domingo, 30 de agosto de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE IX


Ela acordou antes.

Viu o contorno do corpo dele coberto pelo lençol, a nuca e os cabelos dispersos no travesseiro; ainda se buscava depois da tempestade que sentira; era como se um rio inteiro jorrasse incontrolável por ela, rompendo todas as barreiras que um dia ela impusera a si mesma; era como se uma parte dela se libertasse, se revelasse depois de tanto tempo em uma reclusão auto-imposta...

Tudo passou -lhe nos pensamentos como num filme: a roupa apressadamente tirada, a urgência de quererem-se, que a fez voar, cavalgar, mergulhar num mundo que , até então, nem mesmo a palavra era capaz de sequer abranger; abriu todas as portas dos seu ser pra ele, assim como ele abria as portas dele para ela, numa entrega nova a ambos;

Procurou levantar devagar, para não o despertar; ele dormia um sono forte, mas sua respiração era suave como se apenas dormitasse; foi apenas ela levantar-se por completo que ele a alcançou, abraçando-a ternamente e beijando-lhe a nuca
- Desculpe, não quis te acordar; ia preparar algo para o café; coisas orgânicas, não sei se gostas.
- Claro que sim, alterei minha alimentação há algum tempo, quando tive um caso sério de intoxicação. Desde então me alimento quase exclusivamente de orgânicos.
- Com o que você se intoxicou? Não tem o tipo que pode ser suscetível a isso.
- Bom, antes de trabalhar com relações públicas eu me formei em história e me especializei em arqueologia; trabalhei três anos em sítios arqueológicos e num deles me aconteceu com a comida que era fornecida; depois fui diagnosticado com intoxicação aguda por agrotóxicos, mas sobrevivi, aprendendo a lição de apenas comer orgânicos, sem agrotóxicos.

“Mais uma coisa em comum”, pensou ela enquanto sorria; preparou o chá com ervas e o pão integral, colocando tudo no centro da mesa; ele serviu-se, tomou um gole do chá e reparou o espaço do apartamento com as coisas do pai dela; viu o baú, encostado a um canto, e os maços de cartas meticulosamente arrumados em uma mesinha perto dele.
- Coisas do seu avô? - perguntou de forma hesitante; não queria ser invasivo.
- Sim, são dele, ele era obcecado com a Guerra do Paraguai e colecionava coisas da época; ultimamente andei vasculhando algumas coisas pra ele, mas acho que não consegui ir muito adiante; me sinto mesmo um tanto culpada por não estar mais envolvida.
- Talvez eu pudesse te ajudar – aparteou ele – ainda sou bom em levantar dados de pesquisa e não perdi a mão como historiador; poderia dar uma olhada lá?
- Apenas vou pedir que tenha cuidado, algumas coisas são bem antigas.
- Não se preocupe, seu lidar bem com isso. Você tem luvas descartáveis? Assim posso examinar sem danificar.
-Acho que tenho sim, vou buscá-las.

Ela voltou com uma caixa pequena, de onde ele tirou um par de luvas de borracha, calçando-as cuidadosamente; indo até a varanda, abriu o baú e ficou fascinado com o que viu.
- É, parece que você tem um monte de histórias aqui – disse com uma expressão de admiração e surpresa.
- E eu tenho que te contar por que tenho tudo isso aqui; é uma história longa.
- Não esqueça que gosto de histórias longas – riu enquanto a beijava – temos todo o tempo do mundo, não? Depois de hoje, acho que temos muito ainda pela frente.

Ela riu enquanto o ajudava a abrir o baú; se sentia, pela primeira vez na vida, como se a felicidade lhe tivesse dado asas...

domingo, 23 de agosto de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE VIII



A vibração do celular a acordou num estalo.

Tentou segurá-lo nas mãos, mas ele parecia escapar; deslizou até o canto da cama,mas a ligação já tinha caído na caixa postal; ao verificar, viu que era de Eunice, deixando um recado sobre a reunião de conciliação de contas na segunda-feira; regurgitando a frustração, jogou o celular no recamier e despiu-se, indo para o chuveiro.

Deixou a água cair por cinco longos minutos, sentindo o deslizar pelo corpo; respirou fundo, e, de repente, sentiu-se como aquecer em ondas, um calor que não vinha da água, que parecia conduzi-la a algo que, para ela, parecia perdido, longínquo, apenas como uma lembrança; de início, tentou resistir, mas aquilo era mais forte que ela; rendeu-se e se deixou levar, até que, num átimo, viu-se mais intensa do que jamais fora na vida...

Enxugou-se e vestiu o robe sem pressa; olhando pela janela, viu que o sábado prometia ser nublado, sem muita promessa de melhorar; preparou o desjejum como de hábito, comendo sem muito prestar atenção, até que os acordes de Rhapsody in Blue – o toque que era a marca registrada dela – foram ouvidos de novo; lembrou-se do celular no quarto, chegando antes da chamada cair na caixa postal, só depois notando que a torrada ainda estava em sua mão; atendeu e reconheceu a voz de Walter, que se desculpava por não ter podido atender as ligações, pois estava resolvendo detalhes do apartamento que alugara. Combinaram de se encontrar num restaurante próximo do apartamento dela, onde finalmente conversariam...

Eram emoções desconhecidas para ela.

Jamais tivera interesse ou sequer atração por ninguém , mesmo em seu tempo de estudante; Lisandro, advogado e executor do testamento de seu pai, jamais escondeu a dedicação que sentia por ela, mas jamais tinha dado a ele esperança sequer; sempre fugiu de qualquer tipo de envolvimento, brigando inclusive com a terapeuta, que dizia que ela devia tentar algum relacionamento para “drenar energias”. Agora, ria consigo mesmo de tais lembranças...

Pela primeira vez vestiu-se com ansiedade; escolheu pantalonas de linho bege e uma blusa solta, que caiu confortavelmente; arrumou os cabelos com apuro e viu o tempo; ainda nublado, mas parecia que não iria chover tão cedo; saiu da garagem rápido, surpreendendo o porteiro; chegou ao restaurante primeiro, escolhendo uma mesa de onde podia ver todo o movimento de entrada. Ele chegou cinco minutos depois e não precisou de muito para localizá-la; acenou levemente e se dirigiu a ela num passo contido, como se quisesse decorar cada momento da aproximação; trocaram um aperto de mão tímido, como se estivessem se conhecendo naquele momento.



- Fiquei feliz por você ter vindo – disse ele, meio sem jeito – mais uma vez me desculpe por não ter atendido suas ligações; estava no meio da montagem do apartamento e não ouvi o telefone tocar.

- Não tem problema, pudemos nos falar depois e aqui estamos; estou igualmente feliz por vê-lo de novo.

Conversaram, em um primeiro momento, de amenidades, ele falando da nova empresa em que estava trabalhando , uma agência de publicidade, do apartamento que acabara de se mudar e de alguns hobbies; ela sentia que ele precisava estar mais confortável para começar a falar o que realmente queria; deu a ele o espaço necessário para que ele se sentisse à vontade.

Então, sentindo-se mais confiante, finalmente abriu-se, não numa torrente de palavras, mas num falar pausado, como se quisesse que nada ficasse perdido ou mal-entendido para ela

- Entenda, eu não poderia ficar como estava e onde estava, especialmente por causa do que se passou comigo; não poderia ficar lá porque...

O silêncio dele foi como se nada existisse ali, apenas os dois; ele pigarreou, folgou um pouco o colarinho e continuo no mesmo falar pausado

- Porque eu não poderia ficar sentindo o que eu sentia, e ainda sinto, por você; é mais forte que eu e é algo novo para mim; sempre fui profissional mais que pessoa, e isso me fez recuar e pedir demissão. Achei que jamais poderia falar o que falo agora, por isso tomei coragem e deixei a mensagem no envelope de minha carta de demissão.

Ele segurou a mão dela, apertando-a levemente; ela o encarou e sorriu sem falar nada, mas, por dentro, sentia que tinham mais em comum do que podiam imaginar; ele, igualmente , sempre pusera a carreira e a profissão acima de tudo, negando-se a viver seu lado pessoal em função do trabalho.

Almoçaram como se o tempo não passasse; cada olhar era como se fosse a mais animada das conversas, uma descoberta de sensibilidades que ambos se perguntavam por que não tinha sido descoberta antes. Depois que terminaram, dirigiram-se ao valet para pegar os carros, mas ela, como se não quisesse se despedir, disse: “vamos conversar mais, acho que temos muito ainda por falar”. Ele, tomado de surpresa, apenas assentiu com a cabeça, seguindo-a. Chegando ao prédio dela, esperou enquanto ela entrava na garagem, ficando no estacionamento dos visitantes, a aguardar a liberação da entrada pelo porteiro; este o observou por alguns minutos, até que o interfone tocou e a fechadura do portão deu um estalido seco, avisando-o de que podia entrar.

O elevador parecia subir mais devagar do que aparentava. Ele procurou disfarçar a ansiedade tamborilando os dedos na parede, imaginando que julgamento ela poderia estar fazendo dele; chegou mesmo a pensar que seria como um joguete, apenas diversão, mero passatempo. Dissipou tais pensamentos quando o elevador enfim chegou no andar; ela esperava com a porta aberta, convidando-o a entrar; perguntou se queria alguma coisa, alguma bebida; ele aceitou água, pois ficou com receio do que o álcool pudesse causar, especialmente naquele momento.

Conversaram mais um pouco, ele observando discretamente cada detalhe do apartamento, a mistura de decoração antiga e nova, recantos que pareciam ter vida própria; reparou na estante perto da sacada, os objetos parecendo que há tempos não eram arrumados.

- Aquele recanto era do meu pai – disse ela, como se adivinhasse os pensamentos – moramos juntos até a morte dele. Até então eu era como você, apenas o meu trabalho valia; ele mesmo me dizia que a vida não era apenas dever, mas prazer; não o levei muito a sério, como você pode ver.

- Também fui assim – respondeu ele na mesma fala suave – fui criado por duas tias solteironas que me diziam que a vida não era apenas a cara nos livros e trabalho, a vida tinha de ter arte.

Segurou a mão dela novamente, dessa vez com um pouco mais de firmeza; ela sentiu a energia do toque, o calor do aperto; deixou-se conduzir, enquanto ele a fitava com um fulgor nos olhos que não precisava ser traduzido; lentamente, a mão dela trouxe o rosto dele mais perto e os lábios se colaram devagar, mas não havia mais o que represar; a torrente dos dois rompeu as últimas reservas e não mais a razão, mas a pura vontade os guiava, os lábios como a querer devorar os anos de ausência, de solidão, de todas as coisas intensas há tanto tempo esquecidas...

(Continua)

Créditos das imagens : Google Images

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE VII


Eliza segurava o celular nervosamente; buscou o número na agenda, mas lembrou-se do envelope e do número anotado na borda; repetiu os números no teclado, esperou enquanto o sinal de chamada se repetia até que recebeu o recado de que o celular estava fora de área ou desligado; respirou fundo, no intervalo do pensar se deveria deixar um recado ou não; preferiu não fazê-lo, esperando um pouco para ligar novamente...

Olhou para a cama: lá estavam os maços de cartas; imaginou o que poderia ter acontecido aos correspondentes, pois havia um hiato de datas de um maço de cartas para outro; separou os maços, amarrados por tiras de seda esmaecida, enquanto discava novamente o número dele no celular; procurou mais uma vez ler, uma forma de controlar a ansiedade que crescia cada vez mais...


RECIFE, PROVÍNCIA DE PERNAMBUCO, 12 de Abril de 1863

Cara Irmã

Não me caibo de contentamento ao ver que me formei e já estou em vias de trabalhar com o pai do Mario Fonseca, um de meus colegas de curso; ele disse que tenho potencial para ser um bom advogado, apesar do meu juvenil entusiasmo, que , no dizer dele, pode arruinar as coisas; meu amigo, filho dele, me disse que eu conseguira conquistar o coração do velho, pois “jamais tinha visto o pai dar qualquer elogio, mesmo o mais lacônico”.

Fiquei feliz com a presença de vocês em minha festa de formatura; pela primeira vez vi meu pai esboçar um sorriso, acho que porque ele finalmente acreditava que eu havia me formado; fico pensando que o nosso pai realmente achava que eu estava no caminho certo. Mas isso ficou para trás; agora, tenho de pensar no futuro.

Agora me preocupo apenas com as coisas adiante de mim; podes acreditar ou não, mas nem mesmo a política tem me atraído muito para o cenário dos acontecimentos aqui em Recife; já há alguma agitação por conta dos acontecimentos no Prata, mas nada que mexa muito com o dia-a-dia.

Sei que não tens novas para mim, senão terias me escrito há mais tempo contando cada coisa que tivesse acontecido; mas mesmo assim folgo em receber tua carta, sempre uma razão de felicidade no entediante mundo de regras e normas as quais convivo sempre

Beijo Afetuoso

Do Teu Irmão
Julio



SÃO LUÍS, PROVINCIA DO MARANHÃO, 22 de Junho de 1863

Caro Filho

Te peço perdão por te ter escrito uma missiva tão escassa em palavras; não tinha muito o que relatar a não ser as coisas de praxe, as atribuições da magistratura e os destemperos dos que se veem prejudicados ou esbulhados; por mais incrível que possa parecer, a política parece ter dado uma trégua por aqui, sem mais refregas;

Encontrei por esses dias o estimado amigo Coronel Galdino Póvoas, do Cotonifício Aliança, em Cururupu; recebi dele notícias de que está expandindo os negócios, com a compra de uma fazenda de café no interior da província de São Paulo, mas ao invés de escravos, está negociando a vinda de imigrantes para trabalharem como parceiros ou meeiros, do mesmo jeito que ele fez aqui, mas com os escravos; ele os alforriou a todos e os fez meeiros igualmente.

Aproveito para te passar uma notícia um tanto perturbadora; lembra-se do Alvarez, o merceeiro que morava alpegado à casa de teu amigo Zuza Marcondes? Pois é, ele e o pai do seu amigo tiveram uma altercação que até agora desconheço o motivo; e não é que o doido do Alvarez desafiou o Seu Alfeu Marcondes para um duelo na barra da praia do Caju? Os dois loucos chamaram dois amigos para serem padrinhos e se bateram a fogo de pistola, mas, para o bem de todos, os dois tinham péssima pontaria e não se feriram seriamente.

No mais não há muito a comentar, apenas uma família inglesa que se mudou para a nossa rua recentemente; nosso novo vizinho se chama William Charlton e veio acompanhado da esposa e da filha, uma bela jovem chamada Agnes. Creio serem católicos, pois os vi indo à missa na Igreja da Conceição alguns dias depois de chegarem

Cuide-se bem, meu filho, e dê o melhor de si nesse novo desafio

Que Deus te Abençoe
Abraço do teu pai

Aurélio



SÃO LUÍS, PROVÍNCIA DO MARANHÃO , 28 de junho de 1863

Caro irmão

Agora sim, posso te contar os últimos mexericos da cidade, depois que uma constipação me deixou de cara inchada; o que me salvou foram as mezinhas de Eméria, prestimosa como sempre; nosso pai a tem em alta conta, e eu igualmente; daí posso te escrever.

Nosso pai com certeza já contou o duelo do seu Alvarez com Seu Alfeu Marcondes e da família Charlton, os nossos novos vizinhos; já conheci a filha deles, a bela Agnes, e posso dizer que fiz uma grande amiga; passamos o dia conversando e o pai dela se tornou bom amigo de nosso pai, parece que busca os conselhos dele como juiz, pois o senhor Charlton é representante comercial, negociando as safras de algodão de alguns fazendeiros.

Ontem vi a Marília e o Manduca Zacarias, indo à missa com o filho de colo; ela foi sabida e tratou de agarrá-lo de jeito! Mas imagino que tal mexerico não te interesse tanto quanto um que tenho aqui; os filhos do Major Faria, Lucio e Clara, chegaram de fresco de Paris; não me contive e fui visitá-los; eles me deixaram com água na boca por todas as novidades, especialmente as modas; Clara me pôs a par de tudo, desde os salões elegantes até algumas coisas que me fizeram corar; Lúcio estava mais garboso do que nunca em uniforme naval; ele disse que vai assumir um posto no quartel general do Arsenal de Marinha, pois diplomou-se em engenharia; mas nem pense que ele me fez sequer arfar; sabes o que eu sonho , meu irmão, e não abrirei mão disso;

Espero que as coisas estejam bem por aí; fico escutando os comentários de meu pai e do nosso vizinho senhor Charlton, sobre os negócios na região sul; parece que as coisas estão um tanto difíceis por lá; sabe que não entendo desses assuntos, por isso não irei prolongar-me neles. Na oportunidade mais propícia venha nos visitar, que eu prometo apresentar-te a Agnes.

Beijo afetuoso
Da tua amantíssima irmã
Amália

domingo, 9 de agosto de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE VI



Eliza despertou, pela primeira vez, com uma inquietação que não sabia explicar...

Buscou dentro de si todas as coisas que fizera, tudo o que ocorrera nos dias anteriores desde que retornara de Belém; não gostava de deixar pendências, de qualquer tipo; procurou se lembrar, e foi aí que percebeu o que realmente a inquietava...

Fazia tempo que não sentia os pensamentos se desdobrarem de forma tão intensa; ela controlava cada coisa em sua cabeça como um computador, mas desde que o pai lhe dera essa missão que nada mais parecia sob controle; no trabalho, conseguia sempre a eficiência que exigia, até dela mesma; mas em casa, parecia que não tinha mais o controle de si...

Então, ela se lembrou...

Desde que ele chegara, era como se seu equilíbrio interno fosse deslocado; nada conversaram além do profissional e do trivial, apenas o vira fora do escritório no restaurante, mas havia algo no olhar que parecia dobrar quem o encarasse, algo de desnudar quem o fitasse...

Procurou tirar tais coisas da cabeça, pois teria um dia cheio no escritório, com muitos projetos chegando, especialmente o de restauração de uma casa, cujo dono queria que ela se tornasse moderna sem, contudo, alterar a estrutura original; o que fosse moderno teria de ser bem discreto; procurou colocar tudo em foco, discutindo com a equipe os aspectos da restauração e os termos do contrato com o cliente, pois queria usar esse trabalho como parte de uma campanha para consolidar ainda mais o escritório no mercado.



Ao chegar , percebeu que Eunice tinha uma expressão contrafeita, como se tivesse que transmitir más notícias; recebeu dela a agenda do dia, as pastas de projetos e o bloco de atas da reunião; não teria nada nas próximas três horas, assim poderia se dedicar a examinar os projetos em andamento; o cliente da restauração tinha excelentes conexões e um projeto bem-sucedido seria um algo a mais para o status da firma.

Sentou-se e só então percebeu o envelope sobre a mesa, na caligrafia inclinada e linear que reconheceu ser de Wagner; abriu-o e não conteve a surpresa...


No envelope, estava a carta de demissão dele; alegava motivos pessoais e a decisão era irreversível, pois alguns contratempos o levaram a tomar outra direção, mas que não havia , em momento algum, ressentimento ou mesmo qualquer tipo de desentendimento; apenas algumas contingências que o forçaram a não permanecer onde estava.

Mesmo no emaranhado de coisas que se passavam, conteve o impulso de perguntar a Eunice a razão dele ter se demitido; continuou com os afazeres do dia, recebendo potenciais clientes e resolvendo as pendências que esperavam; dentro de si, porém, o turbilhão de pensamentos parecia querer testar a força de vontade dela, sondando cada ponto em que pudesse desequilibrar; mas ela foi mais forte, esperando o expediente acabar para, assim, procurar saber o que havia acontecido.

Já se preparava para sair quando voltou a atenção para o envelope; pareceu perceber uma leve diferença de tom na aba, como se tivesse algo colado lá; era um envelope autocolante de tamanho médio, com aba simples; ela o pegou e examinou-o, percebendo algo escrito na borda inferior da capa; era um número de telefone, com algo que parecia ser uma frase; reconheceu a caligrafia inclinada e linear escrita a caneta...


A frase dizia : “Me ligue que eu explicarei minhas razões”

Pela primeira vez na vida, dirigiu com pressa, e, ao chegar em casa, não tirou os sapatos ao entrar; jogou a bolsa e o blazer no chão e correu para o quarto; a pilha de cartas estava como ela havia deixado, mas elas teriam que esperar; naquele momento, o celular era o que ela buscava com mais avidez...

(Continua...)

Créditos das ilustrações: Google Images

domingo, 2 de agosto de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE V



SÃO LUIS, PROVÍNCIA DO MARANHÃO, 01 de Maio de 1860

Caro Irmão

Que maravilha receber tua missiva! Estive imaginando o porquê de ficares de parcimônia em me escrever! Pensei que tivesse ficado zangado quando fiz menção de brigar contigo por causa de tua turronice quando fiz troça por causa de Marilia! No final, interesses acabam se encontrando; o Manduca Zacarias desistiu de vez de mim e arrastou a asa para ela, que , ao que se conta, já está cantando aos quatro ventos o noivado! Bom, assim as coisas se aquietam...

Espero que possas escrever de melhor lua, pois quero te ver sorrindo , sem essa de ficares macambuzio a cada tempo; sei que tens afinco em teus estudos e isso não te dá dores de cabeça; o que, então , te deixa assim tão triste? Espero que não seja por minha causa...

Te conto aqui um mexerico que peguei de uma amiga, a Cecília, cujo pai é escrevente do Tribunal da Relação, mas que o papai vai contar em breve; porém, não resisti e te conto de primazia: ele está pra ser nomeado Juiz de Paz, por merecimento!!! Quase o meu coração parou; nosso pai é um homem honrado e reconhecido como advogado, e é mais do que merecida a nomeação, mas não dê a entender que já sabes quando for escrever, viu? Segredo de irmãos...deixe ele te passar a notícia.

Não tenho muito mais o que comentar, apenas conversa de mulher, que tenho certeza não te interessa; não deixe de mandar notícias, meu irmão, e que Deus te guarde..

Beijo Afetuoso em tuas faces
Da tua irmã
Amália


SÃO LUÍS, PROVÍNCIA DO MARANHÃO , 15 de Maio de 1860

Caro Filho

Escrevo para saber novas de ti; não entendi até agora por que as curtas notas que enviaste, como que estivesses sem assunto ou sem vontade de conversar; minha preocupação de pai é sempre no teu bem, jamais o oposto; quero apenas saber se as coisas vão em bons ventos, se os teus estudos estão em ordem e, principalmente, se tens feito tuas coisas direito; sei bem como é isso, já tive meu tempo de moço, com a cabeça cheia de ideias e sonhos e com todo o brio; mas temos de tomar tenência em nossas vidas e tomar nossas decisões para o nosso próprio bem;

Aqui na cidade, ao que parece, a calma reina; Cândido Mendes enfim assumiu a cadeira de deputado geral, mesmo com todo o dinheiro e as ameaças do coronel Izidoro; o mais novo rebuliço é o pipocar dos clubes abolicionistas, onde se misturam estudantes, jornalistas e alguns mais que começam a incomodar; a guarda já fechou alguns desses antros, mas no fechar de um, abrem-se outros; lembra do teu colega Juca Monforte? Aquele biltre fundou um desses valhacoutos e ganha cada vez mais gente para o lado dele! Nem rapou a primeira penugem e já se faz fumaças de líder; acreditas que tem gente que quer que ele seja vereador? Ora vamos! Um insolentezinho desses de assento na Câmara! Ora essa! U’a malta é o que eles são! Até o forro Elesbão, que tua mãe fez o favor de fazer liberto como vontade de testamento, anda a desfeitear todos! Para onde vamos desse jeito?

Bom, meu filho, deixe esse meu destempero de lado e procure dar acerto na vida; aqui fico esperando carta mais longa tua, pois apenas deixas um coração apertado de pai quando tens tanta parcimônia de palavras;

Só para contar a ti, fui nomeado Juiz de Paz do distrito de Anindiba, próximo do arraial da Maioba; assumi o posto há uma semana; novas coisas se revelam para mim, mas tenho certeza que minha fé me guiará no caminho certo. Espero que fiques contente com as boas novas e mande notícias logo.

Deus Te Guarde, Meu Filho
Abraço Afetuoso e minhas preces
Teu Pai 

Aurélio


RECIFE, PROVINCIA DE PERNAMBUCO, 06 de junho de 1860

Caro Pai

Por primeiro, aceite minhas escusas por delongar a resposta da carta que me enviaste mês passado; a razão da demora era porque eu estava acamado com uma forte constipação, que acabou quase virando pneumonia; tive de enfrentar aqueles terríveis sanapismos de mostarda, ventosas e  só não me sangraram porque me recuperei logo; assim, esta é uma carta para compensar as notas curtas que mandei; não queria apoquentá-lo com coisas que achei que fossem tolas, mas no final quase me abateram.

Fiquei muito feliz e orgulhoso com a sua nomeação a Juiz de Paz; o senhor indubitavelmente merece o posto, pois sempre foi um advogado de amplo domínio da prática e nada mais natural que o senhor fosse nomeado; me causaria estranheza se não fosse.

A situação é a mesma aqui, pai, mas com tintas mais fortes; há quem diga que alguns clubes abolicionistas estão organizando expedições para libertar escravos de fazendas e conduzi-los a quilombos ou mesmo para refúgios fora da província; a guarda aqui tenta recapturá-los sem muito sucesso.

Um colega aqui, o Jonas Almada, chegou recentemente da América. Tinha ido estudar leis, mas voltou porque o país está em estado de guerra civil, causada pela discussão sobre a escravidão nos territórios do sul; pois, segundo o que ele me disse, o sul está em guerra com o norte por essa razão; ouvi o relato dele e fiquei pensando: “tomara que não cheguemos a ponto de guerrear por escravos”

Continuo os estudos com afinco; quando estava acamado os colegas me ajudavam com os compêndios na cama; não fiquei atrás em nada, nem mesmo em direito romano, que, confesso, não ia muito bem; mas não levei bomba em nenhuma cadeira, isso eu posso garantir.

Não tenho mais para contar, meu pai, a não ser que os exames para o terceiro ano estão chegando e terei de me preparar bem, espero passar com boas notas.

Algo mais: minha próxima carta virá por um de meus amigos daqui, um paraense chamado Antônio Ribeira; ele deve resolver algumas coisas pessoais em Belém e passará por aí; se puderem fazer algo por ele, tenho certeza que ficará muito grato 

Recomendações e suas preces
Do seu filho
Júlio


RECIFE, PROVÍNCIA DE PERNAMBUCO, 13 de Junho de 1860

Cara Irmã

Imagino que o nosso pai já deva ter contado a razão de eu me demorar tanto a escrever; não queria imaginar-te arfando pelos cantos em angústias e inquietudes; me feriria muito saber que ficaste assim; por isso não foi por turronice ou parcimônia, mas porque o teu irmão estava acamado e não queria te preocupar.

Com que então o Manduca Zacarias se arranjou com a Marília? Que bem arranjados fiquem; não me apoquenta qualquer coisa vinda deles; talvez, mesmo, bem se mereçam no fim das contas;

Me contes, recebeu o livro do Joaquim Manuel de Macedo que te enviei? Ele está a ser a sensação da cidade; recebi o exemplar do Rio de Janeiro e li-o de um fôlego só; é bom, mas acho que as moçoilas vão apreciá-lo mais; aqui os rapazes pelejam para memorizar poesia para fazer firula, mas fico a ver o ridículo disso; não me tome como sem sentimentos, mas é que tais coisas não me apetecem no presente momento. Espero que tudo esteja às boas e que apenas alvíssaras cheguem à nossa casa. Mande minhas recomendações aos amigos daí se os encontrar em tempo.

Terei mais o que contar na próxima carta; agora estou melhor, poderei escrever mais e contar mais coisas daqui; fique com o meu amor fraterno e minhas preces

Beijo afetuoso do teu irmão
Que te ama extremosamente
Júlio

segunda-feira, 27 de julho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE IV


Eliza pousou as cartas na cama cuidadosamente; não queria que elas de desfizessem por serem mal manuseadas; mas a leitura deu mais uma pista de Antônio Ribeira que começou a intrigá-la; mas queria dedicar-se a essas divagações com calma; precisava contatar a equipe e mais do que nunca inteirar-se do que se passava no escritório. 



Chegou como de costume, recebendo a agenda do dia das mãos de Eunice, a prestativa secretária; tinha duas reuniões, uma às 14 horas e outra às 17; antes disso passou a vista no briefing geral de atividades e chamou a equipe para uma conversa informal sobre os projetos em andamento; todos estavam lá, curiosos para saber do projeto em Belém; ela respondeu laconicamente, dizendo apenas que “o negócio não foi em frente”; foi quando notou, sentado ao lado de Marcela, a estagiária, um rosto novo: cabelos grisalhos curtos, olhos negros, óculos de aro dourado encimados por sobrancelhas retas; segurava a caneta displicentemente na mão direita, tamborilando levemente.
- Eliza, esse é Walter, nosso novo relações públicas, você o tinha aprovado há alguns meses atrás – apresentou-o Marcela – você tinha dito que a entrevista não era necessária porque você confiava no currículo dele.
- Eu lembro bem; muito obrigado, Marcela. Seja então bem-vindo, Walter; espero que tenha sucesso em seu trabalho; mas vamos pôr as coisas em dia, não? – disse, num sorriso.

Walter assentiu com a cabeça e juntou-se à conversa.

Ela estava satisfeita com os resultados do grupo. Na ausência dela vários bons negócios tinham sido fechados, o que era muito positivo e consolidava ainda mais a imagem do escritório como um dos mais bem-cotados do mercado; vária s vezes foi sondada para adquirir capital acionário, mas polidamente declinara, preferindo investimentos mais sólidos e menos arriscados.

Saiu do escritório por volta das oito e meia da noite; jantou no lugar de costume, com o garçom levando -a para a mesa favorita, no canto do restaurante onde ela pudesse ver o movimento de vai e vem dos clientes; sentir o movimento dos lugares a relaxava, antes de voltar para casa. Demorou-se um pouco mais, saboreando lentamente a torta de trufas que tinha vindo de sobremesa; levantou os olhos para ver o movimento e deu de cara com o novo relações públicas, que entrara devagar e escolhera uma das mesas perto da porta. Notou a economia de gestos ao chamar o garçom e fazer o pedido, ao mesmo tempo que, ao notar a presença dela, acenou; Eliza respondeu ao aceno ao mesmo tempo em que pedia a conta; tinha pressa em chegar em casa e ler o restante das cartas que ainda repousavam na cama; acenou novamente ao passar pela mesa onde Walter estava, chamando o manobrista para trazer o carro; uma vez nele, saiu devagar e tomou o caminho de volta para casa.


Os sapatos já estavam nas mãos dela quando girou a fechadura, entrou em casa, deixou o blazer sobre o sofá e sentou para relaxar; respirou fundo e deixou-se levar pelo conforto, espreguiçando-se devagar e deixando os pensamentos a conduzirem; de repente, se viu relembrando o momento em que Walter entrara no restaurante, os gestos contidos, o modo espontâneo de acenar; surpreendeu-se ao sentir aquilo, pois já há muito deixara de buscar atratividade em qualquer pessoa; quis conter os pensamentos, mas algo dentro dela fez com que deixasse o pensamento fluir...

Mas logo os olhos dela se voltaram para o quarto e para as cartas espalhadas na cama; deixou esse novo pensamento, ao menos por enquanto, de lado, e voltou a tenção pra elas; não as leria agora, elas esperariam mais um dia...

Buscou o sono, mas ele demorou a vir...

( Continua...)


domingo, 19 de julho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE III



SÃO LUÍS, PROVÍNCIA DO MARANHÃO, 22 de Maio de 1858

"Meu Irmão

Deito estas linhas por razão de falar-te apenas do ameno, sem razão especial; espero que esta não te encontre em contratempos nem em outra qualquer tribulação; sei que teus estudos são prioridade e que os reclamos e amuos de tua irmã podem não ser considerados, mas te escrevo mesmo assim, pois somente em ti posso confiar, mesmo distante de mim.

A cidade ainda está debaixo de chuva torrencial; parece que os céus estão desabando!! Sei que já devia estar acostumada ao aguaceiro desse tempo, mas não consigo; as águas sempre me pegam de inopino, me dando susto atrás de susto; ao contrário de todos, a canícula me conforta, o sol forte me dá um alento que aos outros não chega.

Aqui não há muitas novas; apenas o Manduca Zacarias, com quem ficaste de cizânia por causa dos olhares de Marília, cansou-se dela e agora me faz a corte; imagine que os galanteios dele se limitam a dizer-me quão segura será minha vida se der a ele a honra de esposá-lo; diz ele que basta que eu peça que todas as portas se abrem, que todos os meus desejos serão atendidos, pois logo ele sucederá o pai como chefe da Casa Aviadora e uma carreira de vereador se abre para ele; Imagine! Nem uma palavra cortês, nenhum poema inspirado! Apenas uma verborragia de cifras e vantagens! Escuto-o apenas para distrair-me, pois ninguém conseguiu ainda tocar-me o coração, quanto mais esse declamador de números!

Nosso pai está em viagem, desta vez resolvendo pendências na vila de Barra do Corda, devendo voltar em mais cinco dias; na ausência dele, eu tenho de dar conta dos recados e mensagens e todos os cantos, anotar tudo e organizar a caderneta de assentos, mantendo-a em ordem até que chegue;

Te desejando sorte e bons estudos
Deus te guarde
Beijo-te amorosamente nas faces
Tua Irmã
Amália"



RECIFE, PROVÍNCIA DE PERNAMBUCO, 01 de junho de 1858

"Cara Irmã

Desculpe não te deitar linhas tão logo, mas os estudos aqui me consomem por demais e o tempo me é mais verdugo que amigo; eu fico triste por não poder escrever no tempo que gostaria, mas somente agora posso fazê-lo, já te pedindo mil perdões por te escrever com tanta pressa assim, mas te prometo uma carta com mais assunto da próxima vez;

Poderia bem dizer que o Manduca Zacarias merece a sova de cadeira que dás nele, mas, se me permites um conselho, deixe ele em paz; não mereces um sujeito que não te inspira, nem mesmo penas; tenho certeza de que alguém fará teu coração saltar; no momento não tenho tempo pra tais veleidades; os estudos são a única amante que tenho e tão cedo não sei se meu coração desperta...

Diga ao nosso pai que escreverei com mais presteza daqui a mais ou menos cinco dias; não tenho igualmente muito a contar, mas logo darei mais notícias

Beijo do teu Irmão

Júlio"



RECIFE, PROVÍNCIA DE PERNAMBUCO, 19 de Junho de 1858

"Caro Pai,

Espero que estas linhas o encontrem em paz e harmonia e que seus negócios em Barra do Corda tenho sido resolvidos a contento; aqui me divido entre os estudos e o observar da agitação politica na cidade, com os abolicionistas e republicanos gritando cada vez mais alto, e começando a incomodar o governo da província; colegas de curso inauguraram um clube abolicionista e queriam que eu me filiasse mas declinei, dizendo que não tinha estômago pra tais patuscadas; melhor seguir seu conselho e continuar meu caminho, mas é difícil ficar sem tomar partido por alguma coisa.

Pela primeira vez tenho um grande amigo por aqui; trata-se de Antônio Ribeira, vindo da província do Pará; de conversa boa e humor muito melhor, tenho-o ajudado a se adaptar às coisas aqui do Recife, mas vejo que não terei muita dificuldade, pois o mesmo não teve empecilhos em já aviar-se em tudo, dando conta bem rápido das coisas; pelo menos posso conversar sem ser troçado pelos outros por causa da minha neutralidade em relação aos republicanos e abolicionistas.

As notícias mais recentes que recebi vieram de Nestinho Menezes, cujo pai dirige um escritório comercial na capital da Provincia de São Pedro do rio Grande do Sul e possui estâncias de cria de gado e ovelhas na fronteira; as coisas não serenaram por lá depois de se guerrear uruguaios e argentinos; ele diz que continuam os ataques e roubos e que o exército imperial não tem nem efetivo nem moral pra lutar, a despeito do comandante de fronteira, general Osório, ser homem de escol e de grande coragem pessoal; a saída foi armar os peões e dar ordem de atirar sem misericórdia em qualquer um sem intenção declarada; assim estão as coisas nesse nosso país.

Espero que tudo esteja melhor por aí
Amor e Respeito
Sua Bênção
Seu filho
Júlio"


SÃO LUIS, PROVÍNCIA DO MARANHÃO, 27 de Junho de 1858

"Caro Filho

O litígio em Barra do Corda se resolveu bem, sem mais contingências ; é como sempre digo: uma conversa civilizada sempre leva as coisas a bom termo e sem consequência séria para nenhum dos lados; assim se constroem a civilidade e os bons costumes.

As coisas não andam bem aqui em São Luis; as eleições estão para breve, mas a violência e a intimidação de eleitores continuam sem freio e sem uma autoridade competente, pois os juízes estão todos nas mãos do Coronel Izidoro Jansen Pereira, comprados pela mãe dele, essa sim a dona do dinheiro e do poder; acreditas que um sobrinho dela veio até mim para dizer que o meu apoio seria um grande incentivo à minha carreira, possivelmente com uma nomeação de magistrado? Respondi-lhe polidamente que iria levar muito a sério e daria em tempo certo a minha decisão; pense no descaramento! Principalmente depois que o adversário político do Coronel, o grande Candido Mendes, foi atacado na saída do Teatro União, após a apresentação de um drama lírico de nosso amigo Gonçalves Dias, e brutalmente espancado até quase morrer? Não se fala em outra coisa na cidade. De resto, todos estão bem; sua irmã manda recomendações e beijos e está preocupada com você; eu, de minha parte, só posso te desejar sucesso e perseverança nos estudos e que tenhas bom juízo na condução dos mesmos evitando aventuras sem sentido e pandegarias.

Sem mais novas e te desejando sucesso e felicidades
Abraço Paternal e recomendações
Do Teu Pai
Aurélio"


(Continua...)

domingo, 12 de julho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO - PARTE II


SÃO LUIS, MARANHÃO, 12 Fevereiro de 1858

“Caro Irmão

Mal me contive com as novas; então foste aprovado nos exames para a Faculdade de Direito! Nosso pai vai ficar muito satisfeito quando ler a missiva que mandaste; ele ainda está no interior, resolvendo um litigio em Caxias; lembras do Martim Pescada? Pois é, ele se meteu em encrenca por causa daquela rixa com o Jonas Louzeiro e ao que parece tudo não terminou em coisa pior por causa da firmeza do nosso pai. Tomei a liberdade de responder antes mesmo de contar a ele.

Aqui as coisas vão no de sempre; lembras da Carmen, a filha do deputado Sobreira? Ela casou com o Davi Moura, teu colega no Liceu e vai de mudas para a Corte; ele é oficial de Marinha e vai assumir posto no ministério; conversei com ela uns dias atrás e ela está mais do que animada; é sempre bom quando as coisas andam do jeito que queremos, não é? Quem sempre anda a perguntar por ti é a Marília, filha do Comendador Almeida; ela veio me dizer que ficou com o coração partido ao ter-te decidido ir ao Recife para te preparares para a faculdade; irmão, que prometeste a ela? Espero que ela não tenha sido mais uma a cair na tua conversa de maganão.

Assim mesmo, fiquei contente com teu sucesso; vais longe, nosso pai sempre disse isso; espero igualmente que a faculdade e a tomada de rumo te tirem da cabeças as idéias malucas de república e abolição que andaste alardeando por aqui; deixe isso por aí e tome emenda! Deixe os malucos e os poetas darem caso disso.

Não tenho muito mais para falar, o dia está cinza e uma chuva vem por logo; espero de coração que os estudos te transformem num homem, e te livrem desses devaneios malucos; te dediques com afinco às tuas responsabilidades e vais conseguir tudo o que queres.

Sinceramente
Beijo-te a face
Tua irmã
Amália"



SÃO LUÍS, MARANHÃO, 16 de Março de 1858

“Júlio, Meu Filho

Não imaginas quão contente e orgulhoso fiquei ao saber das novas de tua aprovação! Tua irmã veio me contar assim que cheguei, mas o estafeta já tinha me entregue a tua carta e já começara um pouco a ler quando Amália me falou do assunto. Folgo em saber que já estás dando um rumo à tua vida; confesso que fiquei preocupado com as tuas diatribes há algum tempo; tua mãe – que Deus a tenha – ficaria aflita em saber que te envolveste com a sorte de lunáticos que apregoa aquelas ideias absurdas. Agora uma nova responsabilidade te espera, e rezo a Deus que saibas te desincumbir dela com galhardia e orgulhe nossa família.

As coisas aqui andam agitadas; a campanha está cada vez mais acirrada e mesmo violenta; os capoeiristas do coronel Izidoro, filho de Donana Jansen, ameaçam eleitores e impõem um terror que nunca tinha visto na província; o presidente, de mãos atadas, nada faz; viemos um caos sem precedente aqui; a disputa política tem mesmo separado famílias e amigos veem uns aos outros pelas costas; com dinheiro à larga, o coronel Izidoro praticamente manda na província.

Mas não escrevi para lamuriar nem para dizer-te coisas tristes; ao contrário, cheio de orgulho, estas linhas são para exortar-te a não te desviares de teu caminho por nada, nem mesmo por devaneios que podes achar certos, mas que, na verdade só levam a perder-te; cumpre teu caminho nos estudos e verás que podes ir muito longe.

Tua irmã manda igualmente lembranças e esperamos a tua vinda no recesso, para pormos a conversa em dia; lembra-te bem deste conselho: conquiste sempre todas as metas, mesmo que elas te pareçam titânicas; só assim saberás o valor do que tens nas mãos.

Que Deus te Abençoe

Abraço Afetuoso

Do teu Pai

Aurélio”



RECIFE, PERNAMBUCO, 24 de Abril de 1858

"Caros Pai e Irmã

Escrevo estas linhas para aquietar o coração de vocês dois, para que não fiquem mais atribulados a respeito de minha situação aqui; em verdade, estou descobrindo sempre mais razões para desenvolver meus estudos com cada vez mais afinco, como sei que gostariam que eu fizesse; assim, eu vos peço que não se apoquentem, pois meu escopo é exatamente me tornar um bom advogado e pelejar pelos ideais que realmente valem a pena; sei que posso ter decepcionado a vocês com meus arroubos de radicalismo, mas peço aos dois que não se enervem com isso.

A vida em Recife é completamente diferente da de São Luis; aqui há um movimento muito grande de pessoas, tanto brasileiras quanto estrangeiras, pois o porto é um importante ponto de concentração de várias nacionalidades, o que contribui para transformar essa parte da cidade numa verdadeira Babel; fiz amizade com um dos assistentes de Mr. Hobart, representante comercial, cujo escritório dista poucas casas de onde moro; um rapaz chamado Philip, inglês de há pouco chegado; fizemos uma troca; ele me ensinaria inglês e eu o ensinaria português, e, embora esforçado, ele ainda sente muitas dificuldades enquanto eu, pelo menos no que ele disse, estou fazendo alguns progressos.

Posso imaginar como andam as coisas por aí, meu pai; aqui em Recife as coisas andam igualmente agitadas, mas com o coro dos republicanos, mesmo ainda em pequena monta, mas começam a incomodar o governo provincial, e mesmo dentro da faculdade já há uma pequena célula; sei que esposei tais ideias há tempos, mas acredito que se houverem mudanças, elas serão resultado de uma maioria, não de grupelhos interessados somente em se beneficiar de benesses e privilégios.

Irmã, diga a Marilia que não sei por que ela se diz de coração partido; eu é que deveria ficar, ao saber dela trocando olhares com o Manduca Zacarias na saída da missa no Carmo; ela, sim, é que se dividiu entre mim e ele; mas deixe, tenho coisas muito mais importantes para me preocupar no momento; tenho feito progressos na faculdade, mas não é fácil como imaginei; quase me esfolo vivo pra acompanhar todas as matérias, especialmente a que diz respeito aos estatutos da constituição e o mais recente Código Comercial; sorte não ter de me especializar nisto; meu escopo é o de ingressar nos procuradores da Coroa, uma carreira de grandes possibilidades; por isso tenho de exceder a expectativa e ter as melhores notas.

Sem muito pra falar mais, me despeço aqui, esperando que esta chegue em paz e bem a vocês; envio o meu amor e os meus respeitos

Um abraço apertado do irmão e do filho

Júlio”

sábado, 11 de julho de 2015

ESCRITOS AVULSOS - A CIVILIDADE É APENAS UMA ROUPA


Simples assim.

É desse jeito que a sociedade moderna coloca o conceito de civilidade; nos tempos do politicamente (in)correto, é apenas uma vestimenta que usamos de acordo com a ocasião, para não passarmos como dissociados ou mesmo marginais; na verdade, é o disfarce mais torpe para o que temos de mais sórdido: a selvageria e a intolerância.

Três exemplos são os mais marcantes: o assassinato de um homem, não somente por sua orientação sexual, mas por sua opção religiosa; o linchamento de um assaltante por uma população irada e a pesquisa recente de que os homens acham que, muitas vezes, uma mulher “pede pra ser estuprada”, porque faz a opção de usar um vestuário considerado por eles “ousado” ou “provocante”, levantam mais uma vez o debate sobre até onde somos mesmo a “democracia social, racial, religiosa e sexual” tão decantada pelos intelectuais.

Adriano, candomblecista, homossexual assumido, produtor cultural e dançarino, ganha as manchetes e a linha de investigação aponta o caso como “intolerância sexual e religiosa”. O que move tal coisa? Hoje beiramos por um fundamentalismo religioso tão irado que não poupou nem mesmo uma menina de 11 anos de idade, igual,mente candomblecista, apedrejada por elementos que se diziam “religiosos” e fizeram isso em nome de sua fé; que fé é essa que faz as pessoas cometerem barbaridades simplesmente porque outras têm um credo e um jeito de ser diferente?

Cleidenilson, 29 anos, foi capturado por populares enquanto tentava assaltar uma loja num bairro da cidade de São Luis-MA; os populares irados o amarraram a um poste e, depois de muitos socos, chutes, pedradas e garrafadas, ele não resistiu e morreu devido a uma hemorragia interna ( leia AQUI a matéria); poderia se considerar tal ato uma explosão da raiva de uma população cansada de ser roubada – falo de todos os tipos de roubo, do pequeno ao grande criminoso (pra bom entendedor meia palavra basta) – de ser violada em seu patrimônio; mas esperem, somos uma sociedade civil organizada, com regras(?) e um sistema judicial e penitenciário que, mesmo mal, existe e funciona. Com que autoridade somos juiz, júri e executor? Não somos diferentes dos russos no séc. XIX e seus pogroms (massacres) contra os judeus e os nazistas, que fizeram o mesmo. Não somos diferentes dos senhores feudais, donos da vida e da morte de seus servos. Mesmo “Justificada”, essa raiva nos dá essa autoridade? Que sabemos da vida do outro para nos arvorarmos de julgadores? Lembro-me das palavras de Jesus Cristo, ele mesmo mal interpretado e torpemente usado, quando falava aos que se arvoravam de moralistas: “antes tira a trave do teu olho, para poder tirar o galho no olho do teu irmão”.

O que nos leva ao terceiro exemplo: uma revista de grande circulação publica uma reportagem que constata um fato dos mais aterradores em pleno séc. XXI: por mais que a tecnologia e o progresso apregoem seu avanço, nosso pensamento acerca das relações interpessoais ainda é, sendo otimistas, baseado em conceitos bem medievais e canhestramente machistas; essa mesma revista mostrou o conceito da mulher que “pede pra ser estuprada”(leia aqui), porque simplesmente opta ou por vestir uma roupa mais ousada, ou por decidir usar uma maquiagem mais forte ou um comprimento de roupa que seja considerado “imoral”; assim, qualquer ataque tem a justificativa de que a mulher “pediu” para ser atacada, porque usava roupa provocante, ou insinuou algo pela mesma razão.

A mulher lutou arduamente para conquistar seu espaço na sociedade, deixando de ser mera peça, mero adereço sexo-reprodutivo, burro de carga e outras coisas degradantes pra se tornar personagem atuante, força de mudança e fazendo a diferença na história de vários países; lutou pelo mais ínfimo de seus direitos com a mesma coragem e determinação; como é que, no alvorecer do terceiro milênio, a relação com as mulheres – e, por conseguinte, o respeito – ainda segue um atroz e bestial – para ser até brando – retrocesso?

Então, aí vestimos a nossa “roupa de civilidade”, lamentamos, damos declarações de pesar, falamos mil palavras que, no fundo, sequer acreditamos; somos selvagens cruéis e torpes, usando um disfarce mais torpe ainda; uma civilidade que, como toda roupa, só usamos em ocasião adequada; longe de ser parte de nós, ela é apenas o que temos para ocultar nossa faceta mais cruel e impiedosa, fazendo-nos palatáveis ao gosto geral; nossas mãos podem não ter matado nem Adriano nem Cleidenilson, ou mesmo nem sequer tenhamos encostado em nenhuma mulher que tenha se insinuado – ao menos na crença dos que defendem esse ponto de vista – mas seremos coniventes se, como cidadãos e pessoas de bem, ficarmos de braços cruzados enquanto pessoas fazem justiça com as próprias mãos e a religião, a raça, a cor e a orientação sexual continuem a ser motivo de segregação e exclusão da cidadania; não seremos muito diferentes da situação a que o Dr. Martin Luther King dizia: “Para que o Mal triunfe somente é necessário que os bons não façam nada”; mas a grande contradição é exatamente essa; enquanto a civilidade for apenas a roupa de ocasião que vestimos e não se tornar verdadeiramente parte de nós, seremos apenas selvagens brutais e ignorantes disfarçados de cidadãos.

domingo, 5 de julho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO



Eliza chegou em casa em uma madrugada chuvosa.

Perdera a conexão em Brasília, tendo sido obrigada a ficar na capital federal mais tempo do que esperava; por sorte, já quase meia-noite conseguiu um encaixe de voos que a fez chegar no Aeroporto Internacional do Galeão por volta das três da manhã.



Não resistiu ao cansaço; largou as malas na sala e mal teve tempo de tirar a roupa, mergulhando nua na cama, e assim ficou até as nove da manhã.

Acordou com o som da vibração do celular antes do toque; atendeu e era Lisandro, querendo saber notícias dela; atendeu um tanto contrafeita, mas tinha prometido dar notícias assim que estivesse mais a par das coisas que o pai a incumbira; marcaram um almoço para daí a dois dias; teria tempo, então, de ver a caixa que Albertina tinha confiado a ela.

Tomou um banho demorado, deixando a água cair como massagem, recuperando cada parte de si do cansaço da viagem. O calor da água a revigorava, fazia-a se sentir renovada, com energia pra novos projetos, novas perspectivas, levantava-a para a vida.

Verificou o e-mail, respondendo o que podia em prioridade e deixou algumas coisas para depois; avisara que só iria reencontrar a equipe em quatro dias, pois precisava resolver alguns assuntos pendentes. Somente depois é que prestou atenção à bagagem ainda na sala; separou o que seria lavado do que não tinha sido vestido, mas depois decidiu lavar tudo; tirou um dos sacos da lavanderia do armário da cozinha, preencheu o rol e arrumou tudo para, mais tarde, deixar na portaria do prédio para o pessoal que viria buscar.

Separou com carinho a caixa que Albertina dera, abrindo devagar e cuidadosamente a tampa; tinha receio de rasgar o papelão, mas viu que podia confiar nas palavras da velha senhora, quando disse que o material era resistente. Dentro, um pacote de fotos, recibos velhos e outros documentos. Espalhou tudo na cama, separou documentos de fotos, sem reparar muito em cada grupo; só depois concentrou sua atenção em cada um...




Os documentos revelaram recibos do pagamento dos funerais e exéquias de Antônio Ribeira, desde a câmara ardente até o caixão, debitados a Silvano; antigos cadernos de assentos, com registro de soldos e adiantamentos, numa grafia inclinada e elegante, datados de 1866 a 1872; e, finalmente, uma carta de Silvano a Albertina, informando-a da morte do pai e tomando a responsabilidade dos funerais. 






Mas foi nas fotos que a atenção dela mais se demorou; algumas eram bem antigas, com um tipo de moldura metálica que parecia bem gasta pelo tempo, azinhavrada e fosca; outras eram de um tempo mais adiante, fotos de um casamento, depois de uma família com pai, mãe e duas filhas; Elisa reconheceu rapidamente o avô de Albertina; estavam vestidos como se fossem a um evento social, possivelmente uma festa de família ou mesmo uma missa; lembrou-se da expressão da mãe quando dizia que, ao se arrumar demais, ela estava a usar a “roupa da missa”; viu então fotos mais recentes e reconheceu seu pai, de terno e chapéu inclinado de feltro, ao lado de um senhor de barba branca, numa cama de hospital; no verso da foto, apenas uma menção ao local e à data: “Asilo de Mendicidade, São Luiz, 1955”


Examinou cada uma das fotos com cuidado, temendo estragar o papel tão sensível; numa viu um jovem com uniforme completo, como se estivesse prestes a embarcar para a frente de batalha; em outra viu um soldado armado de lança, escoltando um outro que parecia ser prisioneiro; no verso, apenas datas, entre 1867 e 1870; mas eram apenas algo superficial, que encobria algo mais...



Retirou tudo e descobriu, no fundo, um embrulho de veludo vermelho, preso por uma fita que parecia ter sido da mesma cor, mas que, agora, se esmaecera completamente; desatou com cuidado a laçada, mas, mesmo assim, a fita tanto tempo não tocada desmanchou-se como se virasse pó; desembrulhou receosa o envoltório de veludo, revelando um maço de cartas, amarradas desta vez com um laço de fita branca, de onde pendia um pingente com um coração, uma âncora e uma cruz; lembrou-se da mãe usar um pingente igual, que representava as três grandes virtudes: Fé, Esperança e Caridade; desatou com o mesmo cuidado o laço branco, separando a fita e o pingente e, desdobrando as cartas, começou a ler...


(Continua...)

Crédito das fotos: Google Images