domingo, 5 de julho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O VELUDO VERMELHO



Eliza chegou em casa em uma madrugada chuvosa.

Perdera a conexão em Brasília, tendo sido obrigada a ficar na capital federal mais tempo do que esperava; por sorte, já quase meia-noite conseguiu um encaixe de voos que a fez chegar no Aeroporto Internacional do Galeão por volta das três da manhã.



Não resistiu ao cansaço; largou as malas na sala e mal teve tempo de tirar a roupa, mergulhando nua na cama, e assim ficou até as nove da manhã.

Acordou com o som da vibração do celular antes do toque; atendeu e era Lisandro, querendo saber notícias dela; atendeu um tanto contrafeita, mas tinha prometido dar notícias assim que estivesse mais a par das coisas que o pai a incumbira; marcaram um almoço para daí a dois dias; teria tempo, então, de ver a caixa que Albertina tinha confiado a ela.

Tomou um banho demorado, deixando a água cair como massagem, recuperando cada parte de si do cansaço da viagem. O calor da água a revigorava, fazia-a se sentir renovada, com energia pra novos projetos, novas perspectivas, levantava-a para a vida.

Verificou o e-mail, respondendo o que podia em prioridade e deixou algumas coisas para depois; avisara que só iria reencontrar a equipe em quatro dias, pois precisava resolver alguns assuntos pendentes. Somente depois é que prestou atenção à bagagem ainda na sala; separou o que seria lavado do que não tinha sido vestido, mas depois decidiu lavar tudo; tirou um dos sacos da lavanderia do armário da cozinha, preencheu o rol e arrumou tudo para, mais tarde, deixar na portaria do prédio para o pessoal que viria buscar.

Separou com carinho a caixa que Albertina dera, abrindo devagar e cuidadosamente a tampa; tinha receio de rasgar o papelão, mas viu que podia confiar nas palavras da velha senhora, quando disse que o material era resistente. Dentro, um pacote de fotos, recibos velhos e outros documentos. Espalhou tudo na cama, separou documentos de fotos, sem reparar muito em cada grupo; só depois concentrou sua atenção em cada um...




Os documentos revelaram recibos do pagamento dos funerais e exéquias de Antônio Ribeira, desde a câmara ardente até o caixão, debitados a Silvano; antigos cadernos de assentos, com registro de soldos e adiantamentos, numa grafia inclinada e elegante, datados de 1866 a 1872; e, finalmente, uma carta de Silvano a Albertina, informando-a da morte do pai e tomando a responsabilidade dos funerais. 






Mas foi nas fotos que a atenção dela mais se demorou; algumas eram bem antigas, com um tipo de moldura metálica que parecia bem gasta pelo tempo, azinhavrada e fosca; outras eram de um tempo mais adiante, fotos de um casamento, depois de uma família com pai, mãe e duas filhas; Elisa reconheceu rapidamente o avô de Albertina; estavam vestidos como se fossem a um evento social, possivelmente uma festa de família ou mesmo uma missa; lembrou-se da expressão da mãe quando dizia que, ao se arrumar demais, ela estava a usar a “roupa da missa”; viu então fotos mais recentes e reconheceu seu pai, de terno e chapéu inclinado de feltro, ao lado de um senhor de barba branca, numa cama de hospital; no verso da foto, apenas uma menção ao local e à data: “Asilo de Mendicidade, São Luiz, 1955”


Examinou cada uma das fotos com cuidado, temendo estragar o papel tão sensível; numa viu um jovem com uniforme completo, como se estivesse prestes a embarcar para a frente de batalha; em outra viu um soldado armado de lança, escoltando um outro que parecia ser prisioneiro; no verso, apenas datas, entre 1867 e 1870; mas eram apenas algo superficial, que encobria algo mais...



Retirou tudo e descobriu, no fundo, um embrulho de veludo vermelho, preso por uma fita que parecia ter sido da mesma cor, mas que, agora, se esmaecera completamente; desatou com cuidado a laçada, mas, mesmo assim, a fita tanto tempo não tocada desmanchou-se como se virasse pó; desembrulhou receosa o envoltório de veludo, revelando um maço de cartas, amarradas desta vez com um laço de fita branca, de onde pendia um pingente com um coração, uma âncora e uma cruz; lembrou-se da mãe usar um pingente igual, que representava as três grandes virtudes: Fé, Esperança e Caridade; desatou com o mesmo cuidado o laço branco, separando a fita e o pingente e, desdobrando as cartas, começou a ler...


(Continua...)

Crédito das fotos: Google Images


domingo, 28 de junho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - BELÉM - FINAL


O trabalho não rendia.

Por mais que procurasse se concentrar, não conseguia tirar o pensamento da mulher na cama do hospital; precisava entregar o parecer de viabilidade pedido por Emília, mas nada conseguia avançar naquilo que queria; pensou em parar um pouco, dar uma volta, mas sabia que nada daquilo a aquietaria. Os olhos se voltavam para o celular, esperando qualquer notícia da neta de Albertina

Eram exatamente duas horas da tarde quando o celular vibrou e tocou sobre a mesa; Eliza prontamente identificou a ligação e atendeu, o coração acelerado esperando o pior.
- Dona Eliza, sou eu, Jane, neta da Dona Albertina. A vovó acordou e quer falar com a senhora; tem jeito de ser agora?
- Logo estou aí, Jane, é só o tempo de me arrumar e tomar um táxi

Eliza chegou vinte minutos depois , sendo recebida pela médica de plantão, uma moça de cabelos loiros curtos que passou a ela as informações sobre o estado de saúde da velha senhora.
- Ela acordou há mais ou menos quarenta minutos – disse sem pausar a voz – o quadro é estável, mas ela ainda está sem condições de ir nesse momento; precisa ficar mais um dia em observação para que possamos ter certeza de que o quadro se estabilizou completamente.
- Podemos vê-la agora Dra...?
- O meu nome é Laura Doyle; meu plantão se encerra daqui a duas horas; caso a senhora precise de mais informações estarei à disposição.

Eliza agradeceu a atenção e se dirigiu-se ao quarto onde Albertina estava internada; entrou no momento em que a neta arrumava algumas roupas numa sacola, possivelmente para lavar.
- Dona Eliza, que bom que a senhora veio, preciso falar muito com a senhora. É muito importante.
- Imagino que seja, Dona Albertina, mas não se exalte, precisa descansar para se recuperar mais rápido.
- Ligue não pra esses aí de jaleco branco – disse ela apontando para a enfermeira que acabava de entrar – eles não sabem de nada.

A enfermeira, pacientemente, ajustou o tensiômetro no braço de Albertina e começou a bombear, ajustando o medidor para sentir a pulsação; minutos depois levantou a cabeça e sorriu.
- 11 por 7; está muito bem! Logo a senhora vai ter alta - disse no mesmo sorriso.

A enfermeira saiu no mesmo passo silencioso, enquanto Albertina retomava a conversa.
- Eu tenho de pedir o seu perdão, porque eu não contei tudo a respeito da amizade entre o seu pai e o meu avô; fiquei desconfiada que a senhora fosse outro tipo de pessoa e queria paz na minha vida. Me perdoe.
- Não há o que perdoar, Dona Albertina; não dá mais mesmo para confiar em ninguém nesse mundo louco.
- Mas eu devia ter contado que conhecia o seu pai dede o começo, tinha resolvido isso logo.
- Agora isso já passou Dona Albertina, a senhora tem é que descansar.
- Mas eu quero que a senhora fique com a caixa da minha mãe; acho que é melhor que fique em boa mão e prefiro que seja a senhora que fique com ela; tomei a decisão de aceitar a ajuda que o seu pai deixou pra mim, mas não pro meu uso e sim da minha neta; ela merece mais do que ninguém, sacrificando a mocidade pra cuidar de uma velha como eu;
- Resolvemos isso depois; agora descanse.

Despediram-se com um abraço apertado e, logo depois de tomar as informações do estado geral dela pela Dra. Laura, preparava-se para ir embora quando o celular tocou; atendeu rápido sem identificar a chamada. Era Emília, procurando saber se ela precisaria do motorista para o dia seguinte e como estava o andamento do parecer sobre o projeto. Desconversando, Eliza disse que faltavam apenas dois dias para que concluísse tudo, igualmente declinando do motorista. Combinou de ligar assim que estivesse no flat.

No dia seguinte, telefonou para o hospital para saber se Albertina já tinha tido alta; por sorte, os papéis já estavam sendo emitidos e ela iria sair às nove e meia da manhã. Eliza chegou no momento em que ela estava assinando a alta; enquanto arrumavam a bagagem, ela se dirigiu à secretaria do hospital para assinar o pedido de autorização do convênio médico. No mesmo momento, ligou para o banco, onde já iria começar os procedimentos de transferência do dinheiro para a velha senhora.

Quando saiu, Albertina já estava no táxi, apenas aguardando por ela; entrou e deu o endereço ao taxista. As duas não trocaram palavra até chegarem; Jane desceu primeiro, o motorista ajudando a levar a bagagem para a casa, enquanto Eliza ajudava Albertina a descer. Já em casa, levaram-na para o quarto, onde a puseram na cama; já de posse da receita fornecida pelo médico, pediu a Jane o telefone de uma farmácia nas proximidades que fizesse entregas em domicilio. A jovem apontou para um pequeno panfleto sobre o criado-mudo, um anúncio de uma farmácia inaugurada recentemente na rua; lembrou-se então que o medicamento era controlado, a receita teria de ficar retida no estabelecimento; não era longe, apenas duas quadras da casa; voltou alguns minutos depois, já com a caixa de medicamentos nas mãos; quando voltou ao quarto para administrar o remédio, Albertina estava sentada na cama, com uma caixa de papelão coberta por um revestimento que lembrava um papel de parede antigo.
- Esta é a caixa de guardados da minha mãe, Dona Eliza, tudo o que a senhora queria saber está aí, entre esses guardados; fico a perguntar o interesse num monte de coisas velhas.
- É uma coisa que devo a meu pai. Uma longa história.
- Mais uma vez me perdoe por não ter contado o que eu sabia desde o começo, senhora, mas, sabe como é, quando a esmola é demais...
- Não se preocupe. Eu tomei todas as providências para que a senhora receba o dinheiro deixado por meu pai; tenho certeza de que será bem usado.
- Como eu disse, é pra minha neta, uma ajuda pro futuro dela e uma paga por ela ser tão dedicada e cuidar de mim.
- Eu queria que a senhora falasse mais a respeito de como conheceu meu pai, Dona Albertina
- É história comprida, mas eu falo uns pedaços. Seu pai veio aqui faz tempo, eu ainda era solteira, pra falar do meu avô; disse que tinha conhecido ele, que tinha morrido num hospital em São Luis do Maranhão e que estava providenciando um jeito dele ser trazido pra cá e enterrado aqui. De começo fiquei desconfiada, senhora, achando que era alguma pilantragem, até que ele mostrou uma foto do meu avô no hospital com ele, como se tivessem conversando. Ele me disse que quando pudesse iria ajudar de algum jeito. Me espantei quando recebi um telegrama de que o corpo do meu avô estava chegando e que eu devia me preparar para fazer o enterro; tudo foi feito no nome dele, até o jazigo aqui na Soledade; depois ele disse que viria e tentaria ajudar mais; depois disso não tive mais notícia e acabei esquecendo; nem tive tempo de agradecer pelo meu avô. As coisas estão aí, veja no que elas podem ajudar; sou muito grata por cuidar disso;

Eliza segurou a caixa com cuidado, receosa do papelão se desmanchar; sentiu, porém, que estava firme, como se fosse algo mais recente
- Não se apoquente, isso é coisa boa, coisa fina, que não se desmancha fácil como as coisas de hoje;

Eliza sorriu e abraçou Albertina com um carinho que há muito não tinha por alguém; não sabia explicar o gesto, ela tão hierática e formal com as pessoas; aceitou um café que Jane oferecera e sorveu prazerosamente, enquanto conversava de outros assuntos com a velha senhora. Por fim, se despediu dela, mas pediu à neta que mantivesse contato sempre que precisasse; iria ficar ainda mais alguns dias na cidade antes de voltar ao Rio, mas queria saber de cada passo da recuperação dela.

Ao chegar no flat , sentiu uma imensa vontade de nada fazer, de ficar apenas quieta, sem nada pensar ou fazer; tomou um banho, foi para o quarto, deitou-se e, no afã de querer o sono, sem saber nem sequer o porquê, chorou.

O parecer ficou pronto três dias depois, mas chegou igualmente a notícia de que, devido a alguns aspectos não explicados, o projeto teria de ser adiado; Eliza tentou descobrir o que tinha acontecido, mas desta vez encontrou uma Emília evasiva, de expressão contrafeita, como se algo importante não tivesse seguido adiante. Conversaram rapidamente, a outra simplesmente agradecendo pelos serviços e passando o comprovante de uma ordem de pagamento em que reembolsava as despesas que ela pudesse ter feito;

Era um fim de tarde nublado quando Eliza tomou o taxi do flat para o aeroporto de Val de Cans; passou a manhã inteira na casa de Albertina, onde terminou a conversa anterior e entregou a ela o comprovante da transferência do dinheiro deixado por Silvano; abraçou-a longamente na hora da partida, ambas prometendo não deixar de mandar notícias; depois, despediu-se de Jane e tomou o táxi para o aeroporto. Muito mais coisas iriam contar mais histórias....

quinta-feira, 25 de junho de 2015

ESCRITOS AVULSOS - SOMOS TODOS HERÓIS

Hoje levantei fazendo uma reflexão muito interessante; lembrei da pergunta que me fizeram na copa do mundo (assim mesmo em minúsculas, para salientar a importância de tal evento para mim) de qual era a melhor imagem que eu podia usar pra retratar o Brasil; eu respondi de bate-pronto(?!!!) “A Seleção”, vi o sorriso de ufanismo barato que ele me lançou, mas o desarmei dizendo: “um desgoverno, onde apenas um recebe a responsabilidade dos outros dez, e, quando este sai por um motivo qualquer, o resto se desnorteia”.
Eu tinha respondido isso antes do malfadado 7 a 1.
Agora, em nova aventura na copa américa, o salvador da pátria se destempera e novamente abandona o resto do grupo, para desespero dos que ficam, ou seja, sempre, em nossa história, estamos com uma pessoa que, ao atrair tudo para si, cria uma relação danosa de dependência com as esperanças do povo, que podem ser destruídas ao menor gesto errado deste indivíduo, o tão sempre “salvador da pátria”, especialmente se ele abandona o barco, ou simplesmente, não faz o menor esforço para impedi-lo de afundar.
Ainda assim, os jogadores de futebol são os heróis do momento, os ícones da brasilidade; isso serve aos que, buscando qualquer ópio que distraia o povo, aposta nesses levantadores de ibope para mascarar o que realmente ser levado em conta – a devolução do dinheiro roubado aos cofres públicos e a punição dos responsáveis.

O que então fica para nós? Apenas levantar bandeirinhas e fingir que nada acontece porque nos tornamos milhões de técnicos? Nós somos os heróis! Nós, que trabalhamos em corrida contra o relógio, contra a corrosão de salários, o sucateamento e a defasagem da educação e da saúde, a corrupção já quase se tornando institucionalizada; precisamos apenas de, como uma vez ouvi de um senhor num evento, “ter unanimidade por apenas um dia”, e mudar nosso país pra melhor; não deixar a responsabilidade nas mãos de um, que pode simplesmente pouco se lixar para o resto e apenas se beneficiar, mas tomar a responsabilidade do país enquanto cidadãos, sendo de todos a vontade de transformar e mudar para melhor; tomemos então o país das mãos desse desgoverno, e o façamos um país de verdade. Assim agem cidadãos de verdade; esses sim, os verdadeiros heróis

ESCRITOS AVULSOS - INTRODUÇÃO

Caros Amigos

Hoje começo, entre os capítulos da série que escrevo, minha produção de textos avulsos, onde crônica, microcontos e versos irão igualmente fazer parte deste universo blogueiro; de elementos do cotidiano a viagens bem pra lá dos limites, é um cantinho mais livre, de palavras soltas e poesia idem, mas igualmente com um toque de paixão, para que vejam quão longe a palavra pode viajar...
Espero que os todos se sintam à vontade e apreciem. Sejam Bem-Vindos!!!

domingo, 21 de junho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - BELÉM - PARTE V


No dia seguinte não teve tempo para pensar em outra coisa senão nos croquis que Emília havia enviado; imaginava como poderia viabilizar aquele projeto, que tinha, como sói acontecer nesses casos, forte marketing político; a amiga a visitou na parte da tarde, onde aproveitaram para conversar sobre a participação na empreitada.
- Bom, Eliza, não é necessariamente o seu escritório, mas você; quero que você supervisione tudo do começo ao fim, sem deixar um detalhe de lado.
- E quando os trabalhos estão previstos para começar?
- Logo que você examine tudo para dar seu parecer. A licitação foi aprovada, e, nesse caso, você tem de apresentar um orçamento para que tudo fique em ordem e possamos iniciar.
-Precisarei de pelo menos uma semana para examinar tudo. Preciso igualmente examinar os locais que serão de alcance do projeto, para determinar um parecer mais exato.
-Sem problemas, cara amiga; agora, porque não jantamos e falamos de amenidades? Por exemplo, se tem aproveitado para conhecer a cidade, se não se importar, é claro.
- Nem um pouco – sorriu, relaxando a expressão –podemos jantar aqui mesmo? Não estou com muita disposição para sair.
- Vamos encomendar algo para jantar então; conheço um restaurante japonês bem tradicional na cidade, podemos pedir algo de lá.

Eliza assentiu com a cabeça; estava mesmo indisposta, mais pelas coisas que martelavam sua cabeça do que pelo cansaço; adorava comida japonesa e iria aproveitar bem o jantar. Só esperava que a conversa não fosse desagradável...

Emília, de pronto, sacou do celular e discou o número do restaurante; em minutos já havia feito o pedido e ligava para que Jeremias, o motorista, fosse buscar a encomenda, dispensando o entregador. Vinte minutos depois o interfone anunciava a chegada da refeição, que foi muito bem consumida pelas duas, entre conversas entrecortadas. Mais uma vez ela perguntou do passeio, se tinha apreciado as construções da cidade velha e se tinha gostado da atmosfera da cidade. Eliza procurou ser solícita sem necessariamente ser muito explicita, pois sabia que ela quereria saber das visitas ao bairro da Pedreira; mesmo correndo o risco da desconfiança, tinha pedido ao motorista que fizesse discrição do que havia ocorrido.

O jantar tinha corrido bem.

Despediram-se num abraço cordial, combinando para, dentro de dois dias, visitarem o local do projeto; Eliza estava de bom humor e sorria quando acompanhou Emília até a porta...

Na manhã seguinte, não ligou requisitando novamente Jeremias; queria ir na casa de Albertina sozinha, sem qualquer pessoa estranha perto; queria ter tempo de sobra para conversar mais, saber de mais coisas da ligação do seu pai com o avô daquela senhora. Saiu do flat logo depois do café, tomando um táxi de um posto próximo; pediu ao chofer que fosse para o endereço o mais rápido possível, pois tinha um compromisso urgente lá; tinha um pressentimento estranho, um algo dentro de peito que não sabia o que era, mas que crescia à medida que ele achegava mais perto.

Ao chegar viu a neta na entrada da casa, num gesto de ansiedade contida, como se esperasse algo acontecer.
- O que está havendo? Onde está Dona Albertina?
- Ela está muito doente, senhora, liguei pro SAMU mas estão demorando demais; a senhora pode ajudar, por favor? – disse a jovem, os olhos já marejados – ela está assim desde ontem, não sei mais o que fazer.

Eliza então ligou para o serviço médico de emergência de seu convênio, e entrou na casa, guiada pela jovem; logo ao chegar no quarto, conteve uma expressão de horror...

Dona Albertina estava na cama, uma compressa sobre a cabeça, respirando com dificuldade; a expressão parecia ter perdido toda a cor, apenas os vivos olhos verdes pareciam ser mais fortes do que o resto dela; esses mesmo olhos se avivaram mais ainda ao ver Eliza chegar; ela quis gesticular, mas teve suas mãos contidas
- Por favor Dona Albertina, relaxe, o socorro já está vindo

E, como de praxe, a ambulância do convênio chegou bem antes, os paramédicos fazendo o primeiro atendimento e colocando a senhora na ambulância; Eliza resolveu acompanhá-la, o veículo tomando a direção do Hospital Central...

Foram exatamente duas horas de uma espera terrível; Eliza apenas acompanhava o vai-e-vem de médicos e enfermeiras, sem nenhuma nova do estado de saúde de Dona Albertina; entre um e outro copo d’água, ela e a jovem neta compartilhavam a ansiedade por notícias; enfim, um jovem medico trouxe as tão esperadas novidades
- A senhora é a Dona Eliza? – Perguntou calmamente o médico – tenho já o boletim do estado de saúde de Dona Albertina; peço, para que ela se recupere melhor, que a senhora não faça alarme do que vou dizer.

A expressão grave no rosto do jovem médico não era, de forma alguma, portadora de boas notícias; Eiiza concordou e esperou pelas palavras do médico
- Dona Albertina sofreu um sério acidente vascular, causado por um aneurisma; conseguimos contornar o problema, mas não sabemos como ela ficará; ainda é cedo para se dizer se ela terá sequelas ou pode se recuperar de todo; só nos resta agora esperar pela recuperação plena.
- Podemos falar com ela agora doutor? Perguntou ansiosa a jovem
- Ainda não, pois ela está sedada e continua em observação; só podemos deixar que um acompanhante fique com ela esta noite; regras do hospital, espero que entendam;
- Fique então – disse Eliza à jovem – eu preciso descansar um pouco depois de tudo isso; esse é o meu número de celular; me ligue assim que precisar de alguma coisa, eu virei de imediato.

A jovem guardou o número no bolso e acompanhou o médico ao quarto de Dona Albertina; Eliza os viu se afastar até virarem um corredor que conduzia à ala dos apartamentos; depois tomou um táxi de volta ao flat, onde, logo ao chegar, serviu-se de uma generosa dose de uísque com gelo, no intuito de forçar o sono. Sabia que ele iria demorar a chegar.

E, de fato, não chegou

domingo, 14 de junho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - BELÉM - PARTE IV




O cemitério da Soledade tinha um ar de deslocamento em relação à crescente modernização da cidade.
Antes o cemitério central, foi pouco a pouco substituído por campos santos mais modernos e mais afastados; parecia ainda difícil, mesmo com as pretensas cientificidades, pensar na morte como um fator constante, imutável na própria vida; daí a lonjura cada vez maior dos chamados “últimos lugares de repouso”

Eram exatamente sete horas da manhã quando Eliza atravessou o portão de ferro trabalhando em intrincadas volutas, num estilo que não mais se via tão facilmente; percorreu o corredor central sem pressa, pois ainda tinha trinta minutos antes de se encontrar com Albertina. Notou o estilo elaborado e sofisticado de alguns dos túmulos, claramente de famílias abastadas da época; uns muito bem cuidados, com ramalhetes de flores frescas ainda orvalhadas, outros com evidentes marcas de que há muito não vinham entes queridos zelar por eles; andou devagar , notando idiomas estrangeiros nas inscrições, notadamente em inglês, francês e alemão; num deles notou que uma família inteira, de origem inglesa, tinha sido enterrada com diferença de poucos dias, possivelmente vitimados por alguma doença tropical que não tinham defesa; em outro, um jovem que mal completara vinte e um anos, falecido em Paris, tinha sido transladado um ano depois de sua morte e enterrado com os pais, que faleceram um bom tempo depois; ficou a perguntar-se o que o teria levado em tão prematuro viço de idade, quando um leve cutucar tirou-a de suas indagações.
- Bom dia, Dona Eliza, tudo bem com a senhora?
- Tudo bem, sim, Dona Albertina, espero não tirar a senhora de sua rotina vindo nessa hora.
- Não mesmo! Aqui neste lugar de paz poderemos conversar melhor. Não se preocupe, deixei minha neta comprando umas flores pra pôr no jazigo do meu avô e de minha mãe

Sentaram-se num dos bancos de pedra que ladeavam uma pequena praça onde uma grande cruz demarcava o centro geométrico do local, onde a poucos metros, uma capela dominava o restante.
- Fiquei tentando atinar o que o meu avô teria com o seu falecido pai, Dona Eliza, mas não consegui pensar qual razão ; a senhora saberia de alguma coisa?

Eliza, ainda um tanto desconfiada, não quis se abrir imediatamente, mas, assim que a conversa fluiu, ela percebeu que não podia mais ficar apenas tateando para descobrir a verdade; precisava ir direto ao ponto, entre tantas outras coisas.
- Bem, Dona Albertina, ele me disse que o seu avô deixou algumas coisas pra ele, que ele deveria contar a história de tudo o que ele viveu

Albertina sorriu de forma condescendente, com um ar de compreensão veneranda, como um adulto a considerar o deslumbramento das descobertas de um adolescente.
- Minha mãe falava das maluquices dele, de guardar as coisas num baú velho; ela se perguntava pra que ele fazia aquilo; ele dizia que alguém “com mais leitura” que ele iria contar a história de todas aquelas coisas – disse, entre sorrisos – coisa de velho, a senhora sabe.

Eliza ficou em silêncio. Lembrava do pai, com o hábito de guardar a menor tira de jornal que tivesse importância, objetos que, pra ela, não tinham a menor serventia. Apenas assentia com a cabeça enquanto Albertina falava.
- Pois é, minha mãe pelejou muito com ele pra que largasse mão dessa doidice, mas ele nem aí pros falares dela; mas quer dizer que ele então deixou o baú pro seu pai e daí pra senhora; mas que valor ele dava pra isso, pra deixar tudo pro seu pai?
- É o que quero saber, Dona Albertina; o que liga tanto meu pai ao seu avô
- Pouco sei dele, pois eu era menina quando ele morreu; mas tenho muita coisa guardada na minha casa, lembrança dele que ainda ficou lá. A senhora pode tirar um dia e ver tudo; mas lhe digo que vai levar tempo; a única coisa que minha mãe dizia é que ele tinha lutado numa guerra num lugar chamado Paraguai no tempo dele de moço, e olhe que ele morreu muito velho, com cento e tantos anos; venha, deixe eu lhe mostrar onde ele está.



Caminharam alguns metros até uma pequena alameda, onde uma fileira de pequenos túmulos fazia frente com outra alameda onde túmulos mais suntuosos, de clara inspiração europeia, ladeavam um jardim pequeno; de início, Eliza julgou tratar que o túmulo do amigo do pai ficasse nessa extensão de locais mais simples, mas quando Albertina apontou para o local onde ficava a sepultura, não pôde deixar de expressar espanto; o túmulo era típico de uma família abastada, embora desse pra notar que era mais moderno em alguns aspectos , como a grade mais simples e sem mármores encimando a entrada, apenas uma placa de estuque onde se lia “JAZIGO PERPÉTUO DA FAMÍLIA RIBEIRA”. Albertina tirou do bolso do vestido uma chave, que usou para abrir a porta do jazigo; a neta esperava com vários ramalhetes dispostos nos braços; Albertina tomou-os e se dirigiu ao interior do local, onde começou a substituir os murchos pelos frescos. Eliza ia logo atrás dela, notando as placas onde se lia: ”ANTÔNIO RIBEIRA, 01-12-1851/24-08-1956”, depois ao lado se lia: “CECILIA RIBEIRA 02-05-1878/09-09-1885” e , por último, “AMÁLIA RIBEIRA BERGANTIM, 03-04-1874/12-03-1961". Ela reparou no retrato acima da sepultura do amigo do pai; era o retrato da época da Guerra do Paraguai e o mostrava jovem, altivo e com vivos olhos verdes que pareciam devassar completamente quem o fitava; “então este é você, Antônio Ribeira, finalmente o conheço”, pensou, de si para si...







Créditos - Google Images

domingo, 7 de junho de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - BELÉM - PARTE III


O Bairro da Pedreira era um dos bairros mais pitorescos e boêmios da capital paraense.

Conhecido como “Bairro do Samba e do Amor”, sempre teve fama de lugar despojado e de ambientes descontraídos, onde sempre havia gente se divertindo e os bares atraíam muita gente durante os fins de semana


Mas não havia muito movimento nas ruas quando ela chegou, talvez porque fosse ainda meio de semana; só os locais já ensaiando sua diversão. Jeremias percorria o local devagar, prestando atenção aos lugares que se lembrava, para localizar o endereço que ela passara a ele.
- A senhora está certa do endereço, Dona Eliza?
- Estou sim, Jeremias; Travessa Lomas Valentinas 483, a não ser que aquela afilhada dela tenha mentido.
- Não sei não, senhora, aquela mulher parecia ser tinhosa

O motorista continuou guiando devagar, prestando atenção nos números, até que percebeu um sobrado, pintado de branco com azulejos escuros e beiral, destacado das demais casas baixas da rua; conferiu o número e parou em frente; Eliza desceu e tocou a campainha; não demorou muito uma jovem de cabelos negros compridos e olhos verdes veio até a porta.
- Bom dia, estou procurando Dona Albertina Ribeira, ela mora aqui?
- Mora sim, senhora; ela é minha avó; espere um minuto que eu vou chamar,

Eliza fez um sinal para Jeremias de que estava tudo bem; ele já tinha encontrado alguns conhecidos e já entabulava uma conversa, enquanto ela esperava; logo uma senhora de porte altivo, cabelos brancos amarrados num coque, veio até a porta.
- Bom dia, moça, queira entrar; minha neta me disse que a senhora queria falar comigo? Posso saber o motivo?
- Vim da parte de meu pai, Silvano Tomaz, que conheceu um parente seu, Antônio Ribeira. Sua afilhada me passou o seu endereço e lhe manda lembranças
- Ele era meu avô sim, senhora – falou em tom suave, mas seguro, ignorando completamente a menção da afilhada – como o seu pai conheceu ele?
- Faz muito tempo, em São Luís do Maranhão; ao que parece meu pai o ajudou e tinha grande estima por ele.
- Eu era ainda meninota quando ele morreu, mas minha mãe falou uma vez desse amigo dele...como é mesmo o nome?
- Silvano, Silvano Tomaz
- Ah, sim, ela me falou uma vez; um senhor que parecia ser jornalista, não é mesmo?
- Sim, meu pai era jornalista; na época ele ainda era um jovem sem muita experiência.
- E o meu avô era bem velho já naquela ocasião, minha mãe me contava. A senhora aceita um café? Acabei de passar. Mas venha pra sala, a gente conversa melhor
- Vou aceitar sim, obrigada
Eliza observou-a servir o café, cujo aroma era muito atrativo; depois de servir, sentou-se e começaram a conversar.
- Mas o que a senhora traz do seu pai pra mim? Estou ainda meio encafifada.

Eliza tirou da bolsa o envelope que tinha tirado da caixa entregue por Lisandro e falou de todos os detalhes da transferência legada pelo pai em testamento, enquanto sorvia o café; Albertina assustou-se com tudo aquilo, procurando saber o porquê da generosidade daquele senhor, por mais que possa ter sido amigo de seu avô; então lembrou-se de uma das últimas conversas com a mãe falando desse amigo, que tinha mesmo coberto o pagamento do traslado e do enterro do avô no cemitério da Soledade; onde a mãe também estava sepultada.
- Senhora, não me entenda mal, mas não sei se devo aceitar essa generosidade – disse Albertina, espantada com tudo aquilo - é muito para uma pessoa como eu; a senhora viu que minha vida é simples, de aposentada; minha neta mora comigo aqui e me ajuda, a senhora pode ver; não posso me aproveitar do seu pai, mesmo que ele tenha sido muito amigo do meu avô
- O meu pai deixou em testamento esse dinheiro, Dona Albertina, e ele fez questão de que eu pessoalmente entregasse a ordem de pagamento pra senhora; isso foi a vontade expressa dele; uma carta dizia que era uma obrigação que ele tinha com o seu avô.
- Ele foi um homem que lutou muito, senhora – continuou Albertina, recompondo-se do espanto – sempre foi. De jamais deixar faltar nada pras filhas. Ele teve duas, minha mãe e uma tia mais nova, que morreu de cólera ainda menina; minha mãe guardou muita recordação, acho que ainda tenho tudo numa caixa que guardei. Amanhã mesmo vou levar flores na sepultura dele e de minha mãe lá na Soledade. A senhora não quer ficar pra almoçar? Estou fazendo um guisado de frango caipira.

Eliza olhou para o relógio de parede. Quinze para o meio-dia. Ela declinou do convite, mas disse que encontraria Albertina no dia seguinte, se ela não se incomodasse. Queria saber mais sobre a ligação de seu pai e Antônio Ribeira. Iria resolver seu assunto com Emília e iria mais a fundo na história
- Não, não me incomodo não; mas vou pra Soledade logo de manhãzinha, porque de lá já passo pro mercado pra comprar umas coisas pra casa, a senhora sabe.
- Não há problema, dona Albertina, eu a encontro lá; a que horas?
- Cuido de chegar cedo; sete e meia estaria bom?
- Sem problema para mim. Encontro a senhora lá. Obrigado pela conversa e pelo café.
- Desculpe pelo espanto, senhora, mas essas coisas não se dão assim todo tempo
- Eu entendo, não se preocupe. Até lá.

Eliza pediu a Jeremias que a levasse em um bom restaurante no centro; ele a levou a um que ficava perto do Forte do Castelo, de onde tinha sido fundada a cidade; pediu uma refeição leve de frutos do mar para ela e para o motorista e, depois do almoço, pediu que a levasse em casa; teria muito o que pensar...


Já no apartamento, espalhou os croquis pela cama e examinou cada um deles; eram projetos ambiciosos, e, se realmente saíssem do papel, seriam o espelho de uma política sensata de preservação funcional do Patrimônio Histórico; embora admirasse de cara o arrojo do projeto, ela bem sabia que serviria mais pra vitrine política de alguns do que qualquer outra coisa; mas decidiu examinar minuciosamente cada dum deles, a fim de dar um parecer ponderado.

Mas não deixava de pensar um Albertina Ribeira, e na amizade de seu pai com o avô dela...







domingo, 31 de maio de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - BELÉM PARTE II


O interfone tocou exatamente à seis e meia...

Ela já estava pronta, com um vestido de algodão leve e sapatos de salto baixo, que combinavam com a bolsa despojada; fazia calor apesar da chuva de horas antes e ela decidiu por uma roupa mais confortável. Tomou o elevador e, no saguão, o motorista já a esperava.

A Estação das Docas a surpreendeu. Um antigo conjunto de armazéns que se tornou um centro cultural e uma área de entretenimento no centro da cidade, era um espaço que irradiava leveza e arrojo; ela examinou com olhar profissional cada detalhe da construção; os espaços bem arranjados, a harmonia e a simetria do conjunto chamaram a atenção, especialmente o palco suspenso, que se deslocava em toda a extensão do local através de um trilho elevado, dando um original efeito de música ambiente; escolheu uma mesa de onde pudesse vislumbrar todo lugar, pediu ao garçom uma caipirinha e esperou.



Emília chegou quinze minutos depois, vestindo um conjunto de calça e camisa bege e saltos altos; esquadrinhou as mesas vendo se localizava Eliza; quando a viu, acenou efusivamente, sorrindo enquanto se dirigia à mesa onde ela estava.
- Que bom que vieste – disse Emília, ainda com um sorriso no rosto – mas não falemos de negócios agora; vamos curtir o ambiente e conversar um pouco sobre outros assuntos.


Falaram quase duas horas sobre muita coisa, desde velhas amizades de faculdade, antigos colegas e o casamento de Emília, que foi na época o grande acontecimento; ela e Eliza não eram tão próximas naquele tempo, o que fez com que a conversa fosse quase um monólogo, com Emília desfilando acontecimentos não muito lembrados por Eliza, que às vezes dava sorrisos forçados no meio do quase monólogo; gostou demais do local, mas a companhia estava por demais difícil; num movimento para desviar o assunto, pediu um favor a Emília.

- Você pode me emprestar seu motorista para amanhã? Queria dar uma volta pela cidade; depois poderemos conversar sobre o projeto.
- Você manda! Que horas quer que ele apanhe você?
- Poderia ser pelas dez da manhã? Eu agradeceria muito.
- Com certeza! Ele igualmente vai levar alguns croquis, para que depois possas dar uma olhada; podemos marcar a conversa de negócios para depois, tudo bem?
- Sem problemas, eu agradeço muito.

Tomou um taxi de volta ao apart e tentou organizar as ideias para saber bem o que fazer no dia seguinte; no envelope deixado pelo pai, constava um endereço no centro da cidade, que parecia aparentemente fácil de localizar; iria tentar fazê-lo no começo da manhã. Chegou no apartamento e tratou de tomar um banho para relaxar; assistiu um pouco da programação televisiva local e, minutos depois, adormeceu.

Eram mais ou menos cinco minutos para as dez quando o interfone tocou, o porteiro avisando que o motorista estava à espera; já pronta, tomou o elevador sem demora e o encontrou no saguão; era um motorista diferente do primeiro; tinha a expressão mais solta, diferente do sisudo que a recebera no aeroporto; se apresentou como Jeremias Belo, motorista pessoal de Emília.
- Bom dia senhora – disse com um sorriso espontâneo – seja bem-vinda. A dona Emília disse que a senhora vai precisar de mim o dia inteiro; ela pediu que deixasse isso com a senhora, pra ver depois
- Muito obrigado - respondeu ela, recebendo os croquis e deixando na portaria – o senhor conhece bem o centro da cidade?
- Nascido e criado aqui em Belém, senhora; eu era taxista defensor antes de começar a trabalhar para Dona Emília; onde a senhora quiser ir eu levo.
Ela então puxou um pedaço de papel do bolso da calça e mostrou a ele; o motorista sorriu em resposta.
- Conheço esse lugar sim senhora. O quarteirão é o único pedaço do lugar que não virou prédio; posso levar sim, a senhora lá.

- Eu agradeço muito Jeremias; é um assunto de família que tenho de resolver,
Ela entrou no carro e acomodou-se no banco da frente, para espanto de Jeremias, que nunca tinha visto a patroa sentar na frente; “cada um com seu cada um”, pensou, lembrando do genro, carioca como a amiga de sua chefe.



A avenida Almirante Tamandaré estava com o trânsito cheio, mas fluía bem; os prédios já faziam cada vez mais presença na cidade, misturados com algumas casas antigas ainda sobreviventes; prestando atenção nos números da avenida, logo divisou um grupo de casas geminadas antigas, que pareciam fazer parte de uma antiga vila; bem conservadas, alguma tinham caramanchões e vasos com plantas ornando as janelas. Jeremias então apontou para a última da calçada, pintada de azul claro, com a moldura branca nas janelas.
- O número é esse, senhora; se a senhora quiser eu posso bater lá pra ver se tem gente.
- Não precisa Jeremias, eu mesmo vou; mas obrigado da mesma forma.

Desceu do carro e se dirigiu à porta, de onde bateu palmas; minutos depois, uma jovem de cabelo curto, pele morena e olhos amendoados apareceu na janela; olhou de cima a baixo a mulher do lado de fora.
- Bom dia! É aqui que mora dona Albertina Ribeira?
- Ela não mora mais aqui não; ela se mudou ano retrasado, mas posso chamar minha tia, que foi quem comprou a casa dela.

A jovem entrou sem pressa. Enquanto isso, Jeremias estacionava o carro em uma esquina próxima. Cinco minutos depois outra mulher, de olhos verdes e cabelos cacheados, apareceu na janela com um ar curioso.
- Desculpe, senhora, mas minha madrinha não mora mais aqui, ela me vendeu a casa e se mudou; o que a senhora deseja com ela?
- É um assunto do interesse dela, pois o meu pai era conhecido de sua madrinha e deixou algumas coisas em testamento – respondeu, apenas em parte – tenho de saber do paradeiro dela.
- Espere um minuto, eu vou abrir a porta – saiu apressada
Ela desceu e abriu o portão, pedindo que Eliza entrasse. Abriu a porta e ofereceu uma cadeira, mas ela não tinha muita intenção de se demorar;
- A sua sobrinha me disse que ela se mudou ano retrasado; eu poderia saber para onde ela se mudou? É muito importante
- Claro que sim. Ela vendeu a casa porque não queria ficar no meio dos prédios. Eu disse pra ela que ela podia pegar um bom dinheiro, mas ela não quis me ouvir; as construtoras já me ofereceram muito pela casa mas eu prefiro esperar pra ver o preço subir. Eu sei o endereço novo dela; espere um minuto

Elisa examinou o interior da casa, vendo os móveis desarrumados e as roupas espalhadas pela casa; a jovem que a atendera primeiro estava deitada no sofá, ouvindo rádio com os fones no ouvido; tudo recendia a desleixo e displicência. A tia retornou com caneta e papel, anotando o endereço numa letra arredondada e grande
- Está aqui; espero que ela esteja bem, não nos falamos desde então; diga a ela que mande notícias.
- Eu direi, não se preocupe.
Ela saiu da casa e lá estava Jeremias, encostado no carro, como se antecipasse a saída.
- A senhora descobriu o que queria?
- Mais ou menos, Jeremias; você conhece esse lugar? – perguntou, mostrando o endereço ao homem.
- Opa se não, senhora! Morei muito tempo na Lomas Valentinas, no bairro da Pedreira, e conheço ainda bastante gente lá; a senhora quer ir agora?
- Quanto mais cedo melhor, com certeza.
Entrou no carro ansiosa, pois logo começaria a desvendar a história dessa tão misteriosa mulher na vida de seu pai...



Imagens: Google/Flickr

domingo, 24 de maio de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - BELÉM - PARTE I


A cerimônia de inauguração havia sido um sucesso.

Os lofts tiveram uma grande aceitação e estavam sendo muito aceitos como um novo conceito de revitalização do Centro; impressionaram mesmo o pessoal da Secretaria de Patrimônio, acostumado a torcer o nariz diante de inciativas que não partiam de lá.


Entre um sorriso e outro e boas rodadas de champanhe, ela colhia o fruto daquele sucesso; dessa vez, deixou a atitude reservada que sempre tinha nessas horas e juntou-se à equipe; gracejou, tomou algumas taças a mais; percebendo, porém que isso iria deixá-la incapaz de dirigir, deixou o carro na garagem do prédio recém-inaugurado e foi para casa de táxi.

Ao chegar, o mesmo ritual de chegar com os sapatos na mão, parte das roupas jogadas no sofá e o resto na cadeira perto da cama; tirou o resto da roupa e meteu-se no chuveiro, deixando a água não tão quente, para reanimá-la e a recolocar no esquadro. Como era sexta, não armou o despertador para acordá-la à seis e meia, como de costume; queria esticar o sono, acordar mais tarde; não tinha nada para fazer no dia seguinte, mas uma inquietude a açodava; mesmo assim, forçou-se ao sono.

Não cumpriu a promessa; exatamente às seis horas já estava sentada na cama, mas não tinha a sensação de noite mal dormida que antevira; acordara disposta, como se algo a espicaçasse para fora da cama.

Ainda de pijama, foi até a sala e deparou com o recanto de seu pai, ainda do jeito que ele o deixara da última vez; tentara conciliar os interesses dele com os dela, mas simplesmente o projeto consumira seu tempo e não dera muita atenção àquela miscelânea de objetos e documentos dentro daquele baú; lembrou-se da carta do pai, pedindo que se desse o devido tratamento para aquela coleção de coisas que, se para ela eram apenas objetos aleatórios, para ele eram a razão de uma vida.


O celular quebrou o silêncio do início da manhã, quando ela levava a xícara de café à boca; interrompeu o primeiro gole e atendeu.
- Bom dia Eliza, desculpe te ligar tão cedo, aqui é Emília, sua velha amiga de curso; desculpe, vi seu nome no noticiário e não resisti em entrar em contato; um de seus funcionários me deu seu celular;
- Sem problemas, Emília – disse em um tom que tentava disfarçar a contrariedade – Sempre bom que os amigos liguem de vez em quando; no que eu posso te ajudar?
- Bom, meu chefe igualmente viu o seu trabalho mais recente e ele tem grande interesse nele; na verdade ele gostaria e te contratar para um projeto aqui em Belém do Pará, nos mesmos moldes do que fizeste aí no Rio
- Teria de ver as condições e o contrato para dar uma resposta, Emília; podes me ligar em mais ou menos dois dias?
- Sem problema, eu ligarei; mas pense com carinho na proposta.

Desligou o celular ao mesmo tempo em que o atirava no sofá e voltava para cama, rememorando a voz da pessoa que telefonara; só depois ligou o nome à figura; tinham sido colegas na faculdade de arquitetura, mas a tal largara o curso dois semestres antes de se formar pra se casar com um jovem político em ascensão, cuja família era amiga da dela; lembrou do convite enviado, entregue pelo pai quando ela estava de viagem marcada para Amsterdam, onde iria participar de uma comissão de arquitetos; nem se dignou a responder, apressada que estava para tomar o voo; viu depois a cobertura pelo jornal, a prodigalidade da festa , que muitos murmuraram que tinha vindo de “presentes” dados por empresas em troca de favores; nada , porém, foi provado. Ainda assim, tinha uma pulga atrás da orelha...

Não conseguira dormir novamente e o domingo foi de mais inquietação; arrumou a sala, mexeu em algumas coisas do recanto do pai e foi então que notou o envelope deixado na estante da última vez que mexera nas coisas dele, após o encontro com Lisandro. Pegou-o e começou a esvaziá-lo; num estalo de intuição, verificou o testamento do pai, até que viu a cláusula que despertara a intuição; nela, ele deixava uma quantia em dinheiro para uma mulher chamada Albertina Ribeira, residente em Belém do Pará; a quantia, já separada do montante financeiro dele, teria de ser transferida pelo herdeiro, no caso, ela...

A ex-colega ligou no fim da tarde.

A conversa girou em torno dos objetivos do projeto, que era quase do mesmo tipo do que o escritório concebera no Rio, mas era apenas uma parte de algo mais ambicioso, a revitalização da Cidade Velha, que era o grande centro comercial nos tempos áureos da borracha; a intenção era usar os prédios como sedes de escritórios, prédios de apartamentos – aí ficava a parte dela – e opções de turismo. Ela pediu uma prévia da parte que caberia ao escritório no projeto, para que desse um aval de viabilidade e só assim aceitaria; em minutos, ela recebeu um plano detalhado, com todas as etapas do projeto e alguns croquis; a ideia a atraiu, mas ela queria examinar mais. A colega fez a oferta final.

- Olha, você pode ver a coisa mais de perto, examinar sem compromisso e aí dizer se aceita ou não; não é uma boa proposta?

Ela finalmente aceitou; iria mais uma vez tentar conciliar as coisas que seu pai lhe pedira e as obrigações profissionais dela; mas algo mais a impulsionava; algo que, dentro dela, dizia que deveria ir mais fundo naquele mistério deixado pelo pai...

A lufada de calor a atingiu logo que desceu a escada do avião no aeroporto de Val de Cans; o calor e a umidade eram muito grandes, fazendo-a enrolar as mangas da blusa ao passar do avião para o túnel de desembarque; vislumbrou das vidraças do corredor a paisagem do aeroporto, distante do centro da cidade; o céu estava nublado, mas não havia vento e o calor aumentava em ondas, fazendo-a transpirar.

O ar condicionado foi um alivio, ao sair da área de desembarque e entrar no saguão do aeroporto, já com a bagagem liberada; viu a placa com seu nome logo antes da saída, segurada por um homem de camisa branca e calças jeans, com o emblema da construtora que a contratara; acenou e ele prontamente tomou conta da bagagem, conduzindo-a para o veículo que a esperava do lado de fora; entrou, recostou-se no banco e observou mais uma vez a paisagem que se descortinava, uma paisagem de espaços ainda não ocupados entre o aeroporto e a cidade.

O centro de Belém a impressionou; a mistura entre os velhos palacetes e prédios modernos era bem evidente, com o avanço cada vez maior dos segundos; a cidade estava com o transito caótico, devido ao constante fluxo das obras de revitalização; imaginou como seria na época áurea da borracha, quando apenas os grandes palacetes dominavam a cidade; seus pensamentos foram de súbito interrompidos pelo barulho da chuva, que caía torrencialmente.



Chegaram ao prédio ainda com a chuva caindo, mas já com sinais de amainar; o motorista mostrou a identificação do estacionamento e o carro entrou lentamente na garagem, estacionando na primeira vaga da esquerda; depois de descer e já tendo em mãos a bagagem descarregada pelo chofer, ele levou-a até o elevador e disse a ela que o apartamento ficava no oitavo andar; depois, entregou a chave e se retirou.

O apartamento era amplo e confortável, com uma grande sacada que se abria para uma interessante vista da cidade; ficou alguns minutos contemplando a paisagem, completamente diferente do Rio, sem muitos espigões e ainda muitas casas ao redor; depois de desarrumar as malas, viu um pequeno pedaço de papel dobrado em cima da mesa de jantar; desdobrando-o viu que era um recado de Emília, que dizia : “O motorista vai te buscar por volta das seis e meia; nos vemos na Estação das Docas às sete; Abraços Emília”




Deixou o pedaço de papel de volta na mesa e se preparou para tomar um banho e descansar um pouco; daqui a algumas horas iria ao encontro de Emília, mas era também o começo de outra coisa.

Iria saber mais sobre Albertina Ribeira...

(Continua…)

Imagens: Arquivo Google





sexta-feira, 15 de maio de 2015

CONTOS DA GUERRA ESQUECIDA - O SUBSTITUTO - PARTE FINAL

Tirou a barretina e enxugou o suor com um lenço.

Fazia tempo que ele estava ali, de vigia na avançada, observando a linha paraguaia.  Nem sequer um movimento se divisava, nem mesmo uma coluna de fumaça de um fumante incauto; hora atrás de hora, sem um pio que valesse, fora o dos trinca-ferros que, tempo em tempo, se apresentavam com seu trinado.

Lembrou-se do lacônico telegrama enviado ao pai: “Pai, parto pra guerra; faça o que quiser; Seu filho Jerônimo”; não esperou o resultado; engajou-se num dos batalhões de voluntários que pululavam na cidade, tomando um nome falso para se alistar; fez o juramento, um tanto envergonhado por fazê-lo com um nome que não era o seu; ainda assim assinou, tomou o enxoval de recruta e não demorou muito para que fosse enviado pra zona de guerra, num navio da marinha que os levou até as avançadas de Curupaiti, que guardavam a até então intransponível fortaleza de Humaitá; chegou depois do fim da batalha, vendo o estrago que as tropas haviam passado; olhou de um lado a outro e só via mortos, feridos e desesperados aos magotes; seu regimento tomou a direção de um grupo de tendas que os aguardava; o oficial comandante, coronel Morgado, lidava com uma pilha de papéis; ouviu os passos do grupo e apenas levantou os olhos enquanto o sargento batia continência.
- São os novos voluntários, sargento Cecílio? – perguntou, lançando um olhar de pouco caso ao grupo.
- Sim, senhor, chegados de fresco. De São Paulo, de Minas e do Rio de Janeiro
“Mais carne pra canhão”, pensou o coronel, antes de passar em revista o regimento; ainda traziam os uniformes novos de parada, como fossem se apresentar numa quermesse ou coisa que o valesse; examinou-os de alto a baixo, vendo o estado geral da tropa; podia ver que muitos, ali, se desesperariam ao ouvir o primeiro canhonaço ou correriam na primeira fuzilaria que vissem pela frente.


Menos um.

O coronel Morgado notou o porte altivo, a altura expressiva, o rosto de olhar firme e determinado, diferindo dos outros praças; percebeu a coragem na fisionomia impassível e a tendência de liderança, de comando, no rosto daquele homem
Nome, recruta?
- Tibúrcio Moura, senhor – Jerônimo respondeu, mentindo sobre o próprio nome
- De onde vens?
- São Paulo, senhor
- O que o trouxe aqui, recruta Tibúrcio?
- Quero lutar, senhor, matar muitos paraguaios – disse rispidamente, evitando falar de idealismo
- É o que vai aprender aqui, soldado – disse o coronel com igual rispidez – deixe-me ver suas mãos
Jerônimo-tornado-Tibúrcio estendeu as mãos para o coronel; o oficial viu as mãos bem tratadas, mãos que jamais tinham feito um esforço além de carregar penas e livros; possivelmente mais um ginasiano ou quartanista que queria se provar, brincando de soldado; o olhar firme e duro, porém, dizia outra coisa,
- Pois bem, soldado, aqui terá a sua chance. Só que de um jeito diferente do que pensou; Sargento Cecílio!
O sargento veio correndo , segurando a barretina com a mão esquerda; bateu continência e ficou em posição de sentido , esperando ordens.
- Sargento Cecílio, este homem será a partir de agora responsável pelo comando de uma das colunas do regimento; soldado, agora em diante és o alferes Moura; o sargento será seu segundo em comando na terceira coluna do nosso regimento.

O Sargento ficou simplesmente estupefato; não questionou as ordens do coronel, pois não cabia a ele fazê-lo, mas, no seu estupor, ficou se perguntando o que aquele almofadinha, que ele duvidava que soubesse pegar em um rifle, podia fazer no comando de uma coluna; mas desde que o alferes Martins morrera em Curupaiti, a coluna não tinha oficial em comando.
- Senhor, me acompanhe, vou apresentar o capitão Curvelo, nosso oficial intendente; ele vai indicar o seu alojamento, já que o senhor não vai fiar mais com a tropa.
Jerônimo acompanhou o sargento até uma tenda maior, onde alguns oficiais relaxavam e tomavam mate ou café, enquanto outros jogavam cartas. O capitão Curvelo estava em mangas de camisa, limpando um par de pistolas sobre uma mesa de madeira apoiada em quatro caixas que, Jerônimo notou, eram de munição.


- Capitão Curvelo, esse é o alferes Moura, mandado pelo coronel Morgado- falou o sargento enquanto entregava um envelope ao capitão – ele ordenou que o senhor o alojasse
- Certo, sargento, eu cuido dele a partir daqui – respondeu sem muito ânimo, enquanto dispensava o homem.

O capitão indicou a Jerônimo um tamborete, ordenando que esperasse; depois de mais de uma hora e meia, pediu que o acompanhasse até uma tenda vizinha, onde uma mesa, uma cadeira e um catre estavam à espera; sobre a mesa, um tinteiro e algumas folhas de papel estavam dispostas sem muita ordem.
- Essa é a sua tenda alferes, organize-se e depois se apresente. O cabo Balbino chegará para tirar as medidas de seu novo uniforme.
Não demorou muito um mulato baixo, num empoeirado uniforme com divisas douradas, chegou e apresentou-se como o cabo Balbino; trazia uma régua de onde tirou as medidas de Jerônimo para o uniforme; junto trouxe o cinto com o talim do sabre, o coldre e a pistola, um Colt de cabo de madeira que Jerônimo postou sobre a mesa.


Dois dias depois, de uniforme e armas, apresentou-se ao coronel Morgado, que novamente o olhou de alto a baixo; o uniforme assentou bem, realçando o ar de autoridade que o coronel já havia percebido.

-Muito bem, alferes, sua primeira ordem é tomar conta do perímetro sul das avançadas; não podemos deixar que os paraguaios ganhem terreno e rompam o nosso cerco. Olho vivo, pois o inimigo de vez em quando manda piquetes de infantaria para testar nossas defesas. Alguma pergunta?
- Nenhuma , coronel, ficaremos alerta.

Colocou novamente a barretina na cabeça, perscrutando o horizonte; já ficara escolado depois de repelir duas investidas de piquetes paraguaios, que se aproveitavam do crepúsculo para se aproximar sem ser percebidos; somente o olhar alerta já havia salvado a posição, respondendo prontamente ao ataque e mantendo o terreno conquistado. Seriam rendidos somente em sete dias, quando novas tropas chegariam.

As novas tropas chegaram uma semana depois do previsto, artilharia, infantaria e cavalaria descansadas e prontas para combate. Depois dos arranjos de alojamento e das formalidades de rendição, passaram pela revista dos oficiais; de repente, Jerônimo reconheceu uma figura familiar; logo viu que era seu substituto, que vinha assumir o lugar da unidade que comandava. O homem fez uma expressão de estupor, mas Jerônimo fez um sinal para que se acalmasse.
- O que faz aqui ? – perguntou em um tom quase insolente, mas vendo as divisas de alferes, empertigou-se e bateu continência.
- Eu reconsiderei minha decisão, apenas isso. E não me chame pelo meu nome, me alistei com outra identidade
- Não revelarei seu disfarce, não se preocupe; não sou eu que estou sendo tolo – respondeu em tom ríspido

De volta à tenda, Jerônimo novamente mergulhou em pensamentos; não sabia se amaldiçoava ou se agradecia ao destino por cruzar o caminho com seu substituto, pois, intimamente, talvez até desejasse tal acontecimento; mas ficava se perguntando se deveria ou não, se lembrando da família que o tal deixara para aceitar ser substituto e pagar dívidas, colocar aquele homem sob suas vistas, no intuito de tentar salvá-lo...
Luiza passeava com Izolina quando uma carta chegou, trazida por um espavorido estafeta; a mucama recebeu o envelope e entregou à jovem, que imediatamente reconheceu a caligrafia elegante de Jerônimo; afastou-se pra ter alguma privacidade e leu rapidamente a carta. “Sabia que faria isso”, pensou ela, dobrando com algum nervosismo o papel e guardando-o na mão fechada.
- A senhora tá bem, sinhá? – perguntou a mucama, desconfiada com a mudança repentina
- Estou sim, Izolina, apenas carta dos amigos de Jacareí, Nada para se preocupar
De volta em casa, procurou disfarçar a preocupação, mas dentro dela o coração queria explodir; imaginava como ele poderia estar, se ferido, perdido ou mesmo...não completou o pensamento; antes de mais nada, tomou o terço e começou a rezar baixo, mas com todo o fervor que possuía. Mais do que nunca o queria de volta, vivo.


Jerônimo foi o único dos oficiais que decidiu ficar com a coluna de rendição; tinha decidido ficar de olho em Jonas, e assim o faria; colocou-o ao lado como cabo e ordenança, sem mais explicações. “Isso é uma ordem e não se discute”, dando por encerrado o assunto.
Os paraguaios tinham mudado de tática; agora se infiltravam pelos canais do rio, que alcançavam a retaguarda perto das avançadas; já tinham neutralizado vários postos de vigia ao longo da margem e nos esteiros próximos, numa guerra de fustigação que sempre preocupava; silenciosamente, chegavam em canoas, degolavam as sentinelas e tocavam fogo em suprimentos e víveres; Jerônimo organizou então patrulhas esporádicas de dez homens, que ficavam de encolha na margem esperando chegar alguma embarcação suspeita; por causa disso, vários ataques já tinham sido contidos sem ameaça para as colunas de suprimento; mas Humaitá continuava intransponível, pois a frota aliada, por não ter conhecimento sobre a calha do rio, receava perder os navios ao dar apoio mais próximo à tropa; além da fortaleza, várias chatas artilhadas, ancoradas na margem do rio, fora da vista dos vigias navais, cobravam um alto preço às embarcações que tentavam sondar a profundidade daquelas águas.



Entre uma patrulha e outra, Jerônimo e os demais aproveitavam para relaxar, beber e fumar, além de ouvir modas dolentes daqueles que sabiam dedilhar o violão ou a viola; sentado no chão, ele bebia o mate, costume que aprendera com os soldados argentinos que uma vez se aquartelaram no local; apreciara o gosto amargo e a temperatura, e desde então o mate era parte do dia-a-dia.


De manhã cedo, ele juntava um grupo e ia esquadrinhar as margens do rio e os esteiros das proximidades; ficavam de olho em chatas armadas e canoas com incursores. Um brilho na margem chamou a atenção; aproximando-se com cuidado, divisou um sargento paraguaio, chiripá listrado e túnica vermelha, se aprumando com mais cinco soldados no barranco, carregando as armas e preparando archotes; tirou do coldre o Colt e o engatilhou devagar, procurando não fazer muito barulho; fez um sinal aos homens para que engatilhassem os rifles e ficassem preparados; um tiro porém, quebra o silêncio e começa um tiroteio que pega os paraguaios de surpresa; o sargento, varado abaixo do olho direito, caiu sem nem sacar a pistola. Os outros tentaram correr, mas foram pegos no fogo cruzado. Jerônimo, passado o calor da refrega, viu Jonas numa arvore logo atrás dele, já querendo chamar o homem de covarde, quando viu um paraguaio caído, ainda com o machete na mão; olhou para cima e agradeceu ao ordenança que, com certeza, salvara sua vida.



Os dias restantes foram de recrudescimento de atividade, com ataques e contra-ataques furtivos, sem real engajamento de tropa; escaramuças eram frequentes e nelas perdiam-se soldados de ambos os lados; numa delas morrera o argentino que tanto divertia a tropa com seu violão, baleado na cabeça por um riflero paraguaio; em outra, Jerônimo fora ferido por um golpe de machete que não foi fatal porque o sabre aparara um tanto a força do ataque, mas não o suficiente; Ainda assim , seus olhos não desgrudavam dos de Jonas, ainda no escopo de leva-lo de volta vivo.

Então, depois de um longo cerco, a poderosa Humaitá foi tomada, mas Solano Lopez fugira, com seus oficiais mais graduados e a mulher, Elisa Lynch, deixando a guarnição sem pólvora nem suprimentos; Jerônimo e Jonas foram os primeiros a adentrar a fortaleza, virando e revirando tudo em busca de armadilhas ou de algum retardatário que fosse causar encrenca. Depois de assegurar-se de que não havia nenhum perigo, o resto da tropa, comandada pelo Marechal Luis Alves de Lima e Silva, Marquês de Caxias, adentrou no recinto do forte. Assunção agora, estava sem defesa.

Luiza estava sentada quando o estafeta trouxe os jornais, que estampavam a notícia da vitória em Humaitá; “não deve demorar mais”, murmurou enquanto o pai lia as novas; não se falava em outra coisa na cidade, todos esperançosos de que a guerra terminasse logo e os pais, filhos, noivos, namorados e maridos voltassem. Como sempre fazia, tomou o terço e rezou pela proteção do homem que amava...

Mesmo com Humaitá tomada, o trabalho de limpeza ainda continuaria; ainda existiam bandos de soldados desgarrados, prontos para incursões furtivas; com o fim da ameaça das chatas artilhadas, os barcos de sondagem puderam prospectar a calha do rio e os navios da frota puderam seguir adiante; dando apoio mais cerrado à tropa que avançava.  Jerônimo, promovido a primeiro-tenente, comandava uma tropa de infantaria montada cuja missão era bater as imediações da barra do Timbó, numa das curvas do Rio Paraguai, em busca de possíveis bolsões de resistência; grupos de soldados paraguaios tentavam atrasar o avanço das tropas aliadas, fazendo emboscadas e incendiando plantações para fazer parar a tropa. Jerônimo via os fogos nos campos e a destruição ao redor com pesar; mesmo sabendo que poderia ser morto se se descuidasse, não deixava de ter pena dos camponeses, que perdiam as colheitas que lutaram com esforço para cultivar.

Sentiu como se fosse uma ferroada, uma queimadura atravessando o lado; não ouvira o tiro; levou a mão e viu o sangue aos borbotões, as forças faltando; Jonas, cavalgando logo atrás, o viu cair e correu na direção dele; caiu na relva de costas, a mão no lado, tentando conter o sangue; Jonas arrancou o lenço que trazia no pescoço e tentou fazer uma bandagem, mas foi atingido no ombro, a bala arrebentando a clavícula e fazendo-o igualmente cair...

Luiza sentiu a dor da picada da agulha como se fosse uma punhalada; jamais errara um ponto de bordado, desde quando a mãe a ensinara; viu o sangue escorrer na ponta do dedo e pingar sobre a toalha e o bastidor; correu para o quarto, lavou o ferimento, sentou na cama e tentou conter o medo daquele momento; para ela, só podia ser o presságio de algo muito, muito ruim...

Acordou ainda no campo, vendo os paraguaios despirem os mortos e  matarem os feridos; procurou Jonas , caído ao lado dele, e o sacudiu, tentando despertá-lo; tomou o pulso e viu que ainda estava vivo; tocou o lado e viu a bandagem improvisada que ajudara a estancar o sangue; estava fraco,, mas tentaria se defender; a  emboscada fora bem feita, com os paraguaios usando o mato alto para escondê-los; viu um dos soldados se aproximar enquanto os outros, findo o saque , se afastaram; fingindo-se de morto, esperou que ele chegasse perto e, quando o soldado ia virá-lo pra ver o que conseguia saquear, recebeu um golpe de baioneta que varou o peito, matando-o no ato. Usando as forças que ainda restavam arrastou-se, junto com Jonas, por entre os outros cadáveres, escondendo-se de uma possível nova emboscada.

Agora erravam pelo campo, vendo se avistavam alguma unidade aliada nas proximidades; eram as primeiras escaramuças da batalha do arroio do Avaí, a última tentativa do exército de Solano Lopez de deter os aliados; Jerônimo ouviu os canhonaços à distância enquanto amparava Jonas; encostaram-se numa árvore próxima e esperaram o desfecho da batalha...

A patrulha de cavalaria os achou enquanto procurava piquetes dispersos do inimigo, escondidos no campo; Jerônimo reconheceu as flâmulas nas lanças; eram cavalarianos gaúchos, ponta de lança da tropa do general Osório; o chefe do piquete, um sargento de barba cinzenta, reconheceu Jerônimo apesar do uniforme surrado.
- Bom ver o senhor, tenente Moura. O resto da tropa da montada o dava como morto há dois dias.
-Dois dias?
- Sim, meu tenente. – continuou o cavalariano aos arrancos – Estamos quase em Assunção; o danado do Solano Lopez fugiu de novo. Demos a eles uma surra de exemplo, mas o velho General Osório foi ferido, o cachaço arrebentado a bala.


Jerônimo imaginou como deveria ter sido; Osório era conhecido por não se furtar aos perigos da batalha, tendo sido várias vezes ferido, mas dessa vez parecia ser sério, o que tiraria um dos bons comandantes fora de combate por muito tempo. Ele e Jonas pegaram garupa com o piquete e foram conduzidos ao hospital de sangue do acampamento avançado.

Foram dias entre delírio e agonia, o ferimento ameaçando supurar e matá-lo; segurou firme a medalha do Menino Jesus de Praga que ela lhe dera; queria viver para ela; não pôde dizer o que sentia, a não ser naquele beijo há muito roubado; não sabia o que iria acontecer, mas aguentou firme e segurou-se à vida...

A luz do castiçal invadiu o quarto no momento em que ela já se entregava ao sono; a mãe chegara pé ante pé, achando que ia apenas velar o sono da filha, mas a encontrou sentada na cama, o terço na mão direita, num aperto firme.
- É por aquele moço de Jacareí, não é, Luiza? – perguntou receosa a mãe – coração de mãe não se engana, eu sei.
- É sim, mãe; não posso negar isso da senhora, eu o tenho no coração e na alma e nós quase nem sequer nos falamos, exceto por um momento tão especial...
A mãe levou a mão à boca, numa expressão de espanto e desaprovação, mas a filha acalmou-a.
- Não ocorreu nada do que a senhora está pensando, mãe – disse num sorriso – embora não vou negar que poderia acontecer – apenas tivemos um beijo num impulso, nada mais.
A mãe deu um suspiro de alívio. Sabia que a filha era de personalidade forte e lutava pelo que queria; ficava mesmo assim sempre alerta, com medo de algum “mau passo”.
- Melhor, minha filha, não quero nunca que desgoste seu pai.
- E eu jamais o faria , minha mãe; amo-o demais para fazer para ele essa desfeita; mas não vou mentir quando digo que me senti levada a me entregar se assim acontecesse, porque eu amo Jerônimo, minha mãe.
- Vejo isso nos seus olhos à simples palavra do sentimento, minha filha. Sei bem do amor como falas; estás apaixonada e vais lutar por esse amor.
Dito isso, beijou a filha e deixou-a dormir.

A febre cedera.
A primeira visão que teve foi a da azáfama constante de médicos e enfermeiros indo e vindo, a pilha de membros amputados a dez passos da sua cama, atendentes trazendo clorofórmio e instrumentos cirúrgicos que tilintavam a cada passo.
- Ora, o senhor acordou; muitas novas para contar, tenente – sorriu Jonas – muitas novas.
O sargento contou as novidades: Caxias não estava mais no comando do exército aliado, agora majoritariamente brasileiro; o comando passara ao genro do Imperador, o conde D’Eu, marido da filha mais velha do monarca, a princesa Isabel; Solano Lopez fora derrotado mais uma vez em duas batalhas sucessivas, em Peribebuí e Campo Grande, mas escapara antes do cerco se fechar; Assunção já estava ao alcance das mãos, mas uma quantidade ainda significativa de tropas resistia no arroio Aquidaban, mas era questão de tempo.
- Onde estão os outros, Jonas? - Perguntou do resto da tropa.
- Quem bala não levou, o cólera pegou, tenente, só restaram o senhor, eu e o cabo Moreira, que perdeu o pé direito.
Tentou se levantar, mas a dor nas costelas era muito forte; o sargento Jonas apoiou-o e ele se recostou na cama; pegou um pequeno espelho numa mesa de cabeceira e mirou-se; o cabelo crescera até os ombros e uma basta barba castanha estava onde antes existia um rosto limpo; não se incomodou com isso, poderia cortar o cabelo e barbear-se mais tarde. Pensou em tudo o que vivera até então, desde o dia em que decidira se alistar até aquele momento no hospital de sangue; de repente percebeu que o sargento o encarava pensativo.
- Tenente, me diga uma coisa, com toda sinceridade que o senhor puder; por que veio lutar, se eu assinei um contrato para substituir o senhor?
Jerônimo respirou fundo, sentindo a dor do ferimento nas costelas; sabia que um dia esse momento chegaria, de uma forma ou de outra.
- No meu pensamento, não achei justo que viesses deixando família para trás como disseste; achei que vindo e procurando servir aqui justificaria minha aparente covardia.
- Então tenente, tenho uma coisa a confessar ao senhor, mas imploro que não me censure, por favor, tive de fazer isso para ajudar alguém com quem me importo muito.
- Então fale; o que quer que seja não o censurarei, nunca podemos saber o que o desespero leva alguém a fazer.
O sargento, calmamente, contou que, na verdade, a pessoa em dificuldades não era a esposa – ele não era casado – mas a irmã, que havia dado um “mau passo” e por isso tinha tido uma filha com um homem que, ele descobriu depois, era casado e não poderia nem mesmo reconhecer a criança; assim, criou a história de que era casado e o sogro morrera com dívidas para sensibilizar o representante do Barão, a fim de que pudesse receber o dinheiro que, pelo menos por algum tempo, ajudaria a irmã.
Jerônimo ficou encarando Jonas com uma expressão de surpresa. Então ele entrara naquela desventura toda por uma história que, no fim das contas, não era real? Quis enraivecer, esbravejar, mas a rudeza da guerra ensinou a ele a entender de forma muito mais madura as coisas que o rodeavam; o idealista havia morrido; restava o homem prático, mas não despido de sentimentos; refletiu sobre a atitude do sargento e viu que, no fim de tudo, faria a mesma coisa se tivesse a chance.
- Pelo menos nós sobrevivemos, não é, sargento?
- A gente pode dizer que teve sorte, tenente, muita sorte.

Em Jacareí, Manuel Fogaça não tocava no nome do filho; mesmo que estivesse vivo, para ele estava morto; como ele ousou desobedecer ao pai e ainda deixá-lo em posição delicada com o Barão de Santa Branca, que tinha arrumado tudo para que ele escapasse dessa esparrela da guerra? Por mais que o Barão tivesse relevado tal atitude, ainda assim ele se sentia envergonhado, não sabendo o que fazer; a mãe, sabedora do temperamento do marido, não tocava no assunto, mas sempre tinha o terço na mão, rezando sempre pelo retorno do filho e que Deus abrandasse o coração do pai.

Em Vassouras, Luiza e a mãe dividiam a angústia de notícias de Jerônimo; rezavam às vezes juntas, mas sempre disfarçando sua preocupação do pai, pois ele mesmo manifestara seu desprazer quando Jerônimo resolvera se alistar; não se comentava o assunto com receio de irritá-lo.

Jerônimo, apoiado em muletas, já dava alguns passos ao redor da cama, sempre ajudado por Jonas, ainda com o braço na tipoia; pensava cada vez mais em Luiza e ansiava o momento em que pudesse revê-la; parecia que o tempo não passava, que os dias pareciam não correr; numa tarde, porém, um grupo de cavalarianos chegou ruidoso na frente do hospital, disparando para o ar, com expressões de alegria.
- A guerra acabou! Solano Lopez morreu! – gritavam sem parar
Jonas trouxe a notícia para ele assim que soube; depois do combate de Aquidaban, Solano Lopez, com um punhado de soldados ainda fiéis, foi cercado nas proximidades do Cerro Corá; seus homens foram mortos ou desertaram e ficaram apenas ele, seu filho Panchito, sua mulher Elisa Lynch e alguns membros de sua guarda pessoal;  em menor número e intimado a render-se, recusou a oferta e arremeteu com os homens que lhe restavam, dizendo “Muero con mi pátria”, até que foi baleado e lanceado, morrendo nas margens do arroio; o filho foi igualmente baleado e morto, sobrando apenas a mulher, que foi escoltada até a tenda do Conde D’Eu, não antes que os sodados cortassem um dedo e uma orelha do ditador. Jerônimo, pela primeira vez, respirara aliviado. Era o fim.


Ficou em dúvida se o pai o receberia; os cabelos e barba longos escondiam-lhe o rosto, o uniforme surrado dava um aspecto de abandono; conservara o sabre e o revólver, enrolados na manta que carregava enrolada em diagonal no ombro direito; a dor do ferimento ainda latejava um pouco, mas bem menos; despedira-se de Jonas ainda em Mato Grosso, pois ele soube que a irmã se mudara para o interior da província do Rio de Janeiro, pois tinha comprado uma casa melhor e se estabelecera lá com o filho; era uma vida nova e eles, mais do que nunca, a mereciam
- Vá com Deus, Jonas; acabaram-se postos, patentes e graus; agora, somos amigos. Aproveite essa nova vida com sua irmã. Fique bem e prospere.
- O senhor vá com Ele também. Que Ele abrande o coração de seu pai e de sua família.
Um abraço selou a despedida e cada um seguiu seu caminho.
Chegou em Jacareí pela noite, no carroção de um agricultor; fizera uma longa viagem desde Dourados até a província de São Paulo, o uniforme surrado ora despertando compaixão, ora desconfiança; o fluxo de soldados que retornavam da guerra era grande, muitas vezes dando origem a confusão e dificuldades. Quando chegou, a luz dos lampiões a gás e da lua davam um colorido diferente à cidade; passou pelo palacete do Barão de Jacareí, onde uma janela ainda emitia uma luz bruxuleante, em direção à Praça Anchieta, onde apenas os lampiões iluminavam a paisagem; vencido pelo cansaço, sentou num dos bancos da praça, onde, sem hesitar, dormiu.



A sineta da carroça de leite o acordou antes do sol nascer; apanhou suas coisas no banco da praça e acompanhou a carroça até sua casa; a primeira pessoa que viu foi Donana Mourão, uma viúva vizinha do seu pai, que sempre levantava cedo para receber pessoalmente o leiteiro; depois viu a porta de sua casa abrir e dela saiu a forra Cecília, empregada de sua mãe, esperando para pegar igualmente o leite para o desjejum; lembrou das vezes que a mãe lhe servia na infância e sentiu falta desse apego. Cecília divisou a figura andrajosa vindo na direção dela e entrou correndo, esquecendo de pegar o galão de leite; minutos depois ele viu a mãe sair à rua, vir até ele, segurando seus braços num olhar de súplica
- Meu filho, me diga por favor, tens notícia um moço chamado Jerônimo Fogaça? É meu filho, servindo no 11º. de Voluntários; o senhor o viu? Por favor, responda a uma mãe aflita!!!
Ele não conteve as lágrimas.
- Eu mudei tanto assim que não se lembra mais, minha mãe?
Só então que ela reparou nos olhos do filho; não eram mais os olhos joviais com os quais saíra, mas olhos endurecidos pelo infortúnio da guerra; só Deus para saber se sua alma estaria ferida junto com o corpo.
- Meu filho, meu filho!!!! – Dizia ela enquanto o apertava em um longo abraço, como a querer não mais se apartar.
- Onde está meu pai? – Perguntou ansioso, imaginando o confronto que viria
- Seu pai está resolvendo um caso em Santa Branca, só chega amanhã de manhã. Venha, por favor, venha e tire esse peso da viagem e da guerra.
O banho pareceu tirar todo o fardo que carregara nas costas esses anos todos; enxugou-se e olhou no espelho; o ferimento do machete e do tiro nas costelas ainda tinham cicatrizes bem visíveis, marcas lívidas que, ele sabia, não iriam abandoná-lo jamais; decidiu não tirar a barba, mas deixou que Cecília lhe cortasse o cabelo, deixando-o um pouco acima dos ombros; emagrecera a ponto de suas roupas ficarem folgadas, o que o fez gracejar um pouco; o uniforme e os andrajos com os quais chegara foram queimados por Cecília no quintal por ordem sua; a guerra ficaria apenas na lembrança, exceto pelo Colt e pelo sabre, que mantivera consigo; depois de tomar o desjejum e vestir-se, pegou papel, tinteiro e pena e começou a escrever para  Luiza...


A carta chegou quando Luiza chegava da missa matinal a qual ela sempre comparecia com a sua mãe; embora fosse em seu íntimo uma livre-pensadora, ela acedia sempre aos convites da mãe, pois era o tempo que tinham para conversar longe das vistas do pai; Izolina entregou a ela o envelope; que ela guardou para ler quando fosse dormir; a mãe trocou com ela um olhar cúmplice ao ver os olhos da filha brilharem...
No quarto, ela abriu o envelope com pressa, vendo que o carimbo não era mais da circunscrição militar, mas da província de São Paulo, o que queria dizer que ele já tinha voltado; pousou os olhos no papel e leu sem a pressa com a qual abrira o envelope; a carta falava das coisas vividas por ele no Paraguai, desde o princípio até o momento em que fora ferido, e de como a imagem dela foi a única guarida dele todo esse tempo; pedia perdão pelo beijo roubado e pelo impulso infantil, dizendo que “uma pessoa diferente votara da guerra, e que o coração dele seria dela, se assim ela quisesse”. Essa última frase a fez arfar, apertando a carta contra o peito; mas a conclusão a fez bambear, quando ele disse que viria visita-la, assim que pudesse...

O pai chegara pelo fim da tarde, contrariando a previsão dada pela esposa, mas, tendo resolvido a contento o caso em Santa Branca, iria descansar para retomar o trabalho no dia seguinte; pendurou a sobrecasaca e o chapéu no mancebo e só depois percebeu o jovem de cabelos castanhos e barba a esperá-lo na sala; percebeu o olhar firme, como se instilasse uma calma coragem, presente naqueles que souberam ultrapassar com galhardia a adversidade.
- Boa tarde meu jovem, não sei se tinha algum compromisso com o senhor, mas espero que minha esposa o tenha recebido bem
Manuel Fogaça olhou novamente para o homem, percebendo algo de familiar, algo de conhecido no ar daquele que o fitava. Esforçou-se para lembrar, mas não conseguia saber de onde vinha aquela sensação de familiaridade.
- Posso saber o que o traz a minha casa, senhor...?
Jerônimo levantou-se e foi na direção do pai; só então que Manuel Fogaça reconheceu o jeito de andar, de passo firme e resoluto, que era o que mais se lembrava do filho; controlou o espanto, limitando-se a manter a expressão impassível. Viu a mão que o filho estendia, sem saber o que fazer; Lidia, a mãe, observava de longe.
- Será que o seu orgulho será maior que o seu amor, a ponto de negar o perdão ao seu filho, meu pai?
Manuel Fogaça continuou impassível; dentro dele, a alegria de reencontrar o filho lutava com o brio da autoridade desobedecida; queria derramar toda a raiva e a vergonha que sentia ao ver seu esforço jogado abaixo, quando ele havia ignorado o contrato e se alistado; mas se sentia alegre porque o filho retornara vivo da guerra; deixou, então que a alegria vencesse, e, recusando a mão que o filho estendera, em vez disso, abraçou-o demoradamente.
- Não há mais nada a ser dito, meu filho – disse o pai – voltaste, e sei que voltaste um homem. Vi no seu olhar. Um olhar duro, de quem viu o pior da vida.
- Sim, meu pai, eu vi; não sou o mesmo que saiu daqui, em muitas coisas.
-Conversaremos sobre isso, meu filho; mas antes precisas fazer uma coisa que me aliviará muito. Visite o Barão; converse com ele e fale do que você viveu; ele saberá escutá-lo.
-Sei muito bem da situação difícil que o senhor ficou com ele, meu pai. Não se preocupe, eu conversarei com ele.
Abraçaram-se mais uma vez e caminharam juntos até a sala de jantar; Lidia, observando da cozinha, não cabia em si de felicidade.

O Barão de Santa Branca o recebeu no começo da noite, pois de dia ficava feitorando as fazendas, sendo difícil encontra-lo nessa hora. Jerônimo entregou o chapéu e a bengala ao criado e esperou na sala de música; não demorou muito e o Barão apareceu, usando uma sobrecasaca cinza e calças pretas. Convidou Jerônimo a sentar-se e observou o porte diferente; não era mais o jovem que jantara naquela mesma casa anos antes; agora era um homem que o encarava, olhar sério e decidido.
- Com que então está vivo, meu rapaz; mas a que devo a honra da visita?
- Bem, Senhor Barão, minha visita diz respeito à dívida que eu e meu pai temos com o senhor; sabemos que eu não honrei o contrato de substituição e isso eu estou preparado para reparar o fato, dentro de minhas possibilidades.
- Ora essa, meu rapaz! Eu disse a seu pai que isso era um favor de amigos e que eu não queria mais saber de tal coisa! Seu pai é um homem de brios e honra e o respeito por isso; não é tal coisa que fará nossa amizade de anos se desfazer! Diga a seu pai que não se apoquente que o assunto está morto e enterrado e diga a ele que esqueça disso, entendeu?
- Entendi, sim, Barão, eu falarei a ele.
- Me faria muito feliz se ficasse para o jantar, meu jovem; posso pedir que ponham mais um prato à mesa? Quero que me conte das coisas da guerra, se não se opuser, é claro.
- Nem um pouco Barão; sinto-me honrado.

Depois do jantar, voltou para casa e conversou com os pais, relatando a conversa que teve com o Barão; depois, foi para o quarto e arrumou algumas mudas de roupa em uma mala, pois ainda tinha uma coisa muito importante para fazer.
Ia para Vassouras, ver Luiza
Já havia avisado que iria, para que ela tivesse tempo de preparar pai e mãe para tal chegada; o pai foi o mais difícil de dobrar, pois ainda se recordava da atitude de desobediência que o fez ir à guerra; mas, ao saber que pai e filho tinham se acertado, concordou em recebe-lo.
Ele chegou de manhã cedo, procurou uma hospedaria para ficar e, logo que pôde, dirigiu-se à casa do Comendador Andrade; chegou às onze, sendo recebido por Izolina, que o encaminhou ao vestíbulo, onde o Comendador o esperava.
- Seja bem-vindo, Jerônimo; agradeça a Luzia por eu ser receptivo; na verdade eu queria muito lhe passar uma compostura, mas como soube que seu pai e você resolveram suas diferenças, achei por bem encerrar o assunto; de qualquer maneira, a guerra já terminou e a vida voltou ao normal, ao menos para algumas pessoas.

Luzia e a mãe, logo atrás do Comendador, sorriram; Jerônimo acompanhou-os até a sala de estar, onde foram servidos refrescos de pitanga e laranja; conversaram sobre amenidades, a guerra sendo posta de lado, mas o pai da moça não pôde deixar de discutir os problemas recorrentes do retorno dos veteranos
- Seu pai, meu colega, deve enfrentar os mesmos problemas que eu aqui, imagino – falou com ar sério – muitas viúvas e órfãos para amparar e resolver problemas. As senhoras, incluindo minha esposa, montaram uma comissão para tentar ajudar as famílias dos que ficaram despojados. Ocorre o mesmo em sua cidade?
- Da mesma forma, Comendador, da mesma forma; meu pai está se desdobrando muito para dar cobro de tudo.
- E qual será seu passo a partir de agora, meu rapaz, depois dessa guerra?
- É minha intenção voltar às Arcadas e concluir meus estudos, mas ainda não sei o que escolherei dentro da carreira jurídica. Penso talvez a Procuradoria Imperial
- Faça bem sua escolha, meu rapaz; abrace-a como se fosse um sacerdócio e se dedique de corpo e alma; só assim terá sucesso; e fique longe da política; ali só existem mandriões e mentirosos.
Dentro de si, Jerônimo exultava. As palavras do Comendador pareciam se perder ao vento; só tinha olhos para ela, para o rosto suave, os olhos expressivos, cabelos castanhos como os dele; cada movimento era um encanto.
A voz de Izolina avisando que o almoço estava servido trouxe-o de volta a realidade; sentou-se ao lado de Luiza, enquanto a refeição era servida; frangos de leite com molho de laranja, acompanhado de vinho tinto leve; comeu devagar, prestando atenção nela. O sorriso a fazia ainda mais encantadora.
- Bom, mas o senhor não veio aqui apenas falar dos seus planos como futuro advogado, não é mesmo? -  O comendador perguntou com leve ironia – poderemos tratar disso depois de um licor no estúdio, não acha?
Não pôde evitar o rubor nas faces; pousou os garfos na mesa, limpou os lábios com o guardanapo e pigarreou. Luiza e a mãe cobriram os sorrisos com os guardanapos, mas foi o pai que quebrou o gelo.
- Senão, o que manteria alguém vivo e o faria ainda viajar essa distância toda se não fosse por uma boa razão? Já fui jovem como você e sei ver quando o coração guia uma pessoa; termine sua refeição meu rapaz; mais tarde conversaremos. Um brinde a vocês, jovens!
O tilintar das taças era apenas um dos sinais de alegria naquela casa.

Mais tarde, no terraço, puderam dedicar um momento a eles; havia muito a ser dito, mas eles teriam tempo para dizê-lo. Olharam-se como se nada ao redor existisse.
- Agora não precisa mais me roubar beijos, mon cher – disse num sorriso – estou aqui e eles são seus...
Então veio o beijo, mais intenso que antes; agora, não mais duvidavam do que sentiam; era como se fosse aberta uma porta onde tudo se iluminava; para ele, era como se uma represa se rompesse; durante a guerra, evitava de toda forma as “farpelas”, mulheres que acompanhavam os soldados e que eram a válvula de escape na dureza dos combates; não que fosse talhado pra ser celibatário; estava apaixonado e não queria se deixar levar pelos prazeres fáceis dos soldados, o que deixava os colegas oficiais um tanto desconfiados. Mas acabara se acostumando, deixando que o dever militar fosse mais forte, virando quase um monge-soldado.

Ela reconheceu a medalha na lapela dele, tocando-a levemente; agradeceu do fundo do coração ao Menino Jesus de Praga por tê-lo protegido e o trazido de volta; deixou-se abraçar, enlevar, como se voasse...

A conversa com o Comendador Andrade foi amigável e bem-humorada, ele dando a bênção aos dois que, a partir de agora, eram noivos; organizaram os detalhes da festa que, a pedido da filha, seria feita em Jacareí; era importante, reunir lá as famílias dela e do futuro marido; o pai assentiu, vendo a felicidade nos olhos da filha.

Ela viajou com a mãe e com ele para organizar tudo; quando soube dos planos do casamento, o Barão de Santa Branca se prontificou a organizar a festa; não adiantaram os protestos dos pais dos noivos; o Barão fincou pé e deu o assunto por encerrado.
- Considerarei como desfeita se não aceitarem – disse com firmeza – será meu presente aos noivos!
Tudo assentido, começaram os preparativos...

Jerônimo estava exultante.
A dor dos ferimentos já era uma lembrança distante; as cicatrizes ficaram, mas agora ele só via felicidade; o tempo das dificuldades, das adversidades, dores e desencontros ficara para trás; agora, era viver o resto de sua vida com a mulher pela qual se apaixonara e que queria para a vida inteira. A mãe tentava ajeitar-lhe o colete, alinhá-lo com a calça para que as juntas dos suspensórios não aparecessem, mas a inquietude e a ansiedade falavam mais alto.
- Te põe quieto, meu filho, senão acabo te machucando! Calma que tudo se ajeita, logo estarás na Igreja.
Ele bem que tentava, mas não conseguia ficar quieto; só conseguia pensar que, logo, logo, estaria casado com a mulher que amava, coroando uma espera que começara com um beijo roubado e muito, muito sofrimento e dor; ele se transformara em outra pessoa e mesmo seus pensamentos e seu olhar sobre as coisas agora eram diferentes; existiam, porém, outras transformações, que guardara para si e que dividiria somente com a mulher amada, pelo menos por enquanto...

A Baronesa, a mãe da noiva e a mucama Izolina se esmeravam com o vestido; renda e seda vindas de França, além de tafetás e tules finíssimos foram pouco a pouco transformados, pelas mãos das três mulheres, em um belíssimo vestido de noiva, que Luzia experimentava pela primeira vez; não foi nem sequer necessária uma segunda prova; o vestido assentou perfeitamente.



A festa não poderia ter sido mais bonita.

Todos estavam presentes na Matriz, naquele domingo; Manuel Fogaça e Dona Lidia, O Barão e a Baronesa, assim como colegas das Arcadas que tinham ido prestigiar a cerimônia; apenas Jonas, detido por negócios no Rio de Janeiro, não poderia comparecer a tempo, mas mesmo assim enviou um presente aos noivos; Jerônimo não se cabia de tanta ansiedade, indo de um lado para outro, a espera difícil de acalmar
- Ora filho – a mãe tentava aclamá-lo – você a esperou três anos numa guerra; pode esperá-la mais um pouco – disse num gracejo

A espera finalmente foi quebrada pela chegada da noiva, de braço dado com o pai; o vestido, de rendas sobrepostas na seda, fazia a ilusão de quase flutuar, não andar; o véu de fino tule deixava uma visão apenas translúcida do rosto, como se reservasse a visão dela apenas quando chegasse junto dele; o buquê, uma combinação de rosas brancas e flores de laranjeira, foi arrumado de forma elegante e realçava a beleza da noiva; o pai cumprimentou-o e a deixou com ele, os dois de mãos dadas de frente para o celebrante, padre Júlio; diferente de outras cerimônias , mantiveram-se de mãos dadas o tempo inteiro, até o fim, entre os cantos e a liturgia, se entreolhavam em felicidade; finalmente, ele levantou o véu e viu o rosto que o encantara tanto, que seria o encanto de toda a vida; beijou-a terna mas intensamente, como se antevisse a felicidade que viria...

A Igreja inteira irrompeu em palmas.

O trem chegou em Petrópolis no meio da tarde, com um leve vento a agitar as folhas das árvores perto da estação; Jerônimo desceu de braço dado a Luzia,, enquanto os carregadores organizavam a bagagem nas caleças, a distancia era pouc até o chalé do Barão, que ficava no alto de uma das colinas que dominavam a cidade.
Entrou com ela nos braços, as bagagens previamente arrumadas no meio da sala; levou-a ao quarto principal, onde ervas aromáticas já haviam sido colocadas e davam um toque de frescor; os empregados e o caseiro já haviam cuidado de tudo antes da chegada do casal, deixando o chalé arrumado e bonito; apesar da simplicidade da fachada, era uma casa com decoração fina e móveis muito bem acabados;




Passearam depois pelo interior da casa, se encantando com cada detalhe;  encantaram-se com a vista da serra, a atmosfera que contrastava com o ar abafado da capital; percorriam todo de mãos dadas, unidos mais do que nunca; voltaram então para o quarto, onde uma garrafa de vinho e duas taças já estavam à espera; Jeronimo serviu a primeira taça, entregando-a a Luzia, serviu uma segunda taça e , olhos nos olhos, brindaram o seu amor.
- A nós, meu amor, felizes pra sempre – disse ele num sorriso – não mais dor nem espera.
- A todos os momentos que teremos, não mais apartados – completou ela
Beijaram-se intensamente, muito mais que da primeira vez; as mãos descobriam os caminhos apaixonados que tanto tempo sonharam; ela o despiu sem pressa, ela deixou que as mãos dele a revelassem; ela tirou a camisa e sentiu as cicatrizes do passado no corpo dele, ainda visíveis como relevos na pele; ele respirou fundo, como se as lembranças voltassem. Ela respondeu com um sussurro leve
- Devagar, meu amor, teremos todo o tempo do mundo; para trás ficou a tua dor; me toma nos braços e me faz tua...
Ela desatou o último laço de seda, a camisola descendo devagar, revelando a nudez plena de paixão.
- Venha, agora são nossos os dias...
E se amaram intensamente...

ITU, SÃO PAULO, ABRIL DE 1873

O casarão estava agitado; vários representantes, tanto de cafeicultores quanto de profissionais liberais e membros da sociedade local, se acotovelavam na sala do andar de cima, onde o anfitrião, Carlos Vasconcelos de Almeida Prado, tratava de  conversar com cada um , explicando cada parte do que seria tratado ali; por mais diferentes que fossem as vertentes políticas ali reunidas, estavam sob uma causa comum; a formação de um partido republicano; estavam ali desde lideranças radicais, que queriam o justiçamento da família imperial e a libertação completa dos escravos, até os mais moderados, que apenas queriam que a transição se desse por meios pacíficos; a causa atraíra membros dos quadros políticos do Império, como o deputado Prudente de Morais, influente na região de Piracicaba,  Presidida pelo cafeicultor João Tibiriçá Piratininga, começou com discussões acaloradas, mas logo depois se revestiu de solenidade; começavam naquele momento as primeiras deliberações do movimento republicano no Brasil.


Jeronimo, de braços cruzados, acompanhava as deliberações com vivo interesse; a guerra tinha transformado completamente suas convicções; o contato com oficiais argentinos e uruguaios tinha aberto os seus olhos para a natureza do regime republicano e sua ênfase na democracia plena e no sufrágio como forma de escolha dos governantes; vira mesmo as caixas de votação serem trazidas até onde estavam os soldados, para que eles pudessem votar; a simples visão disso o transformou para sempre; dividira suas opiniões com a esposa, ela simplesmente dizendo que ele deveria seguir o coração onde ele apontasse. E ele apontava pra onde estava agora. Tinha sido chamado por Jonas, que, dono de uma casa comercial em Valença, no interior da província fluminense, tinha prosperado e falara a Jeronimo sobre a convenção; o convite foi prontamente aceito e , ao reencontrar o amigo, puseram as conversas em dia
- Com que então prosperaste, meu caro Jonas; isso é muito bom! E estás muito bem pelo que vejo – comentou ao ver o ar jovial do amigo
- Sim, e tenho de agradecer a você que nunca desistiu de viver e isso me ajudou.
- Ajudamos um ao outro, Jonas , e tivemos sorte, mas o que temos nesse momento é algo que , no tempo certo, vai sacudir nosso país, acredite.
- Não estaria aqui se não acreditasse, caro amigo.
Abraçaram-se e retornaram para o salão, onde ainda corriam os debates...

CEMITÉRIO DO ARAÇÁ, MAIO DE 2014

O mapa não ajudava muito.
Tinham escolhido o sábado porque não era dia de muito movimento; tinha tirado uma abonada e queria aproveitar muito o dia, pois sabia que não teria mais tempo na semana seguinte;
- Vamos escolher os corredores mais adentro, Leonor, são os mais antigos, possivelmente do século XIX
- Vamos então, Thomé, quem sabe achamos.
Percorreram então o corredor lateral, que dava por muro leste; esquadrinharam as inscrições, deram voltas e nada, até que encontraram um senhor calvo, arrumando um ramalhete em um dos túmulos; o macacão surrado dava a ele um ar de ser tão velho quanto os túmulos ao redor.
- O senhor pode nos ajudar?
- Claro que sim, o que procuram?
- Um túmulo de um antepassado dela, Jeronimo Fogaça.
Ah! É fácil de onde estamos; é só seguir em frente, virar a primeira à direita e seguir em frente até o fim da quadra, é o primeiro à esquerda.
- Muito obrigado senhor – disse, tomando a direção indicada pelo homem.

Quando chegaram, a respiração dela parou.

Lá estava ele. 

Era um túmulo duplo; o relevo mostrava um homem e uma mulher deitados lado a lado, de mãos dadas, em trajes de época. Acima deles uma placa onde se lia ; “JERONIMO FOGAÇA – 1845- 1912 e LUZIA ANDRADE FOGAÇA – 1847-1913”, abaixo outra placa, onde se lia um poema “TANTO VIVEMOS TANTO AMAMOS; QUE O AMOR NOS GUIE NA ETERNIDADE”
Leonor e Thomé fitaram longamente as figuras do túmulo, sem dizer palavra; sentiram a essência do amor de tanto tempo, que parecia ser uma energia ainda presente...Olharam uma vez mais e se foram, não antes de deixar uma corbeille de rosas brancas...

JACAREÍ, JULHO DE 2014
  
André o deixara na porta do cartório, antes de tentar estacionar o carro; encontrou-a na porta já esperando, junto com a grande amiga Mara Lucia, que amara ser testemunha e madrinha daquele acontecimento; Leonor esperava ansiosa, o vestido ocre e a echarpe de cores vivas combinados em tom elegante; ele chegara de túnica branca e calça creme, e ainda lidava com as mangas quando finalmente o enteado chegou; subiram todos juntos...

A cerimônia foi simples mas significativa; após assinarem a declaração, Mara tirou uma pequena caixa de metal trabalhado, onde estavam as alianças; após a assinatura da certidão; cada um colocou a aliança no dedo do outro, sob os olhares felizes de Mara Lucia e André;

Na Praça da Matriz, tiraram fotos e passearam ao redor; lembraram-se dos votos feitos na mesma igreja pouco tempo antes, depois de terem retornado da descoberta no Araçá; olhavam-se felizes, embevecidos, lembrando quando ele dissera, do mais fundo do coração, “não sei mais ficar longe de você”. “Não fique”, foi a resposta dela, que marcava o toque final de uma história de amor que começara bem antes...


Percorreram o olhar pela praça, tentando imaginar como ela seria nos tempos da história do antepassado dela; imaginaram como seria o sobrado do Barão, as festas, a descoberta do amor de Jerônimo e Luzia; pareceu que o tempo se misturara e podiam ver como se os acontecimentos passassem na frente deles...
Subitamente, sentiu uma presença, como se fossem observados por alguém que só ela podia intuir; de repente, pareceu ver um homem e uma mulher, de braços dados a observar de longe e se desvanecerem...
Abraçou e beijou o marido; caminharam lentamente, junto com Mara Lucia, até o carro; na praça, um pôr-de-sol dava um brilho diferente à cidade...