sábado, 13 de setembro de 2014

ALUÍZIO E SATÔ - UMA HISTÓRIA DE AMOR



Os que conhecem a obra de Aluízio Azevedo, sabem bem que, como fiel seguidor da escola Naturalista, sempre procurou mostrar, dento do matiz da época, todos os desdobramentos de uma sociedade, suas transformações e, sobretudo, suas mazelas, sempre fazendo do pano de fundo de suas histórias seu maior personagem; mas ele, igualmente, foi protagonista de uma grande história de amor, nos seus tempos no serviço diplomático; no seu primeiro posto, em Yokohama, Japão, tomou-se de amores por Satô, uma jovem gueixa que trabalhava em uma casa de chá nas proximidades do consulado; de intensa paixão torna-se amor tórrido, que vence o antes taciturno Aluízio; vive cada dia desse amor como se fosse o último, como a prever que não duraria; transferido para La Plata, Argentina, insta em querer levá-la, mas Satô, presa a uma dupla tradição - a primeira é que uma gueixa tinha de cumprir um "tempo de obrigação" que a prendia à casa em que servia; a segunda, ela não poderia se desligar de seus pais, já muito velhos, obrigada igualmente pela tradição a cuidar deles até que morressem; a última vez que a vê é exatamente quando se despede dela no cais,a caminho de seu novo posto; os colegas que serviram com ele na Argentina lembram-se dele como "macambuzio, de rosto fechado, raramente a entabular conversa; muitos sabiam quem ele era pelos livros que tinham lido, mas ele parecia nem querer se lembrar desse tempo, como se fosse nada, um quê sem importância"; uma vez conseguiram arrancar dele apenas uma frase, quase um desabafo:
"Hoje não preciso mais escrever romances para comprar melões". Morreria no estrangeiro, e, dizem os que arranjaram o seu funeral que, no ataúde, entrelaçado junto ao terço que trazia nas mãos, uma fita de seda bordada, que enlaçava um ramalhete de flores dessecadas de cerejeira...


terça-feira, 9 de setembro de 2014

RETURN TO A VIEW - UM CONTO



Florença, Agosto de 1977

"Debruçou-se na janela e contemplou longamente o Duomo, deixando os sentidos livres para absorver todas as sensações daquele momento; parecia que nada havia mudado; os mesmos eflúvios, a mesma brisa soprando do Arno, o farfalhar das asas dos pombos em revoada, o cheiro dos produtos vendidos; a música, esta sim, tinha mudado; não mais as dolentes canções de amor, mas uma mistura de ritmos que ia desde os latinos ao rock. Procurou isolar isso, retendo apenas o que tinha  de lembrança...
Os dedos correram pela velha esquadria de madeira, como que procurando algo; logo ela cedeu um pouco no ponto onde ele buscava, revelando um pedaço de couro velho, amarrado por um cordão também de couro; puxou-o e tomou nas mãos, desenrolando-o sem pressa; dentro dele, um pedaço de papel, igualmente enrolado e amarrado por um cordão dourado; ele não continha mais as lágrimas enquanto abria o cordão e desenrolava o pedaço de papel; reconheceu a caligrafia elegante, o jeito suave das letras, respirou fundo e leu;

'Florença, Agosto de 1910,
Caro Robert,
De três coisas uma: ou leremos juntos esta carta, ou lerei eu sozinha ou você sozinho; não importa; a promessa que fizemos foi que , no dia que pudéssemos, voltaríamos a este mesmo lugar e abriríamos para ler o que escrevemos no começo de nossas vidas, para ver quão sonhadores fomos e quanto poderíamos ousar sonhando até realizarmos tudo, para apenas descobrir que ainda haveria tanto a sonhar e realizar, logo eu , que sempre fui tão cheia de realidade, tão presa no chão com meus pés; me ensinaste a voar, a alcançar o céu, a viver cada parte de mim sem ter pressa de descobrir tudo; me deste com teu amor asas pra alcançar lugares onde jamais eu tinha ido; agora, meu amor, voemos juntos, até onde nossa vista alcançar; te amo, Meu Robert, e te amarei por todos os dias da minha vida. Te fiz prometer que jamais veria o conteúdo desta carta até que se cumpra o nosso tempo, ou passaremos para os filhos, que poderão ler o que vivemos então; que nosso amor seja o supremo arauto de nossa felicidade...

Amor por toda a vida,
Sua 
Lucy'

Ele ficou em silêncio por longo tempo, as lembranças daquele amor preenchendo os pensamentos; logo o silêncio foi quebrado por batidas leves na porta, a voz da filha e da neta  preenchendo o pequeno quarto.
- Está tudo bem, papai? - Perguntou a filha com ar preocupado - Não vimos o senhor descer para o café da manhã...
- Está tudo bem, filha, tudo bem. Venham aqui, quero mostrar uma coisa.
Ele mostrou a elas então o que encontrara e contou a história de como tudo aconteceu. O semblante curioso da filha e da neta deu lugar à emoção, e as duas se abraçaram e choraram.
- Não chorem, não é uma história triste; ela está mais viva do que nunca em cada palavra que nós lemos; ela não gostaria de nos ver assim, não é mesmo?
Desceram para o desjejum e depois passearam pela Piazza del Belvedere,  ele reconhecendo cada lugar e contando para a filha e a neta a história de como ele e Lucy se conheceram; de repente, pareceu a ele sentir uma presença familiar; virou-se ligeiramente e a vislumbrou, os mesmos olhos verdes, o mesmo cabelo castanho, o mesmo sorriso encantador, vestida no redingote azul e com o chapéu de palha com um botão de rosa...
Ela sorria...

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

CRÔNICAS DA CASA ALTA 9 - UMA POESIA



BECO DAS GARRAFAS

No Rio
No Beco
A Fossa
A Bossa
Dançam meio que estranhas
Uma de derrotistas patranhas
Outra de românticas manhas
Uma conquista o mundo
Outra canta e decanta
Os amores que não se permite
Mas que o âmago insiste
Em buscar no limite
Canção de uma
Lamento de outra
De bar em bar
No beco
Se enlaçam
Dançam
Se entrançam...

(Thomé Madeira)

sábado, 26 de julho de 2014

RESENHAS E AUTORES - VISÃO DE UM MARANHENSE SOBRE A ARTE DO BRASIL 2

A poeira da Copa baixou e agora buscamos outro rumo; deixamos a expectativa pra Russia 2018; vamos trocar a pinga pela vodka, tirar os casacos de dentro do guarda roupa e vamos embora..mas isso é pra 2018...
Por ora, vamos continuar nossa viagem textual por esse Brasil tão artista e tão especialmente vibrante, buscando seus sensíveis videntes e visionários, ou mesmo simples cronistas desse nosso tão diverso cotidiano...
Ainda neste post falemos um pouco mais de futebol, apenas pra fecharmos com um autor  que era mais que um simples comentarista; assim como um outro autor que mencionarei aqui, mas músico ao invés de escritor, este passou sua paixão para o que seria simplesmente a observação fria do esporte e o apontar de virtudes e defeitos; ele derramou sua prosa com uma habilidade sem igual, fazendo do espetáculo mais que isso; ele o fez literatura...Ninguém menos que Nelson Rodrigues...


Não falarei aqui do Nelson polêmico, do Suzana Flag das histórias que desnudam hipocrisias e pecados que os protagonistas delas sempre tentam esconder, mas que, mais cedo ou mais tarde, se revelam;  não vou falar aqui do Nelson achincalhado, vilipendiado como o "Tarado", o "destruidor da família", ou coisa que o valha...Ruy Castro, no seu excelente "NELSON RODRIGUES - O ANJO PORNOGRÁFICO", já discorre muitíssimo bem sobre o tema;
Falarei de outro Nelson, o do apaixonado por futebol, que trouxe uma verve nova ao texto esportivo, dando-lhe dimensão, intensidade e , acima de tudo, alma; tudo o que vemos dos modernos cronistas esportivos, desde osmarianas entonações, passando por grandiloquências lucianodovallescas até "galvãonices" nem sempre benquistas, devemos a esse grande escritor brasileiro chamado Nelson Rodrigues...Torcedor apaixonado do Fluminense, era de frequentar quase religiosamente os jogos, embora seus problemas frequentes de visão não o deixassem distinguir um time do outro, mas nem isso diminuía sua paixão e sua habilidade - marcou sua prosa futebolística cunhando expressões do tipo "complexo de vira-lata", frase que foi o símbolo da derrota brasileira em 1950 (confesso que sonhei com uma final Brasil x Uruguai nessa última copa, mas, seteaumescamente falando, melhor não lembrar). Junto com seu irmão Mário Filho, consumado editor - devemos a ele o vetusto porém dinâmico "JORNAL DOS SPORTS", ainda no seu clássico papel róseo - agitou a cena esportiva da época; mas deixemos que ele mesmo dê o seu recado, no livro (link abaixo) "A Pátria de Chuteiras", em outra de suas expressões lapidares...Mesmo sendo um tricolor apaixonado, sabia reconhecer a igual paixão de outros torcedores, como estas palavras sobre os rubro-negros, tradicionais rivais dos tricolores...






http://www.ediouro.com.br/lancamentosdenelsonrodrigues/livros/ImagePatriaDeChuteiras%20em%20Baixa.pdf



segunda-feira, 7 de julho de 2014

CRÔNICAS DA CASA ALTA 8 - UM CONTO



Ele esperava já com uma inquietação sem limites. Faltavam cinco minutos para o filme começar e ele já estava com os ingressos na mão, olhando de um lado para o outro da rua. Será que ela não viria? Já fora muito vencer a timidez para fazer a ela o convite , depois de um tempo de ensaios na frente do espelho; já fora igual desafio vencer as troças da irmã mais nova, vendo-o indeciso entre qual camisa ou qual gravata usar, o terno ou o sapato certo. Esperava, e esperava...
Lembrou-se então de quando a conhecera, quando foi comprar uma gravata nova na loja A Exposição, para usar no casamento de um amigo;  tinha aproveitado a hora do almoço, pois estava atulhado de serviço no Ministério da Viação, no qual recentemente tomara posse como servidor; o amigo era um dos mais antigos, o único dos de infância com quem ainda mantinha contato. Os outros ou tinham saído da cidade ou tinham suas vidas tão ocupadas que não havia tempo para um contato mais próximo.
Então, ela. 
Ele prestou primeiro atenção nos cabelos castanho-escuros arrumados num coque elegante, que emolduravam um rosto levemente ovalado, de olhos verdes vivos e um sorriso leve, que o fez corar. Ela igualmente corou, baixando o rosto, como que não querendo retribuir o olhar; o tempo pareceu parar entre os dois...
Compra feita, voltou para o trabalho, mas saiu da loja não mais o mesmo...e nem ela...
Depois foram as passadas pela loja sob as mais variadas desculpas, os "encontros casuais", no fim do expediente, até que trocaram as primeiras palavras, a conversa fluindo dia após dia, até que , reunindo toda a coragem que tinha, a convidou para ir ao cinema, na sessão soirée do Éden; antevendo a negativa, surpreendeu-se com a resposta sorridente.
- Por que não? Não tenho nada programado para essse fim de semana.
Não era a resposta que ele esperava. Sentiu-se um tanto constrangido, achando que ela só aceitara porque nada melhor havia pra fazer. Mal ele sabia que a resposta tinha sido porque não havia outra melhor; ela ansiava por isso, mas não queria mostrar-se "oferecida", lembrando-se dos conselhos da tia Arminda, que dizia que "moça de familia espera o homem fazer o convite e mesmo assim, demora pra dizer sim"...
A exasperação terminou quando ele a divisou virando a esquina, o tailleur azul delineando as formas, num passo calmo, não parecendo estar atrasada. A ansiedade nele desapareceu quando ela chegou; ele a beijou no rosto, avisando que faltava pouco para o filme começar. Tomando-a pela mão, acompanharam o lanterninha até os lugares do andar superior; o filme já estava nos créditos...
Assistiram a fita sem piscar, as cenas da história de amor tocando-os e fazendo se darem as mãos, ficando assim até que ele, numa inciativa, beijou-a ternamente nos lábios...Ela não resistiu; deixou-se levar, o beijo ficando mais intenso, até que se sentiram como se nada mais houvesse...
Saíram enlevados da sessão, de braços dados,  num andar sem pressa; já um pouco longe do cinema, ela percebeu que faltava o brinco da orelha esquerda; era um brinco de pérola que fora presente da Tia Arminda quando ela completara quinze anos, do qual tinha muita estima, Eles voltaram e encontraram o cinema quase fechando,mas ainda conseguiram falar com o lanterninha, pedindo que desse uma vasculhada nos bancos pra ver se não o encontrava. Depois de procurar por todas as partes, mesmo na platéia baixa do cinema, não encontrou o brinco. "Talvez tenham encontrado e levado", finalizou, sentido.
Ela sabia que Tia Arminda ia ficar chateada, mas, o que se há de fazer? Ele a tomou nos braços e ficaram por um tempo em silêncio, contemplando a luz dos postes da Rua Grande. Ela virou-se para ele e o fitou , ainda assim, contente.
- Perdi um brinco, mas encontrei um tesouro em você - disse, com um sorriso que o encantou.
- Então ambos encontramos. - ele respondeu ao sorriso com um beijo.
A vida foi seguindo, os dois cada vez mais juntos. Veio o casamento, a progressão da carreira dele, a aprovação dela como professora primária. Os filhos crescendo,  cada qual seguindo suas vidas; mesmo assim, o cinema jamais deixou de fazer parte, em todas as soirées de fim de semana, ou mesmo nas tardes, sempre um algo mais a ver, a sentir. Então vieram os netos, alegrando ainda mais um lar sempre feliz, até que a doença a levou, tão de repente que ele não teve nem tempo de chorar, se despedir...Chorou depois, na falta dela, a mão segurando o brinco, do qual jamais encontrara o outro par...Agora era a solidão, apenas quebrada pelos netos, que o alegravam e faziam-no ainda viver...
Os olhos marejaram com o que ele via. O simbolo de todo um passado, de toda uma história de vida, dele e dela, agora virava um amontoado de poeira e entulho. Era o fim de um tempo, O dono morrera e os herdeiros venderam o cinema a uma cadeia de lojas; a fachada fora preservada, mas todo o interior estava sendo demolido. Caixilhos das janelas, restos de vitrais, ventiladores estropiados jaziam em montes no interior do cinema, outros tantos objetos em caçambas de entulho. Ele entrou,  o lenço no nariz pra evitar o excesso de poeira; reconhecia cada parte daqueles escombros como se fosse alguém morto, ao qual se negara uma sepultura digna.
De repente, junto a um monte de bancos quebrados , pareceu ver algo que brlhava; afastou os pedaços de uma fileira deles, retirando os pedaços de madeira e reboco espalhados no chão. Quando conseguiu remover tudo, ele não conseguia crer no que seus olhos viam: diante dele, depois de tanto tempo, o brinco perdido!!! Nunca o conseguiriam achar , pois, ao cair, ele encaixara no ressalto de um dos bancos, ficando escondido todo esse tempo. Apenas quando os bacos foram removidos ele tinha se soltado, ficando ali sujo de poeira; ele limpou-o com o lenço, beijou-o e guardou-o no bolso. Um encarregado que passava viu-o e perguntou o que fazia ali.
- Só levando uma lembrança do velho cinema, meu filho - disse, com um pedaço do ladrilho na mão - Vivi momentos muito felizes aqui.
O encarregado olhou para ele com um ar de estranheza, como se o achasse louco; saiu dali com pressa, com ar compngido. Tomou um táxi para o Cemitério do Gavião e, lá chegando, dirigiu-se à sepultura dela, trocando as flores e depositando o par de brincos junto com o buquê. Olhou para a foto dela na lápide, o mesmo sorriso que o encantara há tantos anos. Apenas a fitou e disse, com ar de alívio, como se tirasse o peso dos anos das costas; "eu encontrei, meu amor, eu encontrei". Uma leve brisa soprou e só então ele reparou que já era fim de tarde, o sol se pondo num vermelho intenso. Tomou outro táxi e voltou pra casa, pela primeira vez, sem tristeza no semblante, sem pesar. Ao dormir, sonhou que era o mesmo rapaz de antes, a esperá-la na porta do cinema; ao vê-la chegar, abraçou-a, beijou-a e, sem que ela pudesse dizer palavra, pôs nas mãos dela o par de brincos tão amados...

sexta-feira, 4 de julho de 2014

RESENHAS E AUTORES - VISÃO DE UM MARANHENSE SOBRE A ARTE DO BRASIL



Quero, em primeiríssimo momento, brindar à sua presença como leitor e apresentar uma série especial de "resenhas", não de livros, mas de artistas (e seus interiores); não a leitura de linhas - embora eu apresente alguns excertos -  mas uma viagem ao coração e à alma destes, sejam escritores, pintores ou de outras estirpes da arte; coração e alma, as verdadeiras fontes da genialidade...
Comecemos então...
Vendo os jogos do Brasil na Copa e o futebol sendo a moda do momento, nada melhor do que começar essa resenha sobre um autor pouco lembrado em nosso tempo que, no limiar do século passado, já antevia o futebol como um esporte que cedo conquistaria terreno nos corações do povo, podendo falar disso mesmo em razões de sangue, porque dois dos seus filhos foram intimamente ligados com o futebol, fazendo-o experimentar "a dor e a delícia" , como tão bem o disse Caetano...


Falemos então do tão injustamente esquecido Henrique Maximiano Coelho Netto. O "Príncipe dos Prosadores Brasileiros" era um grande entusiasta do futebol quando o esporte ainda nem era chamado assim (era chamado "ludopédio", um nome pedante demais que nem os ingleses falavam), sentindo o potencial desse esporte de agitar as massas. Seus filhos, Emmanuel ("Mano") e João ("Preguinho"), se deram de corpo e alma a ele, a ponto de um deles, Emmanuel, morrer numa partida, quando uma bolada no abdomen lhe rompe o peritônio; mesmo na dor, a pena corre pra fazer nascer MANO, um livro de crônicas da vida desse filho tão querido, fluminense de coração, jogador de rara habilidade. O livro é mais; é a pena elegante de Coelho Netto a descrever a dor da morte e da saudade;

"...A casa não dormia. Era a única na rua sossegada que se mantinha aberta e acesa durante a noite toda e, ainda que silencioso, ensurdecido pelos cuidados, o movimento nela era contínuo. Falava-se aos cochichos, e, volta e meia, no quarto em que ele sofria, vígilo, soava a exclamação angustiosa:
“Se eu dormisse uma hora!”
O sono, que enchia a casa, acabrunhando aos que o desvelavam - tantas noites despertos! - só não lhe chegava, a ele.
Os enfermeiros revezavam-se-lhe à cabeceira e, por toda a parte, em desordem, eram pacotes de algodão, ampolas, rolos de gaze, frascos.
De quando em quando alguém chegava-se à luz com o termômetro.
Em todo o caso havia esperança e, quando os pássaros começavam a cantar nas árvores e o céu desensombrava-se em rosicler e ouro, mais se animavam os corações.
“Se eu dormisse uma hora...!” arquejava, cansado, o pobrezinho.
O sol entrava a jorros. Era o dia e começava na rua o movimento.
Todos contavam vê-lo, de repente, sorrir, anunciando o alivio desejado e ele, rolando aflitamente os olhos, agitando-se no leito, ansioso, insistia nas palavras tristes:
“Se eu dormisse uma hora...!”
E, assim, passaram-se nove dias e nove noites, dias de tortura, noites em claro, longas, exaustivas, sem sono, gemidas, até que, ao fim da tarde décima, ao lento soar das sete horas, abriram-se-lhe muito os olhos, encheram-se-lhe de lágrimas e, entre nós dois, ela e eu, ele começou a aquietar-se, deixou de gemer para dormir, e adormeceu, enfim, não por uma hora, mas para não acordar mais, nunca mais!..."

Seu outro filho, João Coelho Netto, igualmente atleta magistral, teve a honra de ser o primeiro brasileiro a fazer um gol na história das copas, na Copa de 1930. Preguinho, como era chamado, mesmo depois da profissionalização do esporte recusou-se a receber qualquer incentivo financeiro por parte do clube, dizendo que jogava "por amor ao Fluminense e era o que o fazia ir em frente com o esporte". Priscos e tão saudosos tempos...
Gol de Preguinho (à direita) contra a Iugoslávia na Copa de 1930 (Fonte: Wikipedia)

Injustamente tornado em saco de pancadas dos modernistas, Coelho Netto foi em muitos aspectos mais modernista que estes, que encapsularam sua Semana de Arte Moderna sem sequer se identificarem com os ventos que agitavam o país nesse tempo. Muito mais antenado e centrado que os últimos, foi em defesa do movimento tenentista, que buscava  reformas políticas profundas no país, especialmente contra o sistema viciado da "política do Café com Leite", escrevendo mesmo um ensaio em defesa dos 18 do Forte, episódio que os "Modernistas de 22" passaram em brancas nuvens. O ensaísta e crítico Franklin de Oliveira , no seu texto "A Semana de Arte Moderna na Contramão da História" o redime.  Um autor que precisa ser mais e mais conhecido, neste Brasil de memória tão curta sobre sua própria glória...

Aguardem para a próxima: Nelson Rodrigues e a verve futebolística...

sábado, 28 de junho de 2014

EU SEI POR QUÊ E VOCÊ TAMBÉM


"O salão estava apinhado. A orquestra de Harry James caprichava nos acordes e os casais dançavam absortos; apenas ele permanecia na mesa, pensativo; já decorara todos os detalhes da missão e revisava tudo a cada momento, procurando não esquecer de cada detalhe que tinha sido passado pelo coronel Sink. Seu batalhão iria liderar o salto na França, logo atrás dos Pathfinders, que marcariam as zonas de salto. Tudo estava azeitado e sincronizado como um relógio...

Procurou prestar atenção na orquestra, que agora apresentava a canção "I've Heard That Song Before" e ele reconheceu prontamente a bela voz de Helen Forrest, a sensacional vocalista da banda.


Isso relaxou-o um pouco e ele batia os pés no ritmo da canção. Era uma das prediletas dele e o fazia lembrar de dias felizes em Manhattan, em tempos diferentes; virou-se para ver melhor e esbarrou com uma oficial do corpo auxiliar do exército, quase derrubando o coquetel que ela carregava.
- Parece que estamos um pouco nervosos aqui, não, major...? - Riu, o sorriso iluminando o rosto emoldurado por um cabelo cortado curto, em um estilo elegante.
- Thomas Woods, 2o. Batalhão, 506 Regimento de Paraquedistas, 101a Divisão.
- Ora, ora, ora, um paraquedista! - Sorriu novamente, de um jeito descontraído - Bem, falemos de igual para igual então. Major Leslie Maxine Firebrand, corpo auxiliar.
Ele apertou a mão dela cerimoniosamente, um tanto tímido talvez. Ainda carregava as cicatrizes do divórcio feito há um ano, quando comunicou à mulher , Carol, que se alistaria nos paraquedistas; isso gerou um conflito que acabou na separação e no consequente divórcio, que só não foi mais traumático porque não tinham tido filhos
- Muito prazer , Major Firebrand - respondeu, um tanto sem jeito - espero que esteja apreciando a festa.
- Bem, major Woods, se prefere ser chamado assim, eu esperava alguém, mas acho que não vir deve ter sido a maneira dele dizer que não íamos muito longe; prefiro que me chame de Leslie.
- Tudo bem se não se incomodar em me chamar de Thom. Aceita um coquetel? Preciso compensar o que quase derrubei - disse, num sorriso mais descontraído.
- Aceito sim; um Manhattan, se não se importar. Gosto de coquetéis fortes.
- Sem problemas. Eu a acompanho.
Ele foi até o bar e trouxe os coquetéis, a conversa fluindo mais espontânea. Era a primeira vez que tinha companhia feminina em muito tempo desde o divórcio. Evitava os casos com as enfermeiras da base, pois ainda não se sentia seguro pra engrenar nenhum relacionamento com ninguém. Mas ela era diferente; bem articulada, ainda com um sotaque da Virgínia que a fazia ainda mais atraente; de repente a orquestra começou "It's been a long, long time", com a inconfundível voz de Helen Forrest.
Sem que os dois sequer mencionassem palavra , um seguiu o outro para o salão, onde começaram a dançar. Sem palavras, ficaram mais próximos, se deixando levar pela canção, esquecendo, mesmo que por um instante, que era no meio de uma guerra que a música soava...
Amaram-se da mesma forma espontânea como se conheceram, parecendo saber um do outro como se há anos se vissem; ele quis dizer algo, mas ela levou os dedos aos lábios dele, não o deixando falar.
- Não diga nada e não prometa nada; apenas retorne, apenas isso. Eu estarei esperando as notícias que vierem...
O rádio tocava "I know why and so do you", com a orquestra de Glenn Miller, quando ele saiu do hotel de volta à base...


Agora, o som que ele ouvia era o do ronco dos motores do C-47 que transportava o estado maior do batalhão. Mesmo nesse momento, ele ainda pensava nela, em cada parte, em cada sorriso, em cada volta no salão de dança...
O ronco dos motores se misturava agora ao pipocar dos disparos da artilharia antiaérea, que indicava que eles haviam chegado ao objetivo. Agora, era apenas questão de minutos...Era dia 6 de junho de 1944...
A luz verde se acendera. Hora de saltar...

sábado, 21 de junho de 2014

MOMENTO DO DIA


De repente, os acordes de "AS TIME GOES BY", invadem o escritório e eu não resisto; te convido pra dançar e me deixo levar pro Rick's, em Casablanca, onde não importa que alemães e aliados se digladiem, eu só tenho olhos pra ti, Leonor, pois és minha Ilsa...
ITVBA ETAVC

CONSTRUINDO UMA NOVA ROTINA


Tempo de novos ares, de novas perspectivas, de vontades e anseios inopinos, de simplesmente querer levantar no diferente, tomar o contrário, ou, como diria um tio meu por quem tenho muito apreço, "ir de revés contra a bolina".
Vivi anos uma inquietação que não apenas me turvou o sono, mas simplesmente me colocou em diversas situações em que, ao pensar que ela acabava, ela simplesmente recrudescia...
Hoje, meu sono me traz de volta os dias, as horas, os minutos e os segundos que eu achava que jamais aproveitaria; é tempo de viver novo momento, mas, desta vez, não efêmero, e sim, duradouro, não apenas no aspecto pessoal , mas no profissional idem;
Não pensem muitos que, ao viver esse novo momento, esqueci ou desmereço tudo o que vivi anteriormente; muito aprendi, muito carrego de outras etapas, sem carregar contudo, rancores ou ressentimentos. Guardo tudo como tesouros incalculáveis, preciosas dádivas da vida, onde tudo, mais que aprendizado, é soma. Todos os dias, penso no que vivi e minhas preces são, exatamente, para que a vivência traga mais sabedoria, mais equilíbrio, mais maturidade, não somente para mim, mas para todos os que caminharam comigo em todos esses passos, pois quem apenas vê em si o que espera da vida, jamais será merecedor de sabedoria...
Novo sentimento, nova cumplicidade, onde mesmo a menor de minhas palavras parece a maior das carícias...Onde uma imagem de cabelos prateados se materializa aos meus versos....Como chamá-la? Poderia dizer felicidade, mas eu , no meu coração emotivo, prefiro chamá-la Leonor...Como Dirceu, que quando Amor pediu que grafasse seu nome em uma árvore, ele escreveu Marília; Amor, então, aquietando Dirceu, simplesmente verseja;

"Não chores, Dirceu,
Não mudes de cor;

Neste doce nome
Escreveste Amor"


domingo, 15 de junho de 2014

Grande Voz , Enorme Descoberta

Dizem que as descobertas mais interessantes são aquelas que a gente não espera, que vêm no chofre, no instante, no inopino de algo que a gente sequer imagina; os sentidos são aguçados, a vontade de querer mais se faz forte, se quer deixar levar, se deixando sonhar, acarinhar.... Assim é o CD "Pra Você", da grande Jô Holtz, onde viagem é pouco pra se falar desse trabalho; ouvi-o durante um domingo dividido entre os afazeres de casa e os planos da rua, e, onde estivesse ou como estivesse, todos os meus instintos se aguçaram, cada um deles tocado pela intensidade da voz da Jô. Com uma verve que vai da bossa gostosa ("Que Tal Heim"?) ao blues rascante ("Assim Como Você Fez"), indo ao grito de um amor que luta pra viver contra o mundo, numa marcha rancho magistral (As Veias de Uma Mulher) pelo samba canção e pelo samba de roda, é uma declaração de amor à musica e à vida, numa paixão que só Jo Holtz pode nos proporcionar com seu jeito mais do que encantador. Meu domingo ficou melhor com ela.