sentou para relaxar; respirou fundo e deixou-se levar pelo conforto, espreguiçando-se devagar e deixando os pensamentos a conduzirem; de repente, se viu relembrando o momento em que Walter entrara no restaurante, os gestos contidos, o modo espontâneo de acenar; surpreendeu-se ao sentir aquilo, pois já há muito deixara de buscar atratividade em qualquer pessoa; quis conter os pensamentos, mas algo dentro dela fez com que deixasse o pensamento fluir...

Mas logo os olhos dela se voltaram para o quarto e para as cartas espalhadas na cama; deixou esse novo pensamento, ao menos por enquanto, de lado, e voltou a tenção pra elas; não as leria agora, elas esperariam mais um dia...

Buscou o sono, mas ele demorou a vir...

( Continua...)


domingo, 19 de julho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE III



SÃO LUÍS, PROVÍNCIA DO MARANHÃO, 22 de Maio de 1858

"Meu Irmão

Deito estas linhas por razão de falar-te apenas do ameno, sem razão especial; espero que esta não te encontre em contratempos nem em outra qualquer tribulação; sei que teus estudos são prioridade e que os reclamos e amuos de tua irmã podem não ser considerados, mas te escrevo mesmo assim, pois somente em ti posso confiar, mesmo distante de mim.

A cidade ainda está debaixo de chuva torrencial; parece que os céus estão desabando!! Sei que já devia estar acostumada ao aguaceiro desse tempo, mas não consigo; as águas sempre me pegam de inopino, me dando susto atrás de susto; ao contrário de todos, a canícula me conforta, o sol forte me dá um alento que aos outros não chega.

Aqui não há muitas novas; apenas o Manduca Zacarias, com quem ficaste de cizânia por causa dos olhares de Marília, cansou-se dela e agora me faz a corte; imagine que os galanteios dele se limitam a dizer-me quão segura será minha vida se der a ele a honra de esposá-lo; diz ele que basta que eu peça que todas as portas se abrem, que todos os meus desejos serão atendidos, pois logo ele sucederá o pai como chefe da Casa Aviadora e uma carreira de vereador se abre para ele; Imagine! Nem uma palavra cortês, nenhum poema inspirado! Apenas uma verborragia de cifras e vantagens! Escuto-o apenas para distrair-me, pois ninguém conseguiu ainda tocar-me o coração, quanto mais esse declamador de números!

Nosso pai está em viagem, desta vez resolvendo pendências na vila de Barra do Corda, devendo voltar em mais cinco dias; na ausência dele, eu tenho de dar conta dos recados e mensagens e todos os cantos, anotar tudo e organizar a caderneta de assentos, mantendo-a em ordem até que chegue;

Te desejando sorte e bons estudos
Deus te guarde
Beijo-te amorosamente nas faces
Tua Irmã
Amália"



RECIFE, PROVÍNCIA DE PERNAMBUCO, 01 de junho de 1858

"Cara Irmã

Desculpe não te deitar linhas tão logo, mas os estudos aqui me consomem por demais e o tempo me é mais verdugo que amigo; eu fico triste por não poder escrever no tempo que gostaria, mas somente agora posso fazê-lo, já te pedindo mil perdões por te escrever com tanta pressa assim, mas te prometo uma carta com mais assunto da próxima vez;

Poderia bem dizer que o Manduca Zacarias merece a sova de cadeira que dás nele, mas, se me permites um conselho, deixe ele em paz; não mereces um sujeito que não te inspira, nem mesmo penas; tenho certeza de que alguém fará teu coração saltar; no momento não tenho tempo pra tais veleidades; os estudos são a única amante que tenho e tão cedo não sei se meu coração desperta...

Diga ao nosso pai que escreverei com mais presteza daqui a mais ou menos cinco dias; não tenho igualmente muito a contar, mas logo darei mais notícias

Beijo do teu Irmão

Júlio"



RECIFE, PROVÍNCIA DE PERNAMBUCO, 19 de Junho de 1858

"Caro Pai,

Espero que estas linhas o encontrem em paz e harmonia e que seus negócios em Barra do Corda tenho sido resolvidos a contento; aqui me divido entre os estudos e o observar da agitação politica na cidade, com os abolicionistas e republicanos gritando cada vez mais alto, e começando a incomodar o governo da província; colegas de curso inauguraram um clube abolicionista e queriam que eu me filiasse mas declinei, dizendo que não tinha estômago pra tais patuscadas; melhor seguir seu conselho e continuar meu caminho, mas é difícil ficar sem tomar partido por alguma coisa.

Pela primeira vez tenho um grande amigo por aqui; trata-se de Antônio Ribeira, vindo da província do Pará; de conversa boa e humor muito melhor, tenho-o ajudado a se adaptar às coisas aqui do Recife, mas vejo que não terei muita dificuldade, pois o mesmo não teve empecilhos em já aviar-se em tudo, dando conta bem rápido das coisas; pelo menos posso conversar sem ser troçado pelos outros por causa da minha neutralidade em relação aos republicanos e abolicionistas.

As notícias mais recentes que recebi vieram de Nestinho Menezes, cujo pai dirige um escritório comercial na capital da Provincia de São Pedro do rio Grande do Sul e possui estâncias de cria de gado e ovelhas na fronteira; as coisas não serenaram por lá depois de se guerrear uruguaios e argentinos; ele diz que continuam os ataques e roubos e que o exército imperial não tem nem efetivo nem moral pra lutar, a despeito do comandante de fronteira, general Osório, ser homem de escol e de grande coragem pessoal; a saída foi armar os peões e dar ordem de atirar sem misericórdia em qualquer um sem intenção declarada; assim estão as coisas nesse nosso país.

Espero que tudo esteja melhor por aí
Amor e Respeito
Sua Bênção
Seu filho
Júlio"


SÃO LUIS, PROVÍNCIA DO MARANHÃO, 27 de Junho de 1858

"Caro Filho

O litígio em Barra do Corda se resolveu bem, sem mais contingências ; é como sempre digo: uma conversa civilizada sempre leva as coisas a bom termo e sem consequência séria para nenhum dos lados; assim se constroem a civilidade e os bons costumes.

As coisas não andam bem aqui em São Luis; as eleições estão para breve, mas a violência e a intimidação de eleitores continuam sem freio e sem uma autoridade competente, pois os juízes estão todos nas mãos do Coronel Izidoro Jansen Pereira, comprados pela mãe dele, essa sim a dona do dinheiro e do poder; acreditas que um sobrinho dela veio até mim para dizer que o meu apoio seria um grande incentivo à minha carreira, possivelmente com uma nomeação de magistrado? Respondi-lhe polidamente que iria levar muito a sério e daria em tempo certo a minha decisão; pense no descaramento! Principalmente depois que o adversário político do Coronel, o grande Candido Mendes, foi atacado na saída do Teatro União, após a apresentação de um drama lírico de nosso amigo Gonçalves Dias, e brutalmente espancado até quase morrer? Não se fala em outra coisa na cidade. De resto, todos estão bem; sua irmã manda recomendações e beijos e está preocupada com você; eu, de minha parte, só posso te desejar sucesso e perseverança nos estudos e que tenhas bom juízo na condução dos mesmos evitando aventuras sem sentido e pandegarias.

Sem mais novas e te desejando sucesso e felicidades
Abraço Paternal e recomendações
Do Teu Pai
Aurélio"


(Continua...)

domingo, 12 de julho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE II


SÃO LUIS, MARANHÃO, 12 Fevereiro de 1858

“Caro Irmão

Mal me contive com as novas; então foste aprovado nos exames para a Faculdade de Direito! Nosso pai vai ficar muito satisfeito quando ler a missiva que mandaste; ele ainda está no interior, resolvendo um litigio em Caxias; lembras do Martim Pescada? Pois é, ele se meteu em encrenca por causa daquela rixa com o Jonas Louzeiro e ao que parece tudo não terminou em coisa pior por causa da firmeza do nosso pai. Tomei a liberdade de responder antes mesmo de contar a ele.

Aqui as coisas vão no de sempre; lembras da Carmen, a filha do deputado Sobreira? Ela casou com o Davi Moura, teu colega no Liceu e vai de mudas para a Corte; ele é oficial de Marinha e vai assumir posto no ministério; conversei com ela uns dias atrás e ela está mais do que animada; é sempre bom quando as coisas andam do jeito que queremos, não é? Quem sempre anda a perguntar por ti é a Marília, filha do Comendador Almeida; ela veio me dizer que ficou com o coração partido ao ter-te decidido ir ao Recife para te preparares para a faculdade; irmão, que prometeste a ela? Espero que ela não tenha sido mais uma a cair na tua conversa de maganão.

Assim mesmo, fiquei contente com teu sucesso; vais longe, nosso pai sempre disse isso; espero igualmente que a faculdade e a tomada de rumo te tirem da cabeças as idéias malucas de república e abolição que andaste alardeando por aqui; deixe isso por aí e tome emenda! Deixe os malucos e os poetas darem caso disso.

Não tenho muito mais para falar, o dia está cinza e uma chuva vem por logo; espero de coração que os estudos te transformem num homem, e te livrem desses devaneios malucos; te dediques com afinco às tuas responsabilidades e vais conseguir tudo o que queres.

Sinceramente
Beijo-te a face
Tua irmã
Amália"



SÃO LUÍS, MARANHÃO, 16 de Março de 1858

“Júlio, Meu Filho

Não imaginas quão contente e orgulhoso fiquei ao saber das novas de tua aprovação! Tua irmã veio me contar assim que cheguei, mas o estafeta já tinha me entregue a tua carta e já começara um pouco a ler quando Amália me falou do assunto. Folgo em saber que já estás dando um rumo à tua vida; confesso que fiquei preocupado com as tuas diatribes há algum tempo; tua mãe – que Deus a tenha – ficaria aflita em saber que te envolveste com a sorte de lunáticos que apregoa aquelas ideias absurdas. Agora uma nova responsabilidade te espera, e rezo a Deus que saibas te desincumbir dela com galhardia e orgulhe nossa família.

As coisas aqui andam agitadas; a campanha está cada vez mais acirrada e mesmo violenta; os capoeiristas do coronel Izidoro, filho de Donana Jansen, ameaçam eleitores e impõem um terror que nunca tinha visto na província; o presidente, de mãos atadas, nada faz; viemos um caos sem precedente aqui; a disputa política tem mesmo separado famílias e amigos veem uns aos outros pelas costas; com dinheiro à larga, o coronel Izidoro praticamente manda na província.

Mas não escrevi para lamuriar nem para dizer-te coisas tristes; ao contrário, cheio de orgulho, estas linhas são para exortar-te a não te desviares de teu caminho por nada, nem mesmo por devaneios que podes achar certos, mas que, na verdade só levam a perder-te; cumpre teu caminho nos estudos e verás que podes ir muito longe.

Tua irmã manda igualmente lembranças e esperamos a tua vinda no recesso, para pormos a conversa em dia; lembra-te bem deste conselho: conquiste sempre todas as metas, mesmo que elas te pareçam titânicas; só assim saberás o valor do que tens nas mãos.

Que Deus te Abençoe

Abraço Afetuoso

Do teu Pai

Aurélio”



RECIFE, PERNAMBUCO, 24 de Abril de 1858

"Caros Pai e Irmã

Escrevo estas linhas para aquietar o coração de vocês dois, para que não fiquem mais atribulados a respeito de minha situação aqui; em verdade, estou descobrindo sempre mais razões para desenvolver meus estudos com cada vez mais afinco, como sei que gostariam que eu fizesse; assim, eu vos peço que não se apoquentem, pois meu escopo é exatamente me tornar um bom advogado e pelejar pelos ideais que realmente valem a pena; sei que posso ter decepcionado a vocês com meus arroubos de radicalismo, mas peço aos dois que não se enervem com isso.

A vida em Recife é completamente diferente da de São Luis; aqui há um movimento muito grande de pessoas, tanto brasileiras quanto estrangeiras, pois o porto é um importante ponto de concentração de várias nacionalidades, o que contribui para transformar essa parte da cidade numa verdadeira Babel; fiz amizade com um dos assistentes de Mr. Hobart, representante comercial, cujo escritório dista poucas casas de onde moro; um rapaz chamado Philip, inglês de há pouco chegado; fizemos uma troca; ele me ensinaria inglês e eu o ensinaria português, e, embora esforçado, ele ainda sente muitas dificuldades enquanto eu, pelo menos no que ele disse, estou fazendo alguns progressos.

Posso imaginar como andam as coisas por aí, meu pai; aqui em Recife as coisas andam igualmente agitadas, mas com o coro dos republicanos, mesmo ainda em pequena monta, mas começam a incomodar o governo provincial, e mesmo dentro da faculdade já há uma pequena célula; sei que esposei tais ideias há tempos, mas acredito que se houverem mudanças, elas serão resultado de uma maioria, não de grupelhos interessados somente em se beneficiar de benesses e privilégios.

Irmã, diga a Marilia que não sei por que ela se diz de coração partido; eu é que deveria ficar, ao saber dela trocando olhares com o Manduca Zacarias na saída da missa no Carmo; ela, sim, é que se dividiu entre mim e ele; mas deixe, tenho coisas muito mais importantes para me preocupar no momento; tenho feito progressos na faculdade, mas não é fácil como imaginei; quase me esfolo vivo pra acompanhar todas as matérias, especialmente a que diz respeito aos estatutos da constituição e o mais recente Código Comercial; sorte não ter de me especializar nisto; meu escopo é o de ingressar nos procuradores da Coroa, uma carreira de grandes possibilidades; por isso tenho de exceder a expectativa e ter as melhores notas.

Sem muito pra falar mais, me despeço aqui, esperando que esta chegue em paz e bem a vocês; envio o meu amor e os meus respeitos

Um abraço apertado do irmão e do filho

Júlio”

sábado, 11 de julho de 2015

ESCRITOS AVULSOS - A CIVILIDADE É APENAS UMA ROUPA


Simples assim.

É desse jeito que a sociedade moderna coloca o conceito de civilidade; nos tempos do politicamente (in)correto, é apenas uma vestimenta que usamos de acordo com a ocasião, para não passarmos como dissociados ou mesmo marginais; na verdade, é o disfarce mais torpe para o que temos de mais sórdido: a selvageria e a intolerância.

Três exemplos são os mais marcantes: o assassinato de um homem, não somente por sua orientação sexual, mas por sua opção religiosa; o linchamento de um assaltante por uma população irada e a pesquisa recente de que os homens acham que, muitas vezes, uma mulher “pede pra ser estuprada”, porque faz a opção de usar um vestuário considerado por eles “ousado” ou “provocante”, levantam mais uma vez o debate sobre até onde somos mesmo a “democracia social, racial, religiosa e sexual” tão decantada pelos intelectuais.

Adriano, candomblecista, homossexual assumido, produtor cultural e dançarino, ganha as manchetes e a linha de investigação aponta o caso como “intolerância sexual e religiosa”. O que move tal coisa? Hoje beiramos por um fundamentalismo religioso tão irado que não poupou nem mesmo uma menina de 11 anos de idade, igual,mente candomblecista, apedrejada por elementos que se diziam “religiosos” e fizeram isso em nome de sua fé; que fé é essa que faz as pessoas cometerem barbaridades simplesmente porque outras têm um credo e um jeito de ser diferente?

Cleidenilson, 29 anos, foi capturado por populares enquanto tentava assaltar uma loja num bairro da cidade de São Luis-MA; os populares irados o amarraram a um poste e, depois de muitos socos, chutes, pedradas e garrafadas, ele não resistiu e morreu devido a uma hemorragia interna ( leia AQUI a matéria); poderia se considerar tal ato uma explosão da raiva de uma população cansada de ser roubada – falo de todos os tipos de roubo, do pequeno ao grande criminoso (pra bom entendedor meia palavra basta) – de ser violada em seu patrimônio; mas esperem, somos uma sociedade civil organizada, com regras(?) e um sistema judicial e penitenciário que, mesmo mal, existe e funciona. Com que autoridade somos juiz, júri e executor? Não somos diferentes dos russos no séc. XIX e seus pogroms (massacres) contra os judeus e os nazistas, que fizeram o mesmo. Não somos diferentes dos senhores feudais, donos da vida e da morte de seus servos. Mesmo “Justificada”, essa raiva nos dá essa autoridade? Que sabemos da vida do outro para nos arvorarmos de julgadores? Lembro-me das palavras de Jesus Cristo, ele mesmo mal interpretado e torpemente usado, quando falava aos que se arvoravam de moralistas: “antes tira a trave do teu olho, para poder tirar o galho no olho do teu irmão”.

O que nos leva ao terceiro exemplo: uma revista de grande circulação publica uma reportagem que constata um fato dos mais aterradores em pleno séc. XXI: por mais que a tecnologia e o progresso apregoem seu avanço, nosso pensamento acerca das relações interpessoais ainda é, sendo otimistas, baseado em conceitos bem medievais e canhestramente machistas; essa mesma revista mostrou o conceito da mulher que “pede pra ser estuprada”(leia aqui), porque simplesmente opta ou por vestir uma roupa mais ousada, ou por decidir usar uma maquiagem mais forte ou um comprimento de roupa que seja considerado “imoral”; assim, qualquer ataque tem a justificativa de que a mulher “pediu” para ser atacada, porque usava roupa provocante, ou insinuou algo pela mesma razão.

A mulher lutou arduamente para conquistar seu espaço na sociedade, deixando de ser mera peça, mero adereço sexo-reprodutivo, burro de carga e outras coisas degradantes pra se tornar personagem atuante, força de mudança e fazendo a diferença na história de vários países; lutou pelo mais ínfimo de seus direitos com a mesma coragem e determinação; como é que, no alvorecer do terceiro milênio, a relação com as mulheres – e, por conseguinte, o respeito – ainda segue um atroz e bestial – para ser até brando – retrocesso?

Então, aí vestimos a nossa “roupa de civilidade”, lamentamos, damos declarações de pesar, falamos mil palavras que, no fundo, sequer acreditamos; somos selvagens cruéis e torpes, usando um disfarce mais torpe ainda; uma civilidade que, como toda roupa, só usamos em ocasião adequada; longe de ser parte de nós, ela é apenas o que temos para ocultar nossa faceta mais cruel e impiedosa, fazendo-nos palatáveis ao gosto geral; nossas mãos podem não ter matado nem Adriano nem Cleidenilson, ou mesmo nem sequer tenhamos encostado em nenhuma mulher que tenha se insinuado – ao menos na crença dos que defendem esse ponto de vista – mas seremos coniventes se, como cidadãos e pessoas de bem, ficarmos de braços cruzados enquanto pessoas fazem justiça com as próprias mãos e a religião, a raça, a cor e a orientação sexual continuem a ser motivo de segregação e exclusão da cidadania; não seremos muito diferentes da situação a que o Dr. Martin Luther King dizia: “Para que o Mal triunfe somente é necessário que os bons não façam nada”; mas a grande contradição é exatamente essa; enquanto a civilidade for apenas a roupa de ocasião que vestimos e não se tornar verdadeiramente parte de nós, seremos apenas selvagens brutais e ignorantes disfarçados de cidadãos.

domingo, 5 de julho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO



Eliza chegou em casa em uma madrugada chuvosa.

Perdera a conexão em Brasília, tendo sido obrigada a ficar na capital federal mais tempo do que esperava; por sorte, já quase meia-noite conseguiu um encaixe de voos que a fez chegar no Aeroporto Internacional do Galeão por volta das três da manhã.



Não resistiu ao cansaço; largou as malas na sala e mal teve tempo de tirar a roupa, mergulhando nua na cama, e assim ficou até as nove da manhã.

Acordou com o som da vibração do celular antes do toque; atendeu e era Lisandro, querendo saber notícias dela; atendeu um tanto contrafeita, mas tinha prometido dar notícias assim que estivesse mais a par das coisas que o pai a incumbira; marcaram um almoço para daí a dois dias; teria tempo, então, de ver a caixa que Albertina tinha confiado a ela.

Tomou um banho demorado, deixando a água cair como massagem, recuperando cada parte de si do cansaço da viagem. O calor da água a revigorava, fazia-a se sentir renovada, com energia pra novos projetos, novas perspectivas, levantava-a para a vida.

Verificou o e-mail, respondendo o que podia em prioridade e deixou algumas coisas para depois; avisara que só iria reencontrar a equipe em quatro dias, pois precisava resolver alguns assuntos pendentes. Somente depois é que prestou atenção à bagagem ainda na sala; separou o que seria lavado do que não tinha sido vestido, mas depois decidiu lavar tudo; tirou um dos sacos da lavanderia do armário da cozinha, preencheu o rol e arrumou tudo para, mais tarde, deixar na portaria do prédio para o pessoal que viria buscar.

Separou com carinho a caixa que Albertina dera, abrindo devagar e cuidadosamente a tampa; tinha receio de rasgar o papelão, mas viu que podia confiar nas palavras da velha senhora, quando disse que o material era resistente. Dentro, um pacote de fotos, recibos velhos e outros documentos. Espalhou tudo na cama, separou documentos de fotos, sem reparar muito em cada grupo; só depois concentrou sua atenção em cada um...




Os documentos revelaram recibos do pagamento dos funerais e exéquias de Antônio Ribeira, desde a câmara ardente até o caixão, debitados a Silvano; antigos cadernos de assentos, com registro de soldos e adiantamentos, numa grafia inclinada e elegante, datados de 1866 a 1872; e, finalmente, uma carta de Silvano a Albertina, informando-a da morte do pai e tomando a responsabilidade dos funerais. 






Mas foi nas fotos que a atenção dela mais se demorou; algumas eram bem antigas, com um tipo de moldura metálica que parecia bem gasta pelo tempo, azinhavrada e fosca; outras eram de um tempo mais adiante, fotos de um casamento, depois de uma família com pai, mãe e duas filhas; Elisa reconheceu rapidamente o avô de Albertina; estavam vestidos como se fossem a um evento social, possivelmente uma festa de família ou mesmo uma missa; lembrou-se da expressão da mãe quando dizia que, ao se arrumar demais, ela estava a usar a “roupa da missa”; viu então fotos mais recentes e reconheceu seu pai, de terno e chapéu inclinado de feltro, ao lado de um senhor de barba branca, numa cama de hospital; no verso da foto, apenas uma menção ao local e à data: “Asilo de Mendicidade, São Luiz, 1955”


Examinou cada uma das fotos com cuidado, temendo estragar o papel tão sensível; numa viu um jovem com uniforme completo, como se estivesse prestes a embarcar para a frente de batalha; em outra viu um soldado armado de lança, escoltando um outro que parecia ser prisioneiro; no verso, apenas datas, entre 1867 e 1870; mas eram apenas algo superficial, que encobria algo mais...



Retirou tudo e descobriu, no fundo, um embrulho de veludo vermelho, preso por uma fita que parecia ter sido da mesma cor, mas que, agora, se esmaecera completamente; desatou com cuidado a laçada, mas, mesmo assim, a fita tanto tempo não tocada desmanchou-se como se virasse pó; desembrulhou receosa o envoltório de veludo, revelando um maço de cartas, amarradas desta vez com um laço de fita branca, de onde pendia um pingente com um coração, uma âncora e uma cruz; lembrou-se da mãe usar um pingente igual, que representava as três grandes virtudes: Fé, Esperança e Caridade; desatou com o mesmo cuidado o laço branco, separando a fita e o pingente e, desdobrando as cartas, começou a ler...


(Continua...)

Crédito das fotos: Google Images


domingo, 28 de junho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - BELÉM - FINAL


O trabalho não rendia.

Por mais que procurasse se concentrar, não conseguia tirar o pensamento da mulher na cama do hospital; precisava entregar o parecer de viabilidade pedido por Emília, mas nada conseguia avançar naquilo que queria; pensou em parar um pouco, dar uma volta, mas sabia que nada daquilo a aquietaria. Os olhos se voltavam para o celular, esperando qualquer notícia da neta de Albertina

Eram exatamente duas horas da tarde quando o celular vibrou e tocou sobre a mesa; Eliza prontamente identificou a ligação e atendeu, o coração acelerado esperando o pior.
- Dona Eliza, sou eu, Jane, neta da Dona Albertina. A vovó acordou e quer falar com a senhora; tem jeito de ser agora?
- Logo estou aí, Jane, é só o tempo de me arrumar e tomar um táxi

Eliza chegou vinte minutos depois , sendo recebida pela médica de plantão, uma moça de cabelos loiros curtos que passou a ela as informações sobre o estado de saúde da velha senhora.
- Ela acordou há mais ou menos quarenta minutos – disse sem pausar a voz – o quadro é estável, mas ela ainda está sem condições de ir nesse momento; precisa ficar mais um dia em observação para que possamos ter certeza de que o quadro se estabilizou completamente.
- Podemos vê-la agora Dra...?
- O meu nome é Laura Doyle; meu plantão se encerra daqui a duas horas; caso a senhora precise de mais informações estarei à disposição.

Eliza agradeceu a atenção e se dirigiu-se ao quarto onde Albertina estava internada; entrou no momento em que a neta arrumava algumas roupas numa sacola, possivelmente para lavar.
- Dona Eliza, que bom que a senhora veio, preciso falar muito com a senhora. É muito importante.
- Imagino que seja, Dona Albertina, mas não se exalte, precisa descansar para se recuperar mais rápido.
- Ligue não pra esses aí de jaleco branco – disse ela apontando para a enfermeira que acabava de entrar – eles não sabem de nada.

A enfermeira, pacientemente, ajustou o tensiômetro no braço de Albertina e começou a bombear, ajustando o medidor para sentir a pulsação; minutos depois levantou a cabeça e sorriu.
- 11 por 7; está muito bem! Logo a senhora vai ter alta - disse no mesmo sorriso.

A enfermeira saiu no mesmo passo silencioso, enquanto Albertina retomava a conversa.
- Eu tenho de pedir o seu perdão, porque eu não contei tudo a respeito da amizade entre o seu pai e o meu avô; fiquei desconfiada que a senhora fosse outro tipo de pessoa e queria paz na minha vida. Me perdoe.
- Não há o que perdoar, Dona Albertina; não dá mais mesmo para confiar em ninguém nesse mundo louco.
- Mas eu devia ter contado que conhecia o seu pai dede o começo, tinha resolvido isso logo.
- Agora isso já passou Dona Albertina, a senhora tem é que descansar.
- Mas eu quero que a senhora fique com a caixa da minha mãe; acho que é melhor que fique em boa mão e prefiro que seja a senhora que fique com ela; tomei a decisão de aceitar a ajuda que o seu pai deixou pra mim, mas não pro meu uso e sim da minha neta; ela merece mais do que ninguém, sacrificando a mocidade pra cuidar de uma velha como eu;
- Resolvemos isso depois; agora descanse.

Despediram-se com um abraço apertado e, logo depois de tomar as informações do estado geral dela pela Dra. Laura, preparava-se para ir embora quando o celular tocou; atendeu rápido sem identificar a chamada. Era Emília, procurando saber se ela precisaria do motorista para o dia seguinte e como estava o andamento do parecer sobre o projeto. Desconversando, Eliza disse que faltavam apenas dois dias para que concluísse tudo, igualmente declinando do motorista. Combinou de ligar assim que estivesse no flat.

No dia seguinte, telefonou para o hospital para saber se Albertina já tinha tido alta; por sorte, os papéis já estavam sendo emitidos e ela iria sair às nove e meia da manhã. Eliza chegou no momento em que ela estava assinando a alta; enquanto arrumavam a bagagem, ela se dirigiu à secretaria do hospital para assinar o pedido de autorização do convênio médico. No mesmo momento, ligou para o banco, onde já iria começar os procedimentos de transferência do dinheiro para a velha senhora.

Quando saiu, Albertina já estava no táxi, apenas aguardando por ela; entrou e deu o endereço ao taxista. As duas não trocaram palavra até chegarem; Jane desceu primeiro, o motorista ajudando a levar a bagagem para a casa, enquanto Eliza ajudava Albertina a descer. Já em casa, levaram-na para o quarto, onde a puseram na cama; já de posse da receita fornecida pelo médico, pediu a Jane o telefone de uma farmácia nas proximidades que fizesse entregas em domicilio. A jovem apontou para um pequeno panfleto sobre o criado-mudo, um anúncio de uma farmácia inaugurada recentemente na rua; lembrou-se então que o medicamento era controlado, a receita teria de ficar retida no estabelecimento; não era longe, apenas duas quadras da casa; voltou alguns minutos depois, já com a caixa de medicamentos nas mãos; quando voltou ao quarto para administrar o remédio, Albertina estava sentada na cama, com uma caixa de papelão coberta por um revestimento que lembrava um papel de parede antigo.
- Esta é a caixa de guardados da minha mãe, Dona Eliza, tudo o que a senhora queria saber está aí, entre esses guardados; fico a perguntar o interesse num monte de coisas velhas.
- É uma coisa que devo a meu pai. Uma longa história.
- Mais uma vez me perdoe por não ter contado o que eu sabia desde o começo, senhora, mas, sabe como é, quando a esmola é demais...
- Não se preocupe. Eu tomei todas as providências para que a senhora receba o dinheiro deixado por meu pai; tenho certeza de que será bem usado.
- Como eu disse, é pra minha neta, uma ajuda pro futuro dela e uma paga por ela ser tão dedicada e cuidar de mim.
- Eu queria que a senhora falasse mais a respeito de como conheceu meu pai, Dona Albertina
- É história comprida, mas eu falo uns pedaços. Seu pai veio aqui faz tempo, eu ainda era solteira, pra falar do meu avô; disse que tinha conhecido ele, que tinha morrido num hospital em São Luis do Maranhão e que estava providenciando um jeito dele ser trazido pra cá e enterrado aqui. De começo fiquei desconfiada, senhora, achando que era alguma pilantragem, até que ele mostrou uma foto do meu avô no hospital com ele, como se tivessem conversando. Ele me disse que quando pudesse iria ajudar de algum jeito. Me espantei quando recebi um telegrama de que o corpo do meu avô estava chegando e que eu devia me preparar para fazer o enterro; tudo foi feito no nome dele, até o jazigo aqui na Soledade; depois ele disse que viria e tentaria ajudar mais; depois disso não tive mais notícia e acabei esquecendo; nem tive tempo de agradecer pelo meu avô. As coisas estão aí, veja no que elas podem ajudar; sou muito grata por cuidar disso;

Eliza segurou a caixa com cuidado, receosa do papelão se desmanchar; sentiu, porém, que estava firme, como se fosse algo mais recente
- Não se apoquente, isso é coisa boa, coisa fina, que não se desmancha fácil como as coisas de hoje;

Eliza sorriu e abraçou Albertina com um carinho que há muito não tinha por alguém; não sabia explicar o gesto, ela tão hierática e formal com as pessoas; aceitou um café que Jane oferecera e sorveu prazerosamente, enquanto conversava de outros assuntos com a velha senhora. Por fim, se despediu dela, mas pediu à neta que mantivesse contato sempre que precisasse; iria ficar ainda mais alguns dias na cidade antes de voltar ao Rio, mas queria saber de cada passo da recuperação dela.

Ao chegar no flat , sentiu uma imensa vontade de nada fazer, de ficar apenas quieta, sem nada pensar ou fazer; tomou um banho, foi para o quarto, deitou-se e, no afã de querer o sono, sem saber nem sequer o porquê, chorou.

O parecer ficou pronto três dias depois, mas chegou igualmente a notícia de que, devido a alguns aspectos não explicados, o projeto teria de ser adiado; Eliza tentou descobrir o que tinha acontecido, mas desta vez encontrou uma Emília evasiva, de expressão contrafeita, como se algo importante não tivesse seguido adiante. Conversaram rapidamente, a outra simplesmente agradecendo pelos serviços e passando o comprovante de uma ordem de pagamento em que reembolsava as despesas que ela pudesse ter feito;

Era um fim de tarde nublado quando Eliza tomou o taxi do flat para o aeroporto de Val de Cans; passou a manhã inteira na casa de Albertina, onde terminou a conversa anterior e entregou a ela o comprovante da transferência do dinheiro deixado por Silvano; abraçou-a longamente na hora da partida, ambas prometendo não deixar de mandar notícias; depois, despediu-se de Jane e tomou o táxi para o aeroporto. Muito mais coisas iriam contar mais histórias....

quinta-feira, 25 de junho de 2015

ESCRITOS AVULSOS - SOMOS TODOS HERÓIS

Hoje levantei fazendo uma reflexão muito interessante; lembrei da pergunta que me fizeram na copa do mundo (assim mesmo em minúsculas, para salientar a importância de tal evento para mim) de qual era a melhor imagem que eu podia usar pra retratar o Brasil; eu respondi de bate-pronto(?!!!) “A Seleção”, vi o sorriso de ufanismo barato que ele me lançou, mas o desarmei dizendo: “um desgoverno, onde apenas um recebe a responsabilidade dos outros dez, e, quando este sai por um motivo qualquer, o resto se desnorteia”.
Eu tinha respondido isso antes do malfadado 7 a 1.
Agora, em nova aventura na copa américa, o salvador da pátria se destempera e novamente abandona o resto do grupo, para desespero dos que ficam, ou seja, sempre, em nossa história, estamos com uma pessoa que, ao atrair tudo para si, cria uma relação danosa de dependência com as esperanças do povo, que podem ser destruídas ao menor gesto errado deste indivíduo, o tão sempre “salvador da pátria”, especialmente se ele abandona o barco, ou simplesmente, não faz o menor esforço para impedi-lo de afundar.
Ainda assim, os jogadores de futebol são os heróis do momento, os ícones da brasilidade; isso serve aos que, buscando qualquer ópio que distraia o povo, aposta nesses levantadores de ibope para mascarar o que realmente ser levado em conta – a devolução do dinheiro roubado aos cofres públicos e a punição dos responsáveis.

O que então fica para nós? Apenas levantar bandeirinhas e fingir que nada acontece porque nos tornamos milhões de técnicos? Nós somos os heróis! Nós, que trabalhamos em corrida contra o relógio, contra a corrosão de salários, o sucateamento e a defasagem da educação e da saúde, a corrupção já quase se tornando institucionalizada; precisamos apenas de, como uma vez ouvi de um senhor num evento, “ter unanimidade por apenas um dia”, e mudar nosso país pra melhor; não deixar a responsabilidade nas mãos de um, que pode simplesmente pouco se lixar para o resto e apenas se beneficiar, mas tomar a responsabilidade do país enquanto cidadãos, sendo de todos a vontade de transformar e mudar para melhor; tomemos então o país das mãos desse desgoverno, e o façamos um país de verdade. Assim agem cidadãos de verdade; esses sim, os verdadeiros heróis

ESCRITOS AVULSOS - INTRODUÇÃO

Caros Amigos

Hoje começo, entre os capítulos da série que escrevo, minha produção de textos avulsos, onde crônica, microcontos e versos irão igualmente fazer parte deste universo blogueiro; de elementos do cotidiano a viagens bem pra lá dos limites, é um cantinho mais livre, de palavras soltas e poesia idem, mas igualmente com um toque de paixão, para que vejam quão longe a palavra pode viajar...
Espero que os todos se sintam à vontade e apreciem. Sejam Bem-Vindos!!!

domingo, 21 de junho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - BELÉM - PARTE V


No dia seguinte não teve tempo para pensar em outra coisa senão nos croquis que Emília havia enviado; imaginava como poderia viabilizar aquele projeto, que tinha, como sói acontecer nesses casos, forte marketing político; a amiga a visitou na parte da tarde, onde aproveitaram para conversar sobre a participação na empreitada.
- Bom, Eliza, não é necessariamente o seu escritório, mas você; quero que você supervisione tudo do começo ao fim, sem deixar um detalhe de lado.
- E quando os trabalhos estão previstos para começar?
- Logo que você examine tudo para dar seu parecer. A licitação foi aprovada, e, nesse caso, você tem de apresentar um orçamento para que tudo fique em ordem e possamos iniciar.
-Precisarei de pelo menos uma semana para examinar tudo. Preciso igualmente examinar os locais que serão de alcance do projeto, para determinar um parecer mais exato.
-Sem problemas, cara amiga; agora, porque não jantamos e falamos de amenidades? Por exemplo, se tem aproveitado para conhecer a cidade, se não se importar, é claro.
- Nem um pouco – sorriu, relaxando a expressão –podemos jantar aqui mesmo? Não estou com muita disposição para sair.
- Vamos encomendar algo para jantar então; conheço um restaurante japonês bem tradicional na cidade, podemos pedir algo de lá.

Eliza assentiu com a cabeça; estava mesmo indisposta, mais pelas coisas que martelavam sua cabeça do que pelo cansaço; adorava comida japonesa e iria aproveitar bem o jantar. Só esperava que a conversa não fosse desagradável...

Emília, de pronto, sacou do celular e discou o número do restaurante; em minutos já havia feito o pedido e ligava para que Jeremias, o motorista, fosse buscar a encomenda, dispensando o entregador. Vinte minutos depois o interfone anunciava a chegada da refeição, que foi muito bem consumida pelas duas, entre conversas entrecortadas. Mais uma vez ela perguntou do passeio, se tinha apreciado as construções da cidade velha e se tinha gostado da atmosfera da cidade. Eliza procurou ser solícita sem necessariamente ser muito explicita, pois sabia que ela quereria saber das visitas ao bairro da Pedreira; mesmo correndo o risco da desconfiança, tinha pedido ao motorista que fizesse discrição do que havia ocorrido.

O jantar tinha corrido bem.

Despediram-se num abraço cordial, combinando para, dentro de dois dias, visitarem o local do projeto; Eliza estava de bom humor e sorria quando acompanhou Emília até a porta...

Na manhã seguinte, não ligou requisitando novamente Jeremias; queria ir na casa de Albertina sozinha, sem qualquer pessoa estranha perto; queria ter tempo de sobra para conversar mais, saber de mais coisas da ligação do seu pai com o avô daquela senhora. Saiu do flat logo depois do café, tomando um táxi de um posto próximo; pediu ao chofer que fosse para o endereço o mais rápido possível, pois tinha um compromisso urgente lá; tinha um pressentimento estranho, um algo dentro de peito que não sabia o que era, mas que crescia à medida que ele achegava mais perto.

Ao chegar viu a neta na entrada da casa, num gesto de ansiedade contida, como se esperasse algo acontecer.
- O que está havendo? Onde está Dona Albertina?
- Ela está muito doente, senhora, liguei pro SAMU mas estão demorando demais; a senhora pode ajudar, por favor? – disse a jovem, os olhos já marejados – ela está assim desde ontem, não sei mais o que fazer.

Eliza então ligou para o serviço médico de emergência de seu convênio, e entrou na casa, guiada pela jovem; logo ao chegar no quarto, conteve uma expressão de horror...

Dona Albertina estava na cama, uma compressa sobre a cabeça, respirando com dificuldade; a expressão parecia ter perdido toda a cor, apenas os vivos olhos verdes pareciam ser mais fortes do que o resto dela; esses mesmo olhos se avivaram mais ainda ao ver Eliza chegar; ela quis gesticular, mas teve suas mãos contidas
- Por favor Dona Albertina, relaxe, o socorro já está vindo

E, como de praxe, a ambulância do convênio chegou bem antes, os paramédicos fazendo o primeiro atendimento e colocando a senhora na ambulância; Eliza resolveu acompanhá-la, o veículo tomando a direção do Hospital Central...

Foram exatamente duas horas de uma espera terrível; Eliza apenas acompanhava o vai-e-vem de médicos e enfermeiras, sem nenhuma nova do estado de saúde de Dona Albertina; entre um e outro copo d’água, ela e a jovem neta compartilhavam a ansiedade por notícias; enfim, um jovem medico trouxe as tão esperadas novidades
- A senhora é a Dona Eliza? – Perguntou calmamente o médico – tenho já o boletim do estado de saúde de Dona Albertina; peço, para que ela se recupere melhor, que a senhora não faça alarme do que vou dizer.

A expressão grave no rosto do jovem médico não era, de forma alguma, portadora de boas notícias; Eiiza concordou e esperou pelas palavras do médico
- Dona Albertina sofreu um sério acidente vascular, causado por um aneurisma; conseguimos contornar o problema, mas não sabemos como ela ficará; ainda é cedo para se dizer se ela terá sequelas ou pode se recuperar de todo; só nos resta agora esperar pela recuperação plena.
- Podemos falar com ela agora doutor? Perguntou ansiosa a jovem
- Ainda não, pois ela está sedada e continua em observação; só podemos deixar que um acompanhante fique com ela esta noite; regras do hospital, espero que entendam;
- Fique então – disse Eliza à jovem – eu preciso descansar um pouco depois de tudo isso; esse é o meu número de celular; me ligue assim que precisar de alguma coisa, eu virei de imediato.

A jovem guardou o número no bolso e acompanhou o médico ao quarto de Dona Albertina; Eliza os viu se afastar até virarem um corredor que conduzia à ala dos apartamentos; depois tomou um táxi de volta ao flat, onde, logo ao chegar, serviu-se de uma generosa dose de uísque com gelo, no intuito de forçar o sono. Sabia que ele iria demorar a chegar.

E, de fato, não chegou