sábado, 28 de março de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O RETRATO

Aprumou-se o melhor que pôde.

Verificou todos os detalhes da farda; os botões doirados, o cinturão, o talim(1), o ângulo do sabre, a faixa amarelo-doirada que denotava seu grau de oficial; tudo estava no maior apuro; precisava fazer os parentes, no interior de São Paulo, saberem que estava bem e em forma. Tinha apenas mais um dia de folga e o aproveitaria para fazer as fotos; o estúdio do francês estava sem muito movimento, pois os oficiais de alta patente já tinham tirado os seus retratos e os soldados rasos e sargentos eram atendidos em outra barraca, que cobrava mais barato pelos “cartes de visite”(2), que podiam ser com moldura de madeira ou de metal, dependendo do bolso do cliente; uns se aprumavam em armas, todas à mostra, como a dizer que não tinham medo da refrega; outros em poses altivas, outros em contemplação, outros mesmo em prece, ao lado de imagens de seus santos de devoção; o motivo , em todos os casos, era o mesmo: mandar notícias, numa tentativa de acalmar , de diminuir angústias em mães , esposas, noivas e demais parentes.



Ele preferiu um retrato maior, que pudesse mostrá-lo inteiro, em compleição plena, no mesmo querer falar a todos que a guerra não o modificara; não era bem assim – as cicatrizes de um golpe de sabre no ombro esquerdo e um de lança no braço direito diziam o contrário – mas ele estava ali, a dor das feridas ainda aferroando um pouco, mas bem menos do que antes; tinha sido surpreendido por um piquete de cavalaria paraguaio e não tivera tempo de ajeitar a montaria; antes que sacasse da arma para se defender, um sabre e uma lança o atingiram, fazendo-o cair da sela; somente a presteza do sargento Matias, de Spencer(3) já em mão, o salvou, mas não sem sangrar, o corte detido pela clavícula e pelo osso do antebraço; “sorte desses bugres não saberem afiar sabre, meu tenente”.

Esperou pacientemente o francês ajeitar a lente, conferir o ângulo da máquina fotográfica e ajustar o foco; foram quase dois minutos, mas pra ele pareceram uma eternidade; de tanto ficar sem movimento, a dor dos ferimentos ficou mais forte e ele já queria praguejar todos os impropérios ao pobre fotógrafo quando este levantou o polegar, dizendo que estava tudo pronto; foram duas fotos; uma, sentado, os olhos num ponto focal fora da cena; na outra, em pé, altivo, olhar firme, em todas as galas de oficial; “a família vai gostar”, pensou ele; depois acertou o preço com o homem que iria enviá-las no próximo correio para Araraquara, onde os pais já deviam aguardar, como sempre, ansiosos por notícias do filho; deixou a tenda do fotógrafo e voltou à sua barraca, onde já o esperava Inácio, seu ordenança pessoal, liberto recomendado por seu pai para acompanhá-lo; cuidava das roupas, dos objetos pessoais e das armas , sempre deixando o sabre afiado e as pistolas carregadas; tirou a farda de gala, verificou as bandagens dos ferimentos e vestiu a farda de campanha, já deixada ao alcance pelo ordenança; nem se notavam muito os rasgos da lança e do sabre; a farpela(4) Lourença já deixara tudo bem cosido; “boa mulher”, matutou, olhando para a cama de palha ao lado do catre, onde ela, de vez em quando, anoitava; desviou os pensamentos da mulata e pensou nos pais, lembrando do inopino com que se alistara, contrariando a vontade deles que o queriam em casa; o pai mesmo já separara dinheiro para “pagar um substituto”, que fosse pra guerra no lugar dele, mas ele se recusou, com a alegação de que não podia fugir do dever cívico; “Às favas”, disse o pai; “quero meu filho aqui, comigo, cuidando da fazenda, não se metendo em briga que não nos diz respeito; os gaúchos têm fuças pra se zangar, nós aqui não; deixe eles lutarem”; isso, porém, não convenceu o filho, ainda contagiado pelo rataplã dos tambores do recrutamento; mesmo com a ameaça de ser deserdado pelo pai, fez as malas e foi-se.  O pai, depois, se convencera de que não conseguira demover o filho; mandou Inácio, antigo escravo que agora era meeiro, acompanhá-lo na frente de batalha.

Agora, se lembrava disso e dizia: “bravata boba”, de si pra si, pensando no que vira desde que chegara à frente de combate: desorganização, doença, a mais completa falta de tudo; mesmo Caxias, com sua vontade férrea e disciplina idem, promovendo alguma ordem naquele caos, não conseguia ainda dar àquela turba uma forma de exército; dizia-se que a briga maior dele era com o Conselho de Ministros, na Corte, para conseguir com que viessem os suprimentos tão necessários; mas a maior frustração era que a Guarda Nacional, convocada juntamente com o exército para engrossar o contingente, simplesmente virou as costas, com a alegação de que, sendo uma “agressão externa”, não competia a ela se envolver; Caxias não estava surpreso; sabia que a Guarda era , apenas e somente, um instrumento dos chefetes políticos das províncias, que se pavoneavam de suas patentes e jamais tinham sequer visto uma arma na vida; sentia-se igualmente um tanto aliviado por não ter que cuidar daqueles trastes.

Tentou relaxar , mas algo não deixava que ele pregasse o olho; os primeiros combates lhe aguçaram o instinto, aprimoraram o senso de alerta, o perceber do perigo; colocou a cabeça pra fora da barraca, mas nada via, apenas soldados de folga vagabundeando, entre idas e vindas às tendas das farpelas; algumas, melhor ataviadas, se aventuravam nos alojamentos dos oficiais; tudo rescendia a preguiça, a nada fazer; então, um rugido distante, como que um trovão, começou a crescer; ele, então, alçou as pistolas, o sabre-baioneta, que preferia, por ser mais curto e leve pra se manejar a cavalo, e ordenou a Inácio para que selasse sua montaria; logo ouviu o assoviar do primeiro obus e o ribombar da explosão das granadas; começava a batalha de Tuiuti, a maior batalha campal até então.

A encomenda foi entregue pelo estafeta logo de manhã cedo, quando os escravos iam pro eito; passou o pacote à mucama sem apear, apressado que estava em aviar-se; o Comendador Lourenço recebeu o pacote com ar sério, tentando não mostrar-se tão ansioso por abrir; sua mulher não escondia a ansiedade, mas esperou que o marido passasse a encomenda a ela para que a abrisse; nela estavam duas cartas do filho, e, embrulhados em chumaços de estopa, estavam duas fotografias, que a mãe apertou contra o peito, depois entregou ao marido; ele observou com mal disfarçado orgulho, vendo a transformação que o filho sofrera;  via no olhar firme que ele, enfim , se tornara um homem; voltaria, casaria, teria uma família e tomaria conta da fazenda quando ele cansasse ou morresse;

Ele se viu novamente no hospital de sangue, entre tantos outros feridos; desta vez a coisa era mais séria: dois tiros na altura do peito, depois de quase duas horas de peleja; entre ataques e contra-ataques, os paraguaios tentaram pegar os brasileiros de surpresa, mas a ausência de atividade deixou algumas unidades alerta, especialmente a artilharia de Mallet, que de tão precisa, destroçou as cargas de cavalaria dos paraguaios; tal feito rendeu as guarnições o apelido de “artilharia-revólver”; ele viu, num leito a poucos passos do seu, deitado, igualmente ferido, o general Antônio de Sampaio, cujo corpo de voluntários cearenses foi o primeiro a sentir o impacto da carga; três balaços o derrubaram do cavalo; ainda teve tempo de ditar um despacho ao ordenança: “avise ao Imperador que eu estou ferido”, foi retirado do campo de batalha, mas já não se tinha mais esperança que ele sobrevivesse; 
Ele já sabia que também não tinha mais esperança; perdera sangue demais, as forças já faltavam; viu então Inácio, à sua cabeceira, mãos no queixo, num jeito mal dormido; chamou-o junto a si e deu recomendações a ele para que fizesse saber aos pais que ele estava moribundo e que já sabia que ia morrer; o ordenança se recusou, fazendo o sinal da cruz e esconjurando as palavras do oficial; “o que eu vou dizer ao senhor seu pai se eu chegar sem o filho dele?” O oficial ainda pensou nos pais, que, pensava ele, já deviam ter recebido suas últimas cartas e os retratos; Inácio tentou aquietá-lo, mas ele não ouvia mais; os olhos fixavam o alto da tenda, a mão caída para o lado direito, já sem vida...

Os pais avistaram de longe o cavalo castanho, reconhecendo a montaria com a qual o filho saíra de casa; chegando mais perto, deram com Inácio montando o animal, seguido por um carroção que seguia logo atrás; A expressão esperançosa se tornou pesada, pois o pai sabia o que aquilo queria dizer; olhou para o cavalo selado perto do alpendre, mas não o montou; esperou que cavalo e carroça chegassem na entrada da casa, para só então ver o que se passava; Inácio, ao chegar, apeou e entregou ao comendador o talim, o cinturão e o sabre, além da medalha de valor, concedida postumamente; depois tirou a lona do carroção e mostrou o caixão com o corpo do filho; Inácio explicou que precisou conservá-lo em vinagre e sal até que chegasse no Rio de Janeiro, onde o embalsamou e o conduziu de volta; havia prometido que o faria e o fez; o Comendador, com voz rouquenha, agradeceu à dedicação do liberto e quis recompensá-lo, mas ele recusou, dizendo que fez isso “pela amizade do tenente e pela caridade cristã”; o comendador insistiu , então, para que ele aceitasse o cavalo castanho com o qual ele voltara; após muita insistência, Inácio aceitou, despediu-se e tomou o caminho da saída da fazenda; ao entrar, o comendador viu que os retratos do filho já ostentavam uma faixa preta atravessando o canto superior, mostrando o pesar e o luto; a mãe fitava os retratos em silêncio, a dor compungida, sem alardes nem desespero; o marido afastou-se sem dizer palavra; sentia a mesma dor, a mesma agonia, mas tinha de ser forte, para que os dois não desmoronassem; tratou de sair, cuidar dos preparativos para o enterro do filho, que seria na capela da fazenda, ao lado dos avós e dos bisavós; olhou para o caixão e não conteve o pensar alto: “está em casa agora meu filho; fique em paz...”

NOTAS
1- Conjunto de anéis e tiras de couro que atados ao cinturão, prendiam a bainha da espada/sabre/baioneta, facilitando a rapidez do desembainhar da arma

2 - Eram pequenos retratos do tamanho de cartões, emoldurados de madeira ou metal, que eram enviados aos parentes como lembrança ou mesmo para lembrar datas alusivas, como casamentos, aniversários ou funerais; fotógrafos famosos como Militão Augusto de Azevedo, Christiano Junior e Marc Ferrez produziam tais retratos, sendo que Christiano Junior fez seu estudo dos escravos do Rio de Janeiro em retratos nesse formato;

3 - O Rifle Spencer , de calibre 58, foi o primeiro rifle de repetição de cartucho metálico efetivo que se tornou arma de serviço militar; usado na Guerra Civil Americana pelas tropas da União, foi rapidamente exportado, sendo o Brasil um dos primeiros compradores, que o usou para equipar a sua cavalaria; estranhamente, sua versão mosquetão, de infantaria, não foi adotada pelo exército brasileiro, com a alegação de que a cavalaria, que ainda considerava o sabre como arma principal, via o rifle apenas como “arma de último recurso”, usada apenas quando se tinha de desmontar e lutar numa posição estática; a alta taxa de tiro- um atirador hábil poderia disparar quinze tiros em dez segundos – fez com que a comissão de material bélico do Departamento Imperial de Guerra – presidida pelo então general Manuel Luís Osório – concluísse que,  para a infantaria, seria “desperdício de munição”


4 - Farpelas eram mulheres que, acompanhando os soldados em campanha, serviam como criadas pessoais, atuavam como enfermeiras informais nos hospitais de sangue e, muitas vezes, eram a válvula de escape sexual para os soldados na frente de combate; muitos oficiais e soldados tomaram algumas delas como concubinas, ou “esposas de guerra”; muitas mesmo pegaram em armas, lutando ao lado dos homens quando a situação apertava; eram diferentes das vivandeiras, que distribuíam suprimentos e muitas vezes, uma ou outra palavra de consolo aos soldados; estas últimas eram parte da estrutura militar, muitas vezes usando uma versão feminina do uniforme; as primeiras eram parte do volumoso contingente de todos os tipos que acompanhavam o exército em campanha;

sábado, 21 de março de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O TEMPO SE DESDOBRA

Ela abriu a caixa devagar, absorvendo o odor de antigo que emanava de dentro; observou cada item com um interesse não tão grande, pensando em como o pai pudera juntar tanta coisa nesse tempo todo. Percebeu que a caixa era dividida em compartimentos, sendo que o primeiro continha uma caixa de veludo vermelho, amarrada com um laço de seda da mesma cor; um retrato com moldura de prata, onde um jovem de uniforme, o garbo em pessoa, encarava o observador; uma luva branca de seda, com um chamusco leve, estava colocada no centro do compartimento.

Retirou o primeiro compartimento sem mexer nos objetos; queria se ater de tudo que havia, sem começar a assuntar muito; queria sentir o pai, entender o que ainda ela não atinava, o que ainda não sentira em espírito; tinha apenas uma tênue noção do que o pai queria dizer, mas ia muito mais por respeito do que por real interesse; no segundo compartimento estavam um sabre curto, com pontos de ferrugem; um manto ou colcha, com desenhos que pareciam ser de pessoas, umas de uniforme, outras não, um tubo fino, de comprimento médio, que parecia ter sido parte de algo maior;  ao lado dele, um saco com o que pareciam ser botões de uniforme, dado o que ela conseguiu enxergar na estopa;  um clarim, com a boca torta e com um rasgo , como se fosse feito com algo afiado.

No fundo da mala, num canto, um envelope pardo grosso, amarrado com barbante, fazia companhia a uma barretina militar antiga e dragonas douradas; perto delas outro envelope, mais novo, parecendo ter sido o último item colocado ali; numa intuição, ela pegou o envelope e o abriu; havia um bilhete, ela de pronto reconhecendo a caligrafia miúda do pai, inclinada para a esquerda.
          
“Cara Eliza
             
Você está de posse não apenas de um caixa com objetos, mas uma cápsula de memórias, não de feitos ou façanhas, mas simplesmente de pessoas; essas pessoas falam através destes objetos que agora tens nas mãos; tudo está no envelope maior; espero que leias com atenção e percebas a alma que emana de cada coisa aqui; sua mãe, que Deus a tenha, sempre dizia que era perigoso demais mexer com o que estava morto; que o passado era o que era, passado, e não devia se mexer; mas algo me levou a saber dessas pessoas, algo que até hoje não sei explicar; antes de tecer qualquer juízo, sinta primeiro o que essas pessoas têm a dizer; aí,  decida o que fazer...Na caixa menor há outras coisas que quero que vejas.

Teu pai

Silvano”

Foi até o quarto, pegou a caixa menor e a abriu; o primeiro item  que viu era outro envelope , um pouco menor que a caixa, que, ao ser aberto, revelou um grupo de fotos antigas; em algumas delas reconheceu o pai, do mesmo jeito elegante, só que sem a calva que viria depois com a idade; tinha um sorriso jovial e expansivo; numa delas, reconheceu Carlos Lacerda, que, ao que o pai falava, o iniciara no jornalismo; em outra, viu-o na companhia de duas moças, uma das quais reconheceu como sua mãe, num amplo salão que parecia ser uma sorveteria; 


a última, porém, chamou a atenção por ser a única que tinha data; no canto superior direito, lia-se “Antônio Ribeira, março de 1955”; mostrava-o ao lado de um homem muito idoso, de barba branca hirsuta, no que parecia ser algum tipo de hospital ou sanatório; a foto os mostrava sentados como se conversassem, acompanhados por pessoas que vestiam jalecos brancos de enfermeiros;

Lembrou-se então de que o pai mencionara uma vez o nome desse homem na primeira mensagem que deixara a ela; lembrava-se também de uma senhora com o mesmo sobrenome, beneficiária no testamento; mas o que será que esse homem teve de tão importante na vida dele, a ponto de citá-lo com grande deferência? Eram perguntas que ela precisava responder...

Voltou, então, para a caixa maior, pegando o envelope que estava junto da barretina; estava ali havia tempo, pois amarelecera e se fragilizara, mas não o conteúdo; ele quase se desmanchou ao abrir, revelando um grupo de doze cadernos de notas pautados Moleskine amarrados com elástico em grupos de quatro; ela desamarrou o primeiro grupo e abriu um deles; reconheceu a letra do pai, lembrando das anotações cuidadosas que costumava fazer; nunca deixava de ter sempre alguns, comprados na papelaria Oriente, prédio de elegante fachada mourisca que ficava a seis quarteirões de casa; ele dizia que eram “seu cérebro de reserva”, embora tivesse memória prodigiosa; gostava de anotar as coisas, fazendo registros de tudo.



Os cadernos estavam em sequência, com números de papel celofane dourado recortados e colados nas capas azuis; ela pegou o primeiro nas mãos e começou a ler; começava a conhecer aquilo que o pai tanto pedira para descobrir; agora, o tempo se desdobrava, acordava, se revelava; ela se lembrou do que o pai escrevera; “cápsula de memórias, não de feitos ou façanhas, mas de pessoas”. Ela dava o primeiro passo na direção delas...


sábado, 14 de março de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O ABRIR DAS PORTAS DO TEMPO...


 Ela chegou em casa mais tarde que o habitual; a reunião tinha sido bem-sucedida, o projeto dos lofts aprovado sem nenhuma restrição ou ressalva; ela decidiu comemorar com a equipe do escritório em um bar próximo, a comemoração se estendendo até mais tarde; deixou-se levar pelo entusiasmo e sentiu que chegara ao limite; pediu licença à equipe, tomou um táxi e foi para casa.

Acordou surpresa por não estar de ressaca; preparada para um dia de mau humor, sentiu-se estranha por não tontear e nem ter dor de cabeça; depois de tomar banho, preparou um café da manhã com frutas, iogurte e granola; era obcecada por manter o peso, o que a fazia ter sessões diárias na academia a duas quadras de casa e uma dieta rigorosa de fibras e outras tantas coisas não calóricas; usava a lembrança dela mesma, garota rechonchuda do ginásio, lambuzada de guloseimas, para se manter na linha.

Levantou-se da mesa, lavou a louça do desjejum e só então notou a sacola no sofá, com o envelope e a caixa que Lisandro entregara; sabia que teria de começar a confrontar a incumbência – e o mistério -  que seu pai legara...
Passou para o quarto e deixou a sacola na cama, enquanto ligava para saber se tudo já estava no jeito para a inspeção do prédio; teria de dar a primeira vistoria – era algo que ela não deixava que ninguém fizesse – e faria os croquis iniciais; era o jeito dela e ninguém ousava propor algo diferente; tinha conseguido juntar uma equipe de bons profissionais, numa tal sintonia que eles pareciam antecipá-la.

Por volta das nove horas ela já estava no local, um velho prédio de salas comerciais perto da Praça Quinze, com uma fachada de terracota ainda bem preservada e platibandas de estuque; seus olhos treinados esquadrinharam cada detalhe da fachada, cada parte que pudesse ser preservada ou então descartada; a equipe chegou quinze minutos depois; juntos, vasculharam cada canto do prédio, o primeiro de um projeto experimental que tentava revitalizar o centro da cidade; procuram em cada canto detalhes que pudessem reforçar , ou não, a viabilidade do projeto; depois de duas horas de um pente fino rigoroso, deram o “OK”, para começar.


O sol já se punha quando voltou pra casa; deixou os sapatos perto da porta, o casaco no sofá, o resto das roupas na máquina de lavar e entrou no chuveiro; depois, já de roupão, foi para o quarto, onde os jornais do dia já a esperavam; mas, antes que a leitura começasse, ela divisou a sacola do outro lado da cama; olhou-a longamente, sem expressão no rosto; lembrou-se das palavras do pai na carta, pedindo a ela que continuasse o que ele não conseguira...
Deixou os jornais na cadeira, tomou a sacola e derramou o conteúdo; a caixa de pinho e o envelope ficaram lado a lado; ela fitou-os e, como se cruzasse uma linha, abriu o envelope; dentro, um pequeno bilhete do pai, um cartão de uma firma guarda-móveis e duas chaves num chaveiro em forma de um pequeno cavalo; o bilhete simplesmente dizia que ela deveria ligar para o número do cartão e passar o número de ordem, para que o que estivesse lá fosse despachado; já passava das seis, mas , mesmo assim , ela resolveu ligar;
- Guarda-móveis Algarve, boa noite; Luís Cláudio falando.
- Boa noite, Luis Cláudio. Aqui é o cliente da Ordem de Serviço W36789P.
- Pode confirmar, por favor? Indagou o atendente numa voz robótica, como se fosse uma gravação.
- Ordem de Serviço W36789P –repetiu ela, reforçando a entonação de cada letra e número.
- Obrigado, senhora; sua entrega será feita em até dois dias úteis; prazer em atendê-la.

Ela desligou o telefone com uma interrogação a mais; o que o pai teria naquele lugar? Ela se lembrava que, num rompante, ele resolvera doar todos os móveis mais antigos do apartamento para um abrigo de idosos; separara meticulosamente o que iria doar e depois guardou algumas coisas; no outro dia, ela pudera ver que tudo já tinha ido embora, exceto o que ele preservara no recanto favorito.

Os dois dias passaram como um estalo, ela entregue ao projeto dos lofts, discutindo cada detalhe com os contratantes; nenhuma ressalva havia sido feita; tudo caminhava na mais perfeita ordem e nem mesmo o prazo tinha estourado; ao contrário, tinham uma confortável dianteira, que deixou os contratantes muito felizes; o projeto era o modelo para outros que viriam e tinha de dar certo; ela deu-se o direito de um dia de folga; deixou as tarefas de supervisão para a equipe e descansou por algumas horas.

O som do interfone interrompeu o descanso; o porteiro avisava que um furgão de entregas tinha chegado e necessitava de autorização para entregar uma correspondência; ela concordou e, depois de alguns minutos, dois homens trouxeram uma caixa de mais ou menos um metro de altura, de madeira escura, de jeito antigo, mas o cadeado era um cadeado moderno; depois de assinar o recibo de entrega, pediu que deixassem a caixa no meio da sala; depois que os entregadores saíram, ela se pôs a examiná-la a partir dos fechos, antigos mais ainda intactos, como se tivesse sido, desde o começo, muito bem cuidada; tudo estava em completa disparidade com o  cadeado, mais moderno que o conjunto; era daqueles cadeados de bronze com trava de aço, muito vendidos em lojas de ferragens;



Então, ela se lembrou das chaves.


Buscou-as no quarto; uma delas tinha um formato simples; devia ser a chave da caixa menor, de fechadura mais rudimentar; a outra, de formato mais elaborado, devia ser a do cadeado da caixa maior; pegou a chave mais intrincada e experimentou no cadeado. Ele abriu num estalido seco, liberando a trava da caixa; ela abriu a tampa devagar, mesmo sem mais nenhum controle da ansiedade; olhou o que continha e sentiu que as portas do tempo estavam se abrindo; ela descortinaria o mistério que tanto norteou a vida do pai....



sábado, 7 de março de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O ENCONTRO

Acordou com o som do telefone; olhou o relógio de cabeceira, vendo que dormira quase doze horas; nos recados da caixa postal do celular reconheceu a voz pausada e profunda de Lisandro, o advogado do pai, que marcava um encontro para o fim da tarde no escritório dele. Lembrava da devoção e da fidelidade canina ao pai, que , na realidade, disfarçava a devoção por ela; se apaixonara desde seus tempos de jovem advogado recém-saído das Arcadas, com todo o mundo pela frente, mas ela cedo enterrara as ilusões dele; não nascera pra relacionamentos, nem mesmo pra compromissos; decepcionara-se com os poucos que tivera; não que fosse sem coração ou insensível; simplesmente sentira que não nascera talhada para aquilo.
Tomou uma demorada ducha, arrumou-se e saiu; levou mais ou menos uma hora pra chegar no escritório, num elegante prédio comercial de janelas de vidro negro; tomou o elevador e em minutos estava na sala de Lisandro, onde a secretária convidou-a a sentar-se e esperar, pois ele estava em uma chamada importante; ela reparou nos compêndios impecavelmente arrumados, as estatuas indianas que os separavam em grupos, a ampla mesa de mogno em que repousavam um peso de papel, uma estátua de Atlas de tamanho médio e embaixo dela uma pilha de pastas; imaginou a urgência daqueles processos, a ansiedade desmedida dos clientes;


Não demorou muito pra que ele chegasse, terno bem composto, cabelo grisalho e óculos de aro de metal; era a solenidade em pessoa; ela conjecturou se por acaso ele teria alguma vez, fora a intimidade dos dois, revelado algum tipo de emoção; ele sentou na cadeira reclinável de espaldar alto, cruzou as mãos e, tirando da gaveta uma pasta de papel pardo, a colocou na frente dela.
- Bem, Eliza, seu pai me deixou instruções precisas sobre algumas coisas que você precisa tomar conhecimento; imagino que você tenha lido a carta que eu entreguei no funeral.
-Sim, eu li – respondeu ela, com voz calma, a curiosidade remoendo – ele me explicou bem a respeito de tudo, mas a carta dizia que você teria outras informações...
- Isso mesmo – respondeu no mesmo tom solene – seu pai me nomeou seu testamenteiro e inventariante, de modo que muitos dos trâmites legais já estavam em andamento antes dele morrer.
Ele, então, abriu a pasta, espalhando ordenadamente o conteúdo sobre a mesa de mogno. Além da descrição do espólio e dos bens – que se resumiam ao apartamento que ela residia, na Constante com N.Sa de Copacabana, no sítio de Petrópolis e um sobrado em São Luis do Maranhão, além de dois terrenos em Angra dos Reis e um conjunto de aplicações e investimentos, que também incluíam lotes de ações ao portador de bancos empresas – o testamento e as disposições do pai, que nada tinham de novo; ele a nomeava sua única herdeira, além de separar uma parte dos investimentos pra ela e outra para o Asilo de Mendicidade em São Luís, além da transferência de uma quantia em dinheiro para uma pessoa chamada Albertina Ribeira, residente na cidade de Belém do Pará;
- Mas há mais – disse Lisandro, as mãos cruzadas sobre a mesa -  ele deixou igualmente isso – tirou então uma caixa de pinho e colocou-a na mesa junto om o envelope - mas o conteúdo nem mesmo eu sei; ele apenas me pediu que a guardasse e apenas depois que ele falecesse deveria ser entregue a você; as instruções de acesso estão neste envelope;
Ela tomou nas mãos a caixa e o envelope pardo lacrado, arrumando-os da melhor forma possível; Lisandro depois conversou de amenidades, como o casamento da sobrinha, a formatura do filho de um amigo e um projeto de ampliação do escritório; ela escutou tudo com cortesia, mas o pensamento estava longe, nas coisas deixadas pelo pai; Lisandro ainda não desistira dela; a solenidade disfarçava uma grande admiração ou mesmo amor, como ela, num momento, divagou; ela, porém, jamais se arrependeu de não ter alimentado esperanças, pois sabia que destruiria o homem que ele poderia ser com outra pessoa bem mais aberta para amar do que ela; ficou sem saber se a devoção dele era, de fato, amor ou seria apenas uma obsessão do ego. Despediu-se dele e retornou ao apartamento.
Não abriu imediatamente o envelope; a ansiedade, ela sempre lembrava o conselho do pai, poderia ser perigosa se não fosse contida, podendo fazer que se tomasse ou uma decisão errada ou se cometesse um ato precipitado; assim, depois de assistir televisão e jantar, leu algumas linhas dos cadernos de cultura dos jornais que tinham sido entregues pelo porteiro – ela só lia os jornais do dia quando ia se recolher para dormir -  mas, vencida pelo cansaço, caiu no sono.

O sol tocou-lhe o rosto, fazendo-a despertar levemente; o crepitar da vibração do celular quebrou a calma; era Júlia, a secretária, avisando da reunião com diretores de uma construtora que contratara o escritório dela para elaborar uma concepção diferenciada para lofts no centro, aproveitando os espaços dos prédios antigos; olhou o relógio; oito e quinze; ainda teria tempo para tomar café, mas seria no pequeno bar que ficava perto do escritório; a reunião estava marcada para as onze e meia, então ela ainda teria um pouco de tempo; depois de arranjar a caixa e o envelope em uma sacola, colocou–a no banco traseiro do carro e saiu à toda para o escritório. Diferente de Lisandro, que apreciava a madeira, ela era grande apreciadora de plástico e metal, materiais que fazia de inspiração para seus conceitos; minimalista, tudo na sala se casava a um espaço de utilidade prática; não havia espaço pra arte; peças de decoração aqui e ali, sem carregar demais, eram a marca do espaço dela.  A única concessão que fazia ao equilíbrio estilístico do seu escritório eram duas fotos emolduradas em sua mesa: uma, dela e do pai, tirada num verão na Churrascaria Plataforma, lugar que ele, religiosamente, sempre ia no último sábado de cada mês, refestelar-se nas iguarias que o lugar oferecia; ela, vegetariana convicta, apenas se aventurava nas saladas; a outra, emoldurada em metal prateado,  mostrava o pai na juventude, um sorriso amplo, de braços cruzados, chapéu desabado para a nuca; no canto inferior direito da foto, uma dedicatória onde se lia: “à minha querida  Adélia, pra diminuir um tanto a saudade; com amor, Silvano”; tinha sido um presente do pai, num dia que ele, num impulso, revirara suas lembranças e lhe dera a foto; impressionou-a o olhar iluminado, o sorriso idem; aquela imagem, ela sentia, era a página inicial de uma história de amor...



Ilustrações: Google Images/blacyblanc.blogspot.com

sábado, 28 de fevereiro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VAZIO

Ela chegou do mesmo jeito de sempre.
Com os sapatos na ponta dos dedos, girou a chave na porta ao mesmo tempo que deixava cair o guarda-chuva no balde de tela na entrada do apartamento; deixou a bolsa na poltrona perto da porta, os sapatos no lado da mesinha do telefone e sentou-se no sofá, esticando as pernas. Respirou fundo...
Só então, se deu conta de uma coisa. Ele não estava lá.
Tinha acabado de chegar do funeral dele; os poucos e fiéis amigos carregaram o caixão para a sepultura simples, um jazigo comprado há muito, onde repousavam a mulher e a mãe, a primeira ocupante; o pai, na preferência de ser cremado, preferiu que suas cinzas fossem sepultadas com a companheira; caía uma chuva fina, que ele apreciava de ficar horas olhando pela janela, notando cada passante apressado , mesmo da altura do 16º Andar; um dos amigos recitou uma elegia simples, depois de uma silenciosa meditação; o caixão foi colocado no lóculo e este, finalmente, lacrado;
Ela não chorou e nem choraria agora; lembrou do pai repetindo a frase de Oswaldo Cruz: “a morte é um fenômeno biológico tão natural e tão inevitável, que acho desnecessário e fútil frisá-la com cerimônias especiais”; mas uma última vontade do pai ela não cumpriu; ele, que desejava ser apenas amortalhado, foi sepultado com um terno sob medida, sapatos impecáveis e bem arrumados; “se ele tinha de ir ao encontro do Criador”, pensou ela, “deve ir bem vestido”. Permitiu-se um riso leve, antes de entrar no chuveiro...
Saiu do banho como se largasse um fardo; enxugou-se, vestiu um vestido leve e pôs-se a esquadrinhar o apartamento; precisaria arrumar muitas coisas, arquivar as anotações e cadernos do pai, ajeitar documentos, resolver pendências...
Documentos...
Lembrou-se do blazer largado no sofá; Lisandro, advogado do pai por anos, desde que saíra das barbas da faculdade, entregou a ela um envelope, onde, na letra rebuscada do pai, estava escrito apenas: “leia depois do meu enterro”; pegou o envelope do bolso, foi para o quarto e começou a ler...
“Cara Filha Eliza
         No momento em que corres os olhos sobre estas linhas, eu com certeza já devo estar morto e o Lisandro, com aquela cara solene de papa-defuntos (que ele não nos ouça) entregou o envelope pra você; não preciso te dizer coisas que já sabes; O próprio Lisandro vai se encarregar disso; o que tenho pra te falar é outra coisa...
         Tu, mais do que ninguém, sabes do que foi a paixão da minha vida; desde quando conversei pela primeira vez contigo sobre o assunto, depois de todas as tempestades da tua vida, vi que entendias e sabias do meu interesse mais do que a sua mãe – que Deus a tenha – e que igualmente sabias que aquilo era o móvel de algo mais que um simples interesse por história; para mim era o resgate de gente que, se pudesse ser ouvida, falaria de um tempo que conhecemos tão pouco; até quando conheci o Antônio Ribeira, em meu tempo de juventude, senti que era algo mais que me movia, como se um mentor oculto apenas me dissesse: “conte a história deles”; consegui juntar peças , mas nada consegui contar; assim, o que te peço é que destine a alguém que o possa fazer, para que tudo o que busquei nesse tempo todo em minha vida não morra junto comigo; não te obrigarei que o faças; podes simplesmente passar ao Lisandro; dei instruções a ele para que proceda tudo e acompanhe o desenrolar dos acontecimentos; esse pedaço da história é precioso demais pra ser esquecido, importante demais para permanecer no fundo de uma gaveta; te peço que não deixe que sejam esquecidos; lutei demais para emergir tudo isso, mas sempre encontrei portas fechadas, senões, recusas e desculpas esfarrapadas; sinceramente espero que consigas ter êxito onde eu não consegui...
Tente ser forte; sempre foste; me alimentei da tua força em segredo, quando em muitos momentos quase esmoreci; assim, eu confio em ti para que possas fazer com que essas histórias sejam, finalmente, contadas...
Do Teu Pai
Silvano Andeiro Thomaz”

Ela deixou a carta sobre a cama, respirou fundo e meditou; lembrava das constantes viagens do pai, sempre em busca de histórias sobre sua grande paixão, A Guerra do Paraguai; lembrava da mãe dar de ombros, a dizer: “sandices do teu pai” mas não protestava nem fazia caso; ainda estudante de arquitetura, lembrava que por vezes o pai mergulhava em silêncios longos, onde parecia se apartar do mundo e mesmo da consciência, guardado que estava em sua reclusão; seu local nessa hora era o pequeno espaço próximo ao janelão que dava pra rua, onde ele gostava, nos dias de chuva, ver os passantes apressados procurando se proteger; nesse local, arrumaram uma estante e uma cadeira preguiçosa que dava ao local um ar de Sancta Santorum; nem Ademilde, a fiel faxineira que servia a casa, mexia naquele local; era onde ele fazia seu templo, seu refúgio, seus segredos...
Ela ficou pensativa por um instante, releu a carta e deitou-se, remexendo as palavras do pai, como se quisesse descobrir algo mais; ela o vira escrever, algumas vezes à mão outras vezes na velha Olympia que, por mais que ele tivesse à disposição um laptop, presente dela, onde escrevia suas colunas para diferentes revistas e jornais, preferia fazer alguns escritos na velha Olympia, mas sempre tinha um destino para aqueles papéis que ela não conhecia;

Saiu do quarto e foi até a sala; parecia ter dobrado de tamanho, tal era a sensação de ausência do pai; tudo parecia estar mais longe; a mesa de jantar no lado esquerdo a estante de Louça Companha das Índias, orgulho da mãe, que gostava de colecionar peças; o relógio de carrilhão no lado oposto, a coleção de miniaturas de monumentos, a única coisa que ela se assumia apaixonada; o lustre de estilo Lalique, feito por uma amiga artesã vidreira, cuja luz esverdeava coloria a sala. Viu o recanto do pai, do jeito que ele havia deixado antes de ir para o hospital; só agora, confrontada com a imensidão do espaço, sentiu a falta dele; foi para o quarto, deitou-se novamente, e sem nem mesmo prévia, chorou copiosamente até que, como se drenasse toda a tristeza num único instante, dormiu.


CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - INTRODUÇÂO


A Guerra do Paraguai é o maior conflito já deflagrado dentro do continente sul-americano; foi uma guerra em grande escala, empregando homens e material em uma proporção jamais imaginada na história militar desta parte da América; há quem diga que foi o explodir de tensões que já vinham se acumulando desde meados do séc. XVIII, das disputas de fronteira entre as metrópoles portuguesa e espanhola, que as nações surgidas no continente no limiar do séc. XIX herdaram; outros dizem que simplesmente foram os caprichos de um ditador sem escrúpulos que arrastaram um país inteiro para a guerra, e quase dizimaram sua população masculina economicamente ativa;

Foi uma guerra que enriqueceu alguns e empobreceu muitos; apesar de ser igualmente chamada (especialmente nos países europeus) de “Guerra da Tríplice Aliança”, por causa da participação brasileira, uruguaia e argentina, um país , mais que todos, suportou o peso econômico e humano da guerra: o Brasil; nosso país amadureceu militarmente; nosso exército, formado praticamente a partir de um corpo de voluntários de origens e temperamentos diversos, foi tomando a forma e a organização de um organismo moderno, mesmo quando suas origens pudessem vir do recrutamento forçado; mesmo sendo coeso, ainda assim o preconceito grassava forte (os soldados brasileiros eram chamados de “Macacunos”, pelos paraguaios e mesmo pelos aliados) e mesmo os brasileiros, especialmente os gaúchos, mais familiarizados com a dureza das condições , o clima e a dieta, desprezavam os soldados vindos do Norte e Nordeste – “mandai Mãe de Deus, mais uns dias de Minuano( o vento forte e frio que sopra do sul) pra acabar com tudo que é baiano” -  mas foi a primeira vez em que brasileiros de vários estratos sociais e de diferentes províncias se encontraram e a troca cultural resultante disso foi muito duradoura; nessas trocas, se mostram as verdadeiras histórias da guerra e baseados nelas os contos apresentados aqui se constroem; presente e passado, o ser humano – nós e o outro – somos os fazedores da história; conheçamos, então, esses seres humanos e vejamos o que eles têm para contar...na guerra, o Brasil aprendeu a se ver por inteiro...


CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - AO LEITOR


Caros Amigos

A Série que começarei a apresentar a vocês nasceu há vinte e cinco anos, quando acidentalmente, numa loja de discos, vi um CD da trilha sonora de um documentário chamado THE CIVIL WAR, sobre a Guerra Civil Americana, produzido por Ken Burns, um dos mais completos sobre o tema; li o prospecto de quase trinta páginas com uma avidez que me consumiu um dia inteiro, e persegui durante dois anos a chance de ver esse documentário; ao assisti-lo, me impressionou especialmente a riqueza iconográfica que ele apresentava; depois,  conheci a extensa literatura e filmografia americana sobre o tema, jamais esgotada – desde “O Emblema Rubro da Coragem”, de Stephen Crane, passando por “The Civil War- a History”, escrito pelo brilhante jornalista Harry Hansen, até os filmes “Gettysburg” e “Deuses e Generais”, magistralmente produzidos.  Me impressionou sobremaneira a multiplicidade de interpretações e teorias sobre a origem, a evolução e os desdobramentos da guerra e de como ela transformou a sociedade americana. Me impressionou também o imaginário produzido sobre esse momento da história.

Não pude deixar de me remeter à Guerra do Paraguai, que começou exatamente no fim da Guerra Civil nos EUA; à parte as diferenças entre os dois conflitos, me assaltava a pergunta: por que não se produziu, no Brasil, o mesmo imaginário, o mesmo conjunto de questionamentos tão agigantados nessa passagem da história sul-americana? Meu primeiro contato com alguma literatura fora do âmbito escolar me foi dado por um dileto amigo, que me emprestou o conhecido “Genocídio Americano – A Guerra do Paraguai” escrito por J.J. Chiavenato, uma abordagem diversa do universo didático sobre a guerra; li-o, confesso, com alguma reserva, por causa do endeusamento da figura de Solano Lopez, ditador do Paraguai, colocado como um “paladino contra o imperialismo britânico”; não satisfeito na minha busca por uma abordagem mais equilibrada, finalmente encontrei-a no livro de Francisco Doratioto, “Maldita Guerra”, onde, por detrás de extensa pesquisa documental e iconográfica, o autor nos mostra uma visão mais equilibrada, mais científica e, em muitos aspectos, mais humana; ainda assim, não via esse imaginário que eu buscava, o do homem comum, as histórias da gente, dos embates, do que poderiam pensar homens que , durante cinco anos , se enfrentaram nos esteiros, arroios e campos paraguaios; passei pelas memórias de Dionísio Cerqueira, soldado e depois político e a obra clássica “A Retirada da Laguna” de Taunay, até que, um dia, duas outras leituras me deram o impulso final: o pequeno conto “A Caminho de Assunção”, de Rubem Fonseca, e a “graphic novel” escrita por André Toral, “Adeus Chamigo Brasileiro”; elas me deram o rumo que faltava para ir atrás e pensar as narrativas que viriam das descobertas dessa passagem de nossa história...

sábado, 24 de janeiro de 2015

SEGUIR A VIDA

A vida tem muitas mensagens...

Muitas delas tomamos como lemas e seguimos nosso caminho entre os percalços que essa mesma vida apresenta;cabe a nós ter denodo e personalidade para, a cada tempo, sermos mais fortes do que o que é contra nós; temos do nosso lado a fé, que nos resguarda, protege e aconselha; mas será que, no rumo que escolhemos, somos sábios o suficiente para senti-la e fazer com que ela esteja ao nosso favor?

Temos a tendência a acreditar que, no afã de fazermos as coisas certas, estamos certos em tudo o que fazemos; as circunstâncias nos mostram muitas vezes - e aí entram as mensagens e "toques" que a vida às vezes nos dá - que precisamos repensar e rever o que pensamos e sentimos, para que nossa vida e nossa evolução espiritual possam ser cada vez melhores ; me condoo daqueles que, ao invés de seguir a vida, se aferram e se deixam remoer no passado; se condenam eles ao pior da vida: incapazes de viver o presente, negam a si mesmos o futuro; que evolução essas pessoas podem ter? Ao invés de se ligarem às suas vidas e felicidades, ficam a incomodar-se com as vidas e as felicidades dos outros, incapazes que são, por si sós, de ser felizes...
Mesmo assim, me condoo dessas pessoas e as ponho em minhas preces, para que, um dia , alcancem a evolução que as conduza a um degrau maior na evolução de suas vidas...

Vida, então, que segue, caros e caras...

Até o próximo post!!!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

AS FALSAS DEMOCRACIAS


      Caros e Caras

Hoje, ao ler a matéria do Yahoo sobre as críticas à forma física da repórter Fernanda Gentil, não pude deixar de me lembrar de uma frase que foi mote em uma discussão em que participei há alguns meses atrás: “sabemos muito bem lutar pela diversidade do ecossistema, mas desleixamos da luta pelo respeito à diversidade humana”
Como chegamos a tanto? Lembro de minhas leituras de adolescente, me debruçando sobre Gilberto Freyre, derrubando o mito da “branquização” do Brasil e levantando a bandeira da mestiçagem como única saída para as mazelas do preconceito e da falsa ideia de eugenia que sempre pautou a cabeça de muita gente na época; nos anos 60, surge o mito da “democracia racial”, onde o Brasil era visto como o país onde não havia preconceito e nem segregação e que se vivia melhor do que o malfadado sul dos EUA, onde os negros tinham lugar segregado nos ônibus, nos bebedouros, banheiros e quaisquer outros espaços de convivência; mas pergunto: será que vivíamos mesmo essa democracia, desse jeito tão desejado?

Hoje, não nos limitamos mais à raça; queremos regular o tipo físico, os padrões comportamentais, a vestimenta, a maneira pela qual nos expressamos e as coisas mais recônditas de nossa intimidade sofrem a patrulha dos que “acham-se árbitros da maneira certa da sociedade”; será que vivemos, realmente, o que defendemos quando falamos de “diversidade” e “sustentabilidade”? As duas, interdependentes, são as inspiradoras do mundo moderno, mas, em muitos aspectos, são apenas cosméticos que mascaram atitudes muito, muito mesquinhas; a tendência atual da sociedade em rotular e em criticar aquilo que não se coaduna com ela, a ponto de atacar de forma virulenta quem não se enquadra, atenta muito contra o verdadeiro espírito democrático, que, em sua mais límpida expressão, tem como pilar exatamente a diversidade e o respeito ao direito de todos de livre escolha e arbítrio sobre suas vidas e opiniões, que vai contra o que mais se faz nesses tempos de padronização, photshop e botox: o culto a uma perfeição impossível e a crueldade com quem está “fora dos padrões”; assim, a democracia – qualquer que seja ela além da política – se reduz à letra e atitude mortas;

As mostras de intolerância – desde impropérios escritos nas redes sociais à violência homófóbica ou religiosa radical – para não falar do extremismo com que se trata quem não é da sua “tribo” mais uma vez derruba o mito das “democracias” e “paraísos de convivência” tão decantados; não sabemos respeitar o nosso próximo, somos violentos à menor perturbação – a morte do surfista Ricardo dos Santos numa discussão banal com um policial, que deveria ser o mais centrado possível numa situação-limite, mostra o quanto somos intolerantes e afeitos à mais pura e simples violência como resolução para tudo; numa interessante contradição, nos condoemos do traficante brasileiro Marco Archer, condenado à morte por um crime que leva tantos e tantos jovens ao abismo, mas não temos o mesmo pudor ao linchar sem provas uma pessoa por simples rumores em redes sociais; que democracia é essa em que vivemos? A descrição do antropólogo Claude Lévy-Strauss do “homem cordial” há muito perdeu o sentido; somos seres cruéis, capazes de tudo para denegrir, derrubar e vilipendiar o que quer que nos atravesse o caminho ou seja diferente; a diversidade virou ilusão; a democracia, falsidade; somos como Narciso, que, no insight sensacional de Caetano Veloso, “acha feio o que não é espelho”;


Assim somos nós, democratas de fancaria numa falsa democracia...

sábado, 11 de outubro de 2014

CRÔNICAS DA CASA ALTA 9 - UMA POESIA



UM BANCO NA PRAÇA

O Banco de praça
É poesia de espera
É conto de encontro
É crônica de movimento
É soneto de lembrança
É Elegia de Saudade
É estado de arte
Da praça
É o que acolhe
Abraça
Consola
É parada
Meditação
Além de tempos...

(Thomé Madeira)