sábado, 28 de fevereiro de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VAZIO

Ela chegou do mesmo jeito de sempre.
Com os sapatos na ponta dos dedos, girou a chave na porta ao mesmo tempo que deixava cair o guarda-chuva no balde de tela na entrada do apartamento; deixou a bolsa na poltrona perto da porta, os sapatos no lado da mesinha do telefone e sentou-se no sofá, esticando as pernas. Respirou fundo...
Só então, se deu conta de uma coisa. Ele não estava lá.
Tinha acabado de chegar do funeral dele; os poucos e fiéis amigos carregaram o caixão para a sepultura simples, um jazigo comprado há muito, onde repousavam a mulher e a mãe, a primeira ocupante; o pai, na preferência de ser cremado, preferiu que suas cinzas fossem sepultadas com a companheira; caía uma chuva fina, que ele apreciava de ficar horas olhando pela janela, notando cada passante apressado , mesmo da altura do 16º Andar; um dos amigos recitou uma elegia simples, depois de uma silenciosa meditação; o caixão foi colocado no lóculo e este, finalmente, lacrado;
Ela não chorou e nem choraria agora; lembrou do pai repetindo a frase de Oswaldo Cruz: “a morte é um fenômeno biológico tão natural e tão inevitável, que acho desnecessário e fútil frisá-la com cerimônias especiais”; mas uma última vontade do pai ela não cumpriu; ele, que desejava ser apenas amortalhado, foi sepultado com um terno sob medida, sapatos impecáveis e bem arrumados; “se ele tinha de ir ao encontro do Criador”, pensou ela, “deve ir bem vestido”. Permitiu-se um riso leve, antes de entrar no chuveiro...
Saiu do banho como se largasse um fardo; enxugou-se, vestiu um vestido leve e pôs-se a esquadrinhar o apartamento; precisaria arrumar muitas coisas, arquivar as anotações e cadernos do pai, ajeitar documentos, resolver pendências...
Documentos...
Lembrou-se do blazer largado no sofá; Lisandro, advogado do pai por anos, desde que saíra das barbas da faculdade, entregou a ela um envelope, onde, na letra rebuscada do pai, estava escrito apenas: “leia depois do meu enterro”; pegou o envelope do bolso, foi para o quarto e começou a ler...
“Cara Filha Eliza
         No momento em que corres os olhos sobre estas linhas, eu com certeza já devo estar morto e o Lisandro, com aquela cara solene de papa-defuntos (que ele não nos ouça) entregou o envelope pra você; não preciso te dizer coisas que já sabes; O próprio Lisandro vai se encarregar disso; o que tenho pra te falar é outra coisa...
         Tu, mais do que ninguém, sabes do que foi a paixão da minha vida; desde quando conversei pela primeira vez contigo sobre o assunto, depois de todas as tempestades da tua vida, vi que entendias e sabias do meu interesse mais do que a sua mãe – que Deus a tenha – e que igualmente sabias que aquilo era o móvel de algo mais que um simples interesse por história; para mim era o resgate de gente que, se pudesse ser ouvida, falaria de um tempo que conhecemos tão pouco; até quando conheci o Antônio Ribeira, em meu tempo de juventude, senti que era algo mais que me movia, como se um mentor oculto apenas me dissesse: “conte a história deles”; consegui juntar peças , mas nada consegui contar; assim, o que te peço é que destine a alguém que o possa fazer, para que tudo o que busquei nesse tempo todo em minha vida não morra junto comigo; não te obrigarei que o faças; podes simplesmente passar ao Lisandro; dei instruções a ele para que proceda tudo e acompanhe o desenrolar dos acontecimentos; esse pedaço da história é precioso demais pra ser esquecido, importante demais para permanecer no fundo de uma gaveta; te peço que não deixe que sejam esquecidos; lutei demais para emergir tudo isso, mas sempre encontrei portas fechadas, senões, recusas e desculpas esfarrapadas; sinceramente espero que consigas ter êxito onde eu não consegui...
Tente ser forte; sempre foste; me alimentei da tua força em segredo, quando em muitos momentos quase esmoreci; assim, eu confio em ti para que possas fazer com que essas histórias sejam, finalmente, contadas...
Do Teu Pai
Silvano Andeiro Thomaz”

Ela deixou a carta sobre a cama, respirou fundo e meditou; lembrava das constantes viagens do pai, sempre em busca de histórias sobre sua grande paixão, A Guerra do Paraguai; lembrava da mãe dar de ombros, a dizer: “sandices do teu pai” mas não protestava nem fazia caso; ainda estudante de arquitetura, lembrava que por vezes o pai mergulhava em silêncios longos, onde parecia se apartar do mundo e mesmo da consciência, guardado que estava em sua reclusão; seu local nessa hora era o pequeno espaço próximo ao janelão que dava pra rua, onde ele gostava, nos dias de chuva, ver os passantes apressados procurando se proteger; nesse local, arrumaram uma estante e uma cadeira preguiçosa que dava ao local um ar de Sancta Santorum; nem Ademilde, a fiel faxineira que servia a casa, mexia naquele local; era onde ele fazia seu templo, seu refúgio, seus segredos...
Ela ficou pensativa por um instante, releu a carta e deitou-se, remexendo as palavras do pai, como se quisesse descobrir algo mais; ela o vira escrever, algumas vezes à mão outras vezes na velha Olympia que, por mais que ele tivesse à disposição um laptop, presente dela, onde escrevia suas colunas para diferentes revistas e jornais, preferia fazer alguns escritos na velha Olympia, mas sempre tinha um destino para aqueles papéis que ela não conhecia;

Saiu do quarto e foi até a sala; parecia ter dobrado de tamanho, tal era a sensação de ausência do pai; tudo parecia estar mais longe; a mesa de jantar no lado esquerdo a estante de Louça Companha das Índias, orgulho da mãe, que gostava de colecionar peças; o relógio de carrilhão no lado oposto, a coleção de miniaturas de monumentos, a única coisa que ela se assumia apaixonada; o lustre de estilo Lalique, feito por uma amiga artesã vidreira, cuja luz esverdeava coloria a sala. Viu o recanto do pai, do jeito que ele havia deixado antes de ir para o hospital; só agora, confrontada com a imensidão do espaço, sentiu a falta dele; foi para o quarto, deitou-se novamente, e sem nem mesmo prévia, chorou copiosamente até que, como se drenasse toda a tristeza num único instante, dormiu.


CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - INTRODUÇÂO


A Guerra do Paraguai é o maior conflito já deflagrado dentro do continente sul-americano; foi uma guerra em grande escala, empregando homens e material em uma proporção jamais imaginada na história militar desta parte da América; há quem diga que foi o explodir de tensões que já vinham se acumulando desde meados do séc. XVIII, das disputas de fronteira entre as metrópoles portuguesa e espanhola, que as nações surgidas no continente no limiar do séc. XIX herdaram; outros dizem que simplesmente foram os caprichos de um ditador sem escrúpulos que arrastaram um país inteiro para a guerra, e quase dizimaram sua população masculina economicamente ativa;

Foi uma guerra que enriqueceu alguns e empobreceu muitos; apesar de ser igualmente chamada (especialmente nos países europeus) de “Guerra da Tríplice Aliança”, por causa da participação brasileira, uruguaia e argentina, um país , mais que todos, suportou o peso econômico e humano da guerra: o Brasil; nosso país amadureceu militarmente; nosso exército, formado praticamente a partir de um corpo de voluntários de origens e temperamentos diversos, foi tomando a forma e a organização de um organismo moderno, mesmo quando suas origens pudessem vir do recrutamento forçado; mesmo sendo coeso, ainda assim o preconceito grassava forte (os soldados brasileiros eram chamados de “Macacunos”, pelos paraguaios e mesmo pelos aliados) e mesmo os brasileiros, especialmente os gaúchos, mais familiarizados com a dureza das condições , o clima e a dieta, desprezavam os soldados vindos do Norte e Nordeste – “mandai Mãe de Deus, mais uns dias de Minuano( o vento forte e frio que sopra do sul) pra acabar com tudo que é baiano” -  mas foi a primeira vez em que brasileiros de vários estratos sociais e de diferentes províncias se encontraram e a troca cultural resultante disso foi muito duradoura; nessas trocas, se mostram as verdadeiras histórias da guerra e baseados nelas os contos apresentados aqui se constroem; presente e passado, o ser humano – nós e o outro – somos os fazedores da história; conheçamos, então, esses seres humanos e vejamos o que eles têm para contar...na guerra, o Brasil aprendeu a se ver por inteiro...


CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - AO LEITOR


Caros Amigos

A Série que começarei a apresentar a vocês nasceu há vinte e cinco anos, quando acidentalmente, numa loja de discos, vi um CD da trilha sonora de um documentário chamado THE CIVIL WAR, sobre a Guerra Civil Americana, produzido por Ken Burns, um dos mais completos sobre o tema; li o prospecto de quase trinta páginas com uma avidez que me consumiu um dia inteiro, e persegui durante dois anos a chance de ver esse documentário; ao assisti-lo, me impressionou especialmente a riqueza iconográfica que ele apresentava; depois,  conheci a extensa literatura e filmografia americana sobre o tema, jamais esgotada – desde “O Emblema Rubro da Coragem”, de Stephen Crane, passando por “The Civil War- a History”, escrito pelo brilhante jornalista Harry Hansen, até os filmes “Gettysburg” e “Deuses e Generais”, magistralmente produzidos.  Me impressionou sobremaneira a multiplicidade de interpretações e teorias sobre a origem, a evolução e os desdobramentos da guerra e de como ela transformou a sociedade americana. Me impressionou também o imaginário produzido sobre esse momento da história.

Não pude deixar de me remeter à Guerra do Paraguai, que começou exatamente no fim da Guerra Civil nos EUA; à parte as diferenças entre os dois conflitos, me assaltava a pergunta: por que não se produziu, no Brasil, o mesmo imaginário, o mesmo conjunto de questionamentos tão agigantados nessa passagem da história sul-americana? Meu primeiro contato com alguma literatura fora do âmbito escolar me foi dado por um dileto amigo, que me emprestou o conhecido “Genocídio Americano – A Guerra do Paraguai” escrito por J.J. Chiavenato, uma abordagem diversa do universo didático sobre a guerra; li-o, confesso, com alguma reserva, por causa do endeusamento da figura de Solano Lopez, ditador do Paraguai, colocado como um “paladino contra o imperialismo britânico”; não satisfeito na minha busca por uma abordagem mais equilibrada, finalmente encontrei-a no livro de Francisco Doratioto, “Maldita Guerra”, onde, por detrás de extensa pesquisa documental e iconográfica, o autor nos mostra uma visão mais equilibrada, mais científica e, em muitos aspectos, mais humana; ainda assim, não via esse imaginário que eu buscava, o do homem comum, as histórias da gente, dos embates, do que poderiam pensar homens que , durante cinco anos , se enfrentaram nos esteiros, arroios e campos paraguaios; passei pelas memórias de Dionísio Cerqueira, soldado e depois político e a obra clássica “A Retirada da Laguna” de Taunay, até que, um dia, duas outras leituras me deram o impulso final: o pequeno conto “A Caminho de Assunção”, de Rubem Fonseca, e a “graphic novel” escrita por André Toral, “Adeus Chamigo Brasileiro”; elas me deram o rumo que faltava para ir atrás e pensar as narrativas que viriam das descobertas dessa passagem de nossa história...

sábado, 24 de janeiro de 2015

SEGUIR A VIDA

A vida tem muitas mensagens...

Muitas delas tomamos como lemas e seguimos nosso caminho entre os percalços que essa mesma vida apresenta;cabe a nós ter denodo e personalidade para, a cada tempo, sermos mais fortes do que o que é contra nós; temos do nosso lado a fé, que nos resguarda, protege e aconselha; mas será que, no rumo que escolhemos, somos sábios o suficiente para senti-la e fazer com que ela esteja ao nosso favor?

Temos a tendência a acreditar que, no afã de fazermos as coisas certas, estamos certos em tudo o que fazemos; as circunstâncias nos mostram muitas vezes - e aí entram as mensagens e "toques" que a vida às vezes nos dá - que precisamos repensar e rever o que pensamos e sentimos, para que nossa vida e nossa evolução espiritual possam ser cada vez melhores ; me condoo daqueles que, ao invés de seguir a vida, se aferram e se deixam remoer no passado; se condenam eles ao pior da vida: incapazes de viver o presente, negam a si mesmos o futuro; que evolução essas pessoas podem ter? Ao invés de se ligarem às suas vidas e felicidades, ficam a incomodar-se com as vidas e as felicidades dos outros, incapazes que são, por si sós, de ser felizes...
Mesmo assim, me condoo dessas pessoas e as ponho em minhas preces, para que, um dia , alcancem a evolução que as conduza a um degrau maior na evolução de suas vidas...

Vida, então, que segue, caros e caras...

Até o próximo post!!!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

AS FALSAS DEMOCRACIAS


      Caros e Caras

Hoje, ao ler a matéria do Yahoo sobre as críticas à forma física da repórter Fernanda Gentil, não pude deixar de me lembrar de uma frase que foi mote em uma discussão em que participei há alguns meses atrás: “sabemos muito bem lutar pela diversidade do ecossistema, mas desleixamos da luta pelo respeito à diversidade humana”
Como chegamos a tanto? Lembro de minhas leituras de adolescente, me debruçando sobre Gilberto Freyre, derrubando o mito da “branquização” do Brasil e levantando a bandeira da mestiçagem como única saída para as mazelas do preconceito e da falsa ideia de eugenia que sempre pautou a cabeça de muita gente na época; nos anos 60, surge o mito da “democracia racial”, onde o Brasil era visto como o país onde não havia preconceito e nem segregação e que se vivia melhor do que o malfadado sul dos EUA, onde os negros tinham lugar segregado nos ônibus, nos bebedouros, banheiros e quaisquer outros espaços de convivência; mas pergunto: será que vivíamos mesmo essa democracia, desse jeito tão desejado?

Hoje, não nos limitamos mais à raça; queremos regular o tipo físico, os padrões comportamentais, a vestimenta, a maneira pela qual nos expressamos e as coisas mais recônditas de nossa intimidade sofrem a patrulha dos que “acham-se árbitros da maneira certa da sociedade”; será que vivemos, realmente, o que defendemos quando falamos de “diversidade” e “sustentabilidade”? As duas, interdependentes, são as inspiradoras do mundo moderno, mas, em muitos aspectos, são apenas cosméticos que mascaram atitudes muito, muito mesquinhas; a tendência atual da sociedade em rotular e em criticar aquilo que não se coaduna com ela, a ponto de atacar de forma virulenta quem não se enquadra, atenta muito contra o verdadeiro espírito democrático, que, em sua mais límpida expressão, tem como pilar exatamente a diversidade e o respeito ao direito de todos de livre escolha e arbítrio sobre suas vidas e opiniões, que vai contra o que mais se faz nesses tempos de padronização, photshop e botox: o culto a uma perfeição impossível e a crueldade com quem está “fora dos padrões”; assim, a democracia – qualquer que seja ela além da política – se reduz à letra e atitude mortas;

As mostras de intolerância – desde impropérios escritos nas redes sociais à violência homófóbica ou religiosa radical – para não falar do extremismo com que se trata quem não é da sua “tribo” mais uma vez derruba o mito das “democracias” e “paraísos de convivência” tão decantados; não sabemos respeitar o nosso próximo, somos violentos à menor perturbação – a morte do surfista Ricardo dos Santos numa discussão banal com um policial, que deveria ser o mais centrado possível numa situação-limite, mostra o quanto somos intolerantes e afeitos à mais pura e simples violência como resolução para tudo; numa interessante contradição, nos condoemos do traficante brasileiro Marco Archer, condenado à morte por um crime que leva tantos e tantos jovens ao abismo, mas não temos o mesmo pudor ao linchar sem provas uma pessoa por simples rumores em redes sociais; que democracia é essa em que vivemos? A descrição do antropólogo Claude Lévy-Strauss do “homem cordial” há muito perdeu o sentido; somos seres cruéis, capazes de tudo para denegrir, derrubar e vilipendiar o que quer que nos atravesse o caminho ou seja diferente; a diversidade virou ilusão; a democracia, falsidade; somos como Narciso, que, no insight sensacional de Caetano Veloso, “acha feio o que não é espelho”;


Assim somos nós, democratas de fancaria numa falsa democracia...

sábado, 11 de outubro de 2014

CRÔNICAS DA CASA ALTA 9 - UMA POESIA



UM BANCO NA PRAÇA

O Banco de praça
É poesia de espera
É conto de encontro
É crônica de movimento
É soneto de lembrança
É Elegia de Saudade
É estado de arte
Da praça
É o que acolhe
Abraça
Consola
É parada
Meditação
Além de tempos...

(Thomé Madeira)

sábado, 13 de setembro de 2014

ALUÍZIO E SATÔ - UMA HISTÓRIA DE AMOR



Os que conhecem a obra de Aluízio Azevedo, sabem bem que, como fiel seguidor da escola Naturalista, sempre procurou mostrar, dento do matiz da época, todos os desdobramentos de uma sociedade, suas transformações e, sobretudo, suas mazelas, sempre fazendo do pano de fundo de suas histórias seu maior personagem; mas ele, igualmente, foi protagonista de uma grande história de amor, nos seus tempos no serviço diplomático; no seu primeiro posto, em Yokohama, Japão, tomou-se de amores por Satô, uma jovem gueixa que trabalhava em uma casa de chá nas proximidades do consulado; de intensa paixão torna-se amor tórrido, que vence o antes taciturno Aluízio; vive cada dia desse amor como se fosse o último, como a prever que não duraria; transferido para La Plata, Argentina, insta em querer levá-la, mas Satô, presa a uma dupla tradição - a primeira é que uma gueixa tinha de cumprir um "tempo de obrigação" que a prendia à casa em que servia; a segunda, ela não poderia se desligar de seus pais, já muito velhos, obrigada igualmente pela tradição a cuidar deles até que morressem; a última vez que a vê é exatamente quando se despede dela no cais,a caminho de seu novo posto; os colegas que serviram com ele na Argentina lembram-se dele como "macambuzio, de rosto fechado, raramente a entabular conversa; muitos sabiam quem ele era pelos livros que tinham lido, mas ele parecia nem querer se lembrar desse tempo, como se fosse nada, um quê sem importância"; uma vez conseguiram arrancar dele apenas uma frase, quase um desabafo:
"Hoje não preciso mais escrever romances para comprar melões". Morreria no estrangeiro, e, dizem os que arranjaram o seu funeral que, no ataúde, entrelaçado junto ao terço que trazia nas mãos, uma fita de seda bordada, que enlaçava um ramalhete de flores dessecadas de cerejeira...


terça-feira, 9 de setembro de 2014

RETURN TO A VIEW - UM CONTO



Florença, Agosto de 1977

"Debruçou-se na janela e contemplou longamente o Duomo, deixando os sentidos livres para absorver todas as sensações daquele momento; parecia que nada havia mudado; os mesmos eflúvios, a mesma brisa soprando do Arno, o farfalhar das asas dos pombos em revoada, o cheiro dos produtos vendidos; a música, esta sim, tinha mudado; não mais as dolentes canções de amor, mas uma mistura de ritmos que ia desde os latinos ao rock. Procurou isolar isso, retendo apenas o que tinha  de lembrança...
Os dedos correram pela velha esquadria de madeira, como que procurando algo; logo ela cedeu um pouco no ponto onde ele buscava, revelando um pedaço de couro velho, amarrado por um cordão também de couro; puxou-o e tomou nas mãos, desenrolando-o sem pressa; dentro dele, um pedaço de papel, igualmente enrolado e amarrado por um cordão dourado; ele não continha mais as lágrimas enquanto abria o cordão e desenrolava o pedaço de papel; reconheceu a caligrafia elegante, o jeito suave das letras, respirou fundo e leu;

'Florença, Agosto de 1910,
Caro Robert,
De três coisas uma: ou leremos juntos esta carta, ou lerei eu sozinha ou você sozinho; não importa; a promessa que fizemos foi que , no dia que pudéssemos, voltaríamos a este mesmo lugar e abriríamos para ler o que escrevemos no começo de nossas vidas, para ver quão sonhadores fomos e quanto poderíamos ousar sonhando até realizarmos tudo, para apenas descobrir que ainda haveria tanto a sonhar e realizar, logo eu , que sempre fui tão cheia de realidade, tão presa no chão com meus pés; me ensinaste a voar, a alcançar o céu, a viver cada parte de mim sem ter pressa de descobrir tudo; me deste com teu amor asas pra alcançar lugares onde jamais eu tinha ido; agora, meu amor, voemos juntos, até onde nossa vista alcançar; te amo, Meu Robert, e te amarei por todos os dias da minha vida. Te fiz prometer que jamais veria o conteúdo desta carta até que se cumpra o nosso tempo, ou passaremos para os filhos, que poderão ler o que vivemos então; que nosso amor seja o supremo arauto de nossa felicidade...

Amor por toda a vida,
Sua 
Lucy'

Ele ficou em silêncio por longo tempo, as lembranças daquele amor preenchendo os pensamentos; logo o silêncio foi quebrado por batidas leves na porta, a voz da filha e da neta  preenchendo o pequeno quarto.
- Está tudo bem, papai? - Perguntou a filha com ar preocupado - Não vimos o senhor descer para o café da manhã...
- Está tudo bem, filha, tudo bem. Venham aqui, quero mostrar uma coisa.
Ele mostrou a elas então o que encontrara e contou a história de como tudo aconteceu. O semblante curioso da filha e da neta deu lugar à emoção, e as duas se abraçaram e choraram.
- Não chorem, não é uma história triste; ela está mais viva do que nunca em cada palavra que nós lemos; ela não gostaria de nos ver assim, não é mesmo?
Desceram para o desjejum e depois passearam pela Piazza del Belvedere,  ele reconhecendo cada lugar e contando para a filha e a neta a história de como ele e Lucy se conheceram; de repente, pareceu a ele sentir uma presença familiar; virou-se ligeiramente e a vislumbrou, os mesmos olhos verdes, o mesmo cabelo castanho, o mesmo sorriso encantador, vestida no redingote azul e com o chapéu de palha com um botão de rosa...
Ela sorria...

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

CRÔNICAS DA CASA ALTA 9 - UMA POESIA



BECO DAS GARRAFAS

No Rio
No Beco
A Fossa
A Bossa
Dançam meio que estranhas
Uma de derrotistas patranhas
Outra de românticas manhas
Uma conquista o mundo
Outra canta e decanta
Os amores que não se permite
Mas que o âmago insiste
Em buscar no limite
Canção de uma
Lamento de outra
De bar em bar
No beco
Se enlaçam
Dançam
Se entrançam...

(Thomé Madeira)

sábado, 26 de julho de 2014

RESENHAS E AUTORES - VISÃO DE UM MARANHENSE SOBRE A ARTE DO BRASIL 2

A poeira da Copa baixou e agora buscamos outro rumo; deixamos a expectativa pra Russia 2018; vamos trocar a pinga pela vodka, tirar os casacos de dentro do guarda roupa e vamos embora..mas isso é pra 2018...
Por ora, vamos continuar nossa viagem textual por esse Brasil tão artista e tão especialmente vibrante, buscando seus sensíveis videntes e visionários, ou mesmo simples cronistas desse nosso tão diverso cotidiano...
Ainda neste post falemos um pouco mais de futebol, apenas pra fecharmos com um autor  que era mais que um simples comentarista; assim como um outro autor que mencionarei aqui, mas músico ao invés de escritor, este passou sua paixão para o que seria simplesmente a observação fria do esporte e o apontar de virtudes e defeitos; ele derramou sua prosa com uma habilidade sem igual, fazendo do espetáculo mais que isso; ele o fez literatura...Ninguém menos que Nelson Rodrigues...


Não falarei aqui do Nelson polêmico, do Suzana Flag das histórias que desnudam hipocrisias e pecados que os protagonistas delas sempre tentam esconder, mas que, mais cedo ou mais tarde, se revelam;  não vou falar aqui do Nelson achincalhado, vilipendiado como o "Tarado", o "destruidor da família", ou coisa que o valha...Ruy Castro, no seu excelente "NELSON RODRIGUES - O ANJO PORNOGRÁFICO", já discorre muitíssimo bem sobre o tema;
Falarei de outro Nelson, o do apaixonado por futebol, que trouxe uma verve nova ao texto esportivo, dando-lhe dimensão, intensidade e , acima de tudo, alma; tudo o que vemos dos modernos cronistas esportivos, desde osmarianas entonações, passando por grandiloquências lucianodovallescas até "galvãonices" nem sempre benquistas, devemos a esse grande escritor brasileiro chamado Nelson Rodrigues...Torcedor apaixonado do Fluminense, era de frequentar quase religiosamente os jogos, embora seus problemas frequentes de visão não o deixassem distinguir um time do outro, mas nem isso diminuía sua paixão e sua habilidade - marcou sua prosa futebolística cunhando expressões do tipo "complexo de vira-lata", frase que foi o símbolo da derrota brasileira em 1950 (confesso que sonhei com uma final Brasil x Uruguai nessa última copa, mas, seteaumescamente falando, melhor não lembrar). Junto com seu irmão Mário Filho, consumado editor - devemos a ele o vetusto porém dinâmico "JORNAL DOS SPORTS", ainda no seu clássico papel róseo - agitou a cena esportiva da época; mas deixemos que ele mesmo dê o seu recado, no livro (link abaixo) "A Pátria de Chuteiras", em outra de suas expressões lapidares...Mesmo sendo um tricolor apaixonado, sabia reconhecer a igual paixão de outros torcedores, como estas palavras sobre os rubro-negros, tradicionais rivais dos tricolores...






http://www.ediouro.com.br/lancamentosdenelsonrodrigues/livros/ImagePatriaDeChuteiras%20em%20Baixa.pdf